Um Messias "cristão" em um antigo poema judaico (Parte 1)

Postado por Erike Couto

Visitando alguns sites israelenses há algumas semanas, me deparei com um site católico que tinha estudo no mínimo ousado: em um dos estudos do site, o autor afirmava que um trecho de um piyut encontrado no Machzor que, aparentemente falava do Messias judaico que há de vir, na verdade falava sobre o Messias Jesus! Li com calma o trecho da oração e, para a minha surpresa, realmente ela parece falar sobre Jesus Cristo. Colocarei aqui o texto original, a transliteração e a tradução dele feita por mim e comentada ad nauseam no Facebook (agradeço especialmente aos amigos Igor Miguel, Aíla Pinheiro e Davi Almeida pelos comentários e ajuda na tradução).


Original

Tradução Transliteração
Então, desde antes de "No princípio" / A Bela Morada e o Perene estabeleceu

Talpiot nas alturas, desde o princípio / Projetou antes que houvesse povo e língua

Aconselhou à Sua Divina Presença ali repousar / e guiar os errantes nas sendas retas

Se a iniquidade enrubesceu / Ele antecipou o "lavem-se" e "purifiquem-se"

Se com Sua fúria se enfureceu contra a Sua Temível / O Santo não ascendeu toda a Sua ira

Estávamos sujeitos em nossas ambições até agora / Nossa Rocha não berrou contra nós

Apartou-se de nós o Messias da Nossa Justiça / Ficamos aterrorizados, e não havia quem nos justificasse

Nossas transgressões e o jugo de nossas iniquidades / Ele carregou e foi ferido por causa de nossas iniquidades

Suportou sobre o ombro os nossos pecados / Ser achado como perdão por nossas transgressões

E por sua ferida nós fomos sarados / Ó Eterno, agora é o tempo para criará-lo como nova criatura

Do círculo elevá-Lo / Para desde Seir soltá-Lo,

Para anunciar a nós no Monte do Líbano / Uma segunda vez, por meio do Perene
'az millifnei bere'shit / Naveh veYinnon hishit

Talpiot marom meri'shon / Tikkan térem kol am velashon

Shichnô "atz sham lehashrot / Shogim lehadrich bid'rachei yesharot

Resha" 'im he'ediym / Rachatzu vehizzakku hiqdiym

Qétzef 'im qatzaf be'ayumatô / Qadosh lo' ya"iyr kol chamatô

Tzummatnu bevitz"enu "ad "attah / Tzurenu "aleinu lo' ga"tah

Panah mennu Meshiach Tzid'kenu / Pullatznu ve'ein mi letzaddekenu

"avonoteinu ve"ol pesha"einu / "Omês vehu' mecholal mippesha"einu

Sovêl "al shéchem chattô'teinu / Selichah metzô' la"avonoteinu

Nirpa' lanu bachavuratô / Netzach beriyyah chadashah livrô'tô

Mechug ha"alehu / MiSe"iyr had'lehu

Lehashmiy"enu beHar haLevanon / Sheniyt beyad Yinnon



Este pelo poema judaico foi composto por Eliezer Kalir. Nascido em algum ponto do séc. VII ao séc. X d.C, ele foiu um dos mais profícuos e antigos poetas litúrgicos. Mais sobre a vida dele pode ser encontrado na Enciclopédia Judaica. Um dos seus poemas mais conhecidos, "Az Lifnei Bereshit", é uma ode à glória de Deus que existia antes de haver Mundo e às coisas criadas por Ele para o sustento de Israel. Neste link é possível visualizar o Machzor¹ com este poema completo com uma tradução para o inglês e, nas páginas 231 e 232, pode-se ver o trecho cuja tradução se encontra acima.

Quem lê tanto a tradução acima quanto a que está no antigo Machzor se espanta com a semelhança entre o que é dito ali e com o Messias delineado no Novo Testamento, conhecido como Jesus. Farei alguns comentários que elucidarão alguns pontos do poema, evidenciando ainda mais essas semelhanças.

No verso 1, encontramos duas palavras hebraicas, "Naveh" e "Yinnon". Esses são os nomes dados ao Templo e ao Messias, respectivamente, na literatura mística judaica. O primeiro é baseado no seguinte versículo:

"Olha para Sião, a cidade das nossas solenidades; os teus olhos verão a Jerusalém, habitação (Navêh) quieta, tenda que não será removida, cujas estacas nunca serão arrancadas e das suas cordas nenhuma se quebrará." (Isaías 33:20)

E em Êxodo 15:13:

"Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação (navéh) da tua santidade."

Já a segunda denominação (Naveh) foi tirada deste versículo bíblico:

"Permaneça o seu nome eternamente; continue a sua fama (Yinnon, em hebraico) enquanto o sol durar , e os homens sejam abençoados nele; todas as nações o chamem bem-aventurado." (Salmos 72:17).

O trecho "enquanto o sol" é "lifnei hashemesh" em hebraico é literalmente "diante do sol" ou "antes do sol". Por causa do caráter explicitamente messiânico, da obscuridade em volta da palavra Yinnon e do significado ambíguo de "lifnei shemesh" (que pode ser entendido "antes [de existir] sol"), os judeus entenderam que o verso original "lifnei shemesh inon shmô" significa "antes de existir sol, seu nome já era Yinnon". Ainda que "Yinnon" seja um verbo e signifique "estabelecido", "o que é continuado", foi tomado por eles como um dos nomes próprios do Messias.

"Talpiot", no verso 2, é um hapax legomenon² na Bíblia Hebraica. Essa palavra se encontra no livro de Cantares, no seguinte verso: 

"O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para pendurar armas (heb.: talpiot); mil escudos pendem dela, todos broquéis de poderosos." (Cânticos 4:4)

Um dos significados atribuídos a Talpiot é de "tal piot", isto é, "monte de fios (de espadas ou armas)". Esse termo foi utilizado na tradição mística judaica ao Templo, a Jerusalém, ao Jardim do Éden (ou ao Paraíso) etc³ . Lembrando que há conexões, em diversos ligares da Bíblia, entre o Éden e Israel/Jerusalém/Templo, como em Gênesis 13:10, Isaías 51:3 e, no próprio Novo Testamento, na Carta aos Hebreus. Por isso os rabinos fizeram essa conexão dentro de uma única palavra.

Mas, segundo o poema, o Templo e o Messias já existiam "desde antes de 'No princípio'"? Sim! Isso parece muito com a idéia que João escreveu em seu Evangelho, ao falar do Verbo Divino (Jo 1:1) e com o que vemos de Templo Espiritual em Hb 8:1-2,5:

Ora, a suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da majestade, Ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem [...] como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou. (Hebreus 8:1-2,5)
Perceba a semelhança entre "ministro do verdadeiro santuário [...] o qual o Senhor fundou" com "A Bela Morada e o Perene estabeleceu", verso 1 do poema. Mas o poema encontra base para esse verso na tradição que se acha no Talmude Babilônico:

שבעה דברים נבראו קודם שנברא העולם, ואלו הן תורה ותשובה וגן עדן וגיהנם וכסא הכבוד ובית המקדש ושמו של משיח.
"sete coisas foram criadas antes que fosse criado o Mundo, e elas são: a Torá e o arrependimento, o Paraíso e o Inferno, o trono de Glória e o Templo, e o nome do Messias". (Talmude Babilônico, tratado Pesachim 54b).
Para dar base às coisas criadas antes do Mundo, os rabinos usaram versículos bíblicos. Para o nome do Messias, utilizaram o versículo de Sl 72:17, justamente o que fala de "Yinnon" (ou "o Perene").

Em breve publicarei mais um post com a Parte II deste estudo.

Notas:

1) Machzor (cuja tradução é "ciclo", "período") é o nome dado ao livro de orações que é utilizado especificamente na época de Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico) e no Yom Kippur (Dia da Expiação ou Perdão). Ele é repleto de orações místicas e poemas medievais, belamente compostos para expressar a profundidade desse período de juízo divino e confissões de pecados.

2) Hapax Legomenon significa "dito uma única vez" e se refere aos termos que aparecem somente uma vez em todos os textos bíblicos.

3)  http://www.etzion.org.il/vbm/archive/10-jeru/17jeru.php