Como um cristão deve celebrar a Páscoa?

Postado por Erike Couto

Marcadores: , , , , , , , , , ,

Como um cristão deve celebrar a Páscoa?


Introdução

Existem hoje muitos movimentos que têm se distanciado da verdade das Escrituras e da simplicidade do Evangelho. Movimentos tais como o das Testemunhas de Jeová ou do Mormonismo são, já de longa data, reconhecidamente heréticos pelos cristãos. Mas, há vários outros movimentos que têm surgido e se espalhado entre igrejas evangélicas (e até católicas!), de forma sorrateira e diversificada. Dentre estes, um é especialmente bem perigoso à saúde da fé cristã: o movimento do restauracionismo. Em pontos gerais, ele propõe uma volta à Igreja do primeiro século (ou à Igreja dos Apóstolos), pois ela era pura e sem mácula, em contraposição com a Igreja dos outros séculos, com doutrinas estranhas e de origens pagãs.

Existem graus de heresias dentro do movimento restauracionista. Mas há uma lógica interna, uma regra dentro do movimento, que leva aqueles cristãos, ou as suas igrejas que adotam seus pressupostos, das heresias mais leves às mais graves. Esta regra é o pressuposto de que a Igreja primitiva ou do primeiro século era a igreja mais pura que poderia ter havido. Um outro passo que os adeptos desse movimento dão, após esse, é o de considerar a predominância de judeus e da judaicidade da Igreja antiga um critério de pureza e de imitação pela Igreja atual. Eles não atentam ao fato de que a Igreja do Novo Pacto estava sendo iniciada no seio de Israel, indo em direção às nações. Os restauracionistas afirmam que a Igreja do século II d.C em diante passou a comportar muito mais não-judeus (ou gentios) do que judeus, e então os elementos da cultura gentílica, pagãos e anti-bíblicos entraram nela. Por isso que hoje a Igreja precisa urgentemente se despir destes elementos e substituí-los por elementos da identidade e cultura judaicas. Com certeza essa é uma visão distorcida da liberdade cristã e do acolhimento das nações na Igreja através do Evangelho.

Em um nível mais leve, pode aparentar ser ações até inofensivas, como a negação na celebração da Páscoa ou do Natal cristãos somente. Mas, em graus mais graves aos quais esta lógica pode levar, estas igrejas podem se judaizar completamente, adotando as festas bíblicas ("Por que não? São bíblicas!" dizem...) e judaicas, utilizando-se expressivamente da língua hebraica nos cultos e louvores, instaurando a circuncisão e a autoafirmação de identidade judaica entre não-judeus etc. No campo da doutrina, podem chegar à negação daquilo que consideram "posteriores" ao primeiro século como a Trindade, o cânon (ou o próprio) do Novo Testamento como inspirado, as duas naturezas de Cristo (a humana e a divina), a salvação somente pela graça (pois o cumprimento da Lei é definitivo à vida dos membros destes movimentos) etc. São pontos que mereciam destaque aqui para serem tratados em sua gravidade, mas tratarei deles em outros posts. Neste - por causa da época da Páscoa em que nos encontramos - tratarei somente de um subponto: a celebração da Páscoa cristã e sua rejeição pelo movimento restauracionista.

A Páscoa: definição

Páscoa é o nome apostuguezado do nome hebraico פֵּסַח (pêssach)¹. Essa forma portuguesa veio via grego, πάσχα (páscha). A palavra hebraica deriva da raiz פ.ס.ח. que significa "saltar, pular". Como ilustração, a palavra "coxo" em hebraico vem desta raiz, פִּסֵחַ (pissêach), justamente por causa da deficiência que causa-lhe a necessidade de pulos. Essa festa foi instituída pelo próprio Deus, quando tirou israelitas do Egito no êxodo à terra de Canaã, a terra prometida a Abraão (Gn 12:7).

Sangue do cordeiro sendo passado nos umbrais das casas dos israelitas.

A festa em si foi instituída no capítulo 12 de Êxodo. Na iminência da última e mais terrível praga sobre o Egito - a morte dos primogênitos -, Deus institui um sinal para distinguir os israelitas dos egípcios: cada chefe de família deveria tomar um cordeiro sem defeito no 10º dia do mês do calendário hebreu (mês de Abibe ou Nisã, como é conhecido em um período posterior) e preservá-lo em suas casas sob vigilância até o 14º dia, quando seria imolado ao pôr-do-sol. Seu sangue então seria retirado e aspergido com um molho de hissopo (talvez fosse o nosso orégano) sobre os umbrais das portas das casas. A carne do cordeiro também deveria ser comida completamente, sem deixar sobras, assada diretamente no fogo, acompanhada de ervas amargas e pães sem fermentação (ou ázimos). Os pães eram comidos assim e tudo deveria ser feito às pressas porque Deus, à meia-noite, iria passar por sobre o Egito. Os primogênitos dos egípcios, que não possuíam a marca nas portas, seriam mortos. Já os dos israelitas, que a possuíam, seriam preservados com vida. Logo depois, eles sairiam no meio da noite em marcha a Canaã, fugindo do Egito. Mas, longe de ser um evento isolado, todo este ritual foi ordenado também por Deus como uma celebração de memória, a ser feita de geração a geração, perpetuamente. Seria um meio vívido de ensinar um evento remoto às crianças das próximas gerações - e, como mais tarde Deuteronômio define, não mais de pressa e desespero, mas alegria e paz -, de como Deus libertou Seu povo do cativeiro e agora eles descansariam reclinados para a celebração.

A Páscoa Judaica: Lembrança do Passado, Antecipação do Futuro

A Páscoa foi comemorada por séculos pelos israelitas. Mas, depois do Exílio Babilônico (séc. VII a.C) ela passou por algumas incrementações. Ela ganhou uma ordem de como a ceia deveria ser feita (em hebraico: sêder), com cada elemento em seu momento de ser servido e explicado. Para esta explicação, foram reunidas histórias e contos sobre o Êxodo e seus personagens, bem como cânticos a serem entoados no momento da ceia. Isso tudo foi reunido séculos mais tarde em uma obra, que deu-se o nome de Hagadá (em hebraico: "o relato").

Mesa com os elementos do tradicional sêder (ceia) da Páscoa judaica
Por volta do ano 100 a.C, o famoso rabino Hilel acrescentou aos ritos da antiga Páscoa elementos novos, como quatro cálices a serem bebidos um por vez, após determinados elementos, como as ervas amargas e os pães ázimos. Cada cálice simbolizava algo: o primeiro era pelo início e santificação da cerimônia; o segundo é tomado antes dos ázimos e da explicação da Páscoa às crianças (arguição de quatro perguntas sobre a festa feitas por elas aos pais); o terceiro simboliza a ação de graças pelos elementos à mesa, a redenção do Egito e a abundância desta redenção (este cálice deve transbordar); e o último é o cálice dos louvores de agradecimento e júbilo pela redenção. Estes louvores também falavam da expectativa no futuro Messias que viria para trazer a libertação do cativeiro das nações a Israel e sua paz e reinado sobre o povo de Deus. Outros elementos foram acrescentados também mais ou menos nesta época, como o aficoman (אפיקומן). Durante a cerimônia, os pães eram partidos em vários pedaços. Um deles era encoberto com um pano e escondido até o fim da cerimônia, quando era comido juntamente com a carne do cordeiro pascal.

Jesus: o Messias Redentor e a Páscoa

Como vocês podem perceber, a Páscoa como descrita acima foi a celebrada por Cristo e seus discípulos. Eles, como bons judeus, a fizeram em todos os detalhes do mandamento e das tradições da época. Mas, mais que isso, Jesus também tomou a Páscoa como peça central, como chave importante para a compreensão de seu papel messiânico. Por isso esse relato é encontrado nos três dos quatro evangelhos (e, no último, apesar de não haver o relato, ele é ecoado no discurso à multidão em Jo 6).

Mais que celebrar, Jesus mostra-nos que houve uma mudança radical na história. A redenção e libertação de Israel prefigurava a libertação futura de Israel pelo Messias dos exílios e dos cativeiros nas mãos das nações estrangeiras e a instauração da paz definitiva. Prefigurava o banquete messiânico final, quando todos os justos, ressurretos, estariam sob o reinado de Deus.

Ao celebrar a ceia pascal, Jesus afirma que essas expectativas messiânicas estavam entrelaçadas com o estabelecimento da Nova Aliança profetizada em Jr 31, que incluía todas estas promessas também: a renovação e purificação de Israel (Ez 36), a libertação do domínio estrangeiro (Is 62:8-9), as bençãos frutíferas e abundantes que viriam sobre a terra deles (Jl 3:18) e o domínio do reinado de Deus com o Messias (Zc 14:9). Ele não somente as relaciona, mas também afirma solenemente que esta Nova Aliança estava se iniciando partir daquela última Páscoa com seus discípulos, antes da crucificação. Mas, o elemento desconsertante também entra em cena: Ele tinha afirmado antes daquele momento, e na Páscoa reafirma, que a Sua morte na cruz romana - o ato mais desonroso e maldito pelos judeus sob domínio de Roma - seria aquilo que daria início a este processo! Parecia que as coisas não estavam se encaixando. Não é em vão que os apóstolos e discípulos, depois de Sua morte, ficaram com medo e desnorteados.

A tumba está vazia, pois Ele ressuscitou!

Mas, aquele que tinha todos os sinais para ser o Messias prometido, o Rei de Israel, estava agora morto por um ato de execução romano, enfaixado e sepultado. Situação mais desesperadora não poderia haver! O que os discípulos não contavam é que os ditos misteriosos de Jesus sobre ser ele a ressurreição e a vida e as suas parábolas usando Jonas como referência de vida após a morte se concretizariam! E, ao terceiro dia, para espanto e alegria de todos, Jesus ressuscita!

A Páscoa era uma fechadura, com símbolos e elementos que apontavam a algo futuro trancados em uma cerimônia preservada desde o passado hebreu. E justamente a chave para destrancá-la, a ressurreição de Cristo, é dada ao povo de Deus e à História: Ele não ressuscita em um corpo qualquer, dessa criação somente, como Lázaro o foi algum tempo antes por Suas próprias mãos. Ele ressuscita em um corpo dessa criação renovado, restaurado e glorificado. Isso quer dizer que todas as promessas de libertação dos cativeiros e opressões estrangeiras e a restauração, citadas acima, foram cumpridas Nele. Jesus, como o novo Moisés, possui aquilo que as promessas de frutos abundantes e habitação com Deus, preditas nos profetas, prefiguravam: a própria plenitude do Espírito, recebida como dádiva pelo Pai. (Ez 36:25-30 e Jl 2:28). Mas, e os seus discípulos? Eles formavam essa comunidade de Israel renovada. Por isso Jesus chamou doze dentre eles para serem apóstolos (isto é, mensageiros das boas novas do Reino do Messias e sua restauração, representando as doze tribos de Israel) e chamou de "minha Igreja" edificada sobre a rocha em Mt 16:18 (que agora incluiria não somente judeus, mas também não-judeus, Mt 28:18-20). Como este povo reunido ao redor Dele era um com Ele - assim como Ele era um com o Pai (Jo 17:21) -, Jesus assim poderia compartilhar com eles a promessa do Espírito que Ele recebera do Pai, derramando-o sobre este povo, como ocorreu em Pentecostes (Lc 25:49 e At 2:33). Este Espírito seria aquele que faria a obra necessária no coração dos homens, trazendo o Reino de Deus escatológico para a história, mudando a vida deles e fazendo-os nascer de novo (Jo 3:3) e entrar em uma nova aliança firme, eterna e direta com Deus em Jesus Cristo (Jr 31:31-34 e I Tm 2:5).

Paralelos entre Páscoa Judaica e a Redenção em Cristo

Mas de que forma essa grande redenção em Cristo estava prefigurada na Páscoa bíblico-judaica? Paulo afirma depois em I Co 5:7 que Cristo é nosso cordeiro pascal porque, pelo seu sangue, eliminamos o fermento que simboliza o pecado e somos purificados. Isso porque a substituição no Egito do cordeiro que é morto para que os israelitas vivessem e fossem salvos da ira de Deus apontava para Cristo, que morre como maldito de Deus, recebendo a ira que era destinada a nós, para que vivêssemos em novidade de vida (Rm 6:4). Paulo diz em outro lugar também que Deus nos transportou do império das trevas para o Reino de Seu Filho Jesus, numa clara linguagem pascal. Os despojos de ouro e jóias que Israel tomou dos egípcios ao sair de sua terra e a recepção da Lei pelo povo no Sinai e, logo depois, o derramar do Espírito de profecia sobre os anciãos do povo, prefiguravam as riquezas que receberíamos em Cristo (Ef 3:16, Hb 11:26), Seu Espírito em Pentecostes e a Lei de Deus escrita em nossos corações, nos guiando em santificação à plenitude da vida que Cristo tem guardada para nós (I Pe 1:3-5).

Cordeiro
A Páscoa Cristã

O Cristianismo antigo compreendeu bem esta realidade suprema em Cristo, prefigurada pela Páscoa. Isso já tinha sido sinalizado nas diversas passagens referidas acima, e em uma em particular (Co 2:16-17): "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo". Cristo é a realidade substancial de tudo que foi dito e vivido por Israel e pelos profetas. Mais que isso, Ele é o rei de Israel que cumpre tudo o que Israel descumpriu na aliança firmada no Sinai: Ele foi fiel a todos os mandamentos de Deus e agradou o Pai em tudo que fez (Lc 3:22, Hb 4:14-15). Por isso que, aquela vinha que Isaías falara - cortada por ter dado frutos imaturos e inúteis (Is 5) - poderia agora florescer como ramos da videira verdadeira, Cristo (Jo 15). Ele é o Israel e israelita verdadeiro e, como corpo Dele e unidos a Ele, podemos ser parte de Sua semente bendita e receber as bençãos da Nova Aliança, pela fé, já prometidas remotamente a Abraão (Ga 3:16, 26-29). Israel tinha a promessa das bençãos, mas ele não a recebeu pois tropeçara (Rm 11:7). Então Jesus, no lugar de Israel, recebe as bençãos em plenitude e distribui aos eleitos de Deus, que creem e permanecem Nele. Somente desse modo israelitas e gentios podem receber as bençãos de Deus: unindo-se a Cristo, para serem restaurados e viverem como um único povo de Deus, a comunidade santa, a Igreja (Ef 2:14-18, Ap 7).

A Igreja cristã teve ataques de doutrinas espúrias, entre elas a que dizia que Israel foi rejeitado por Deus por ter rejeitado Jesus como Messias, matando-o. Isso é uma clara afronta às Escrituras, que diz que Cristo foi morto por propósito eterno de Deus (At 2:23), pelas mãos das autoridades judias (At 2:36) e romanas (não-judias - At 4:27-28). Paulo diz também que, como qualquer outro povo que não recebe o Evangelho, o judeu é indesculpável pelo seu pecado e receberá o juízo de Deus se não se unir a Cristo (Rm 1:16,18). Mas o apóstolo dos gentios também afirma claramente que, por amor aos patriarcas, Deus tem preservado a descendência de Israel até aquele momento (e até hoje também) para que conheçam a Cristo e se tornem então novamente participantes do povo de Deus, a Igreja que havia na Antiga Aliança feita no Sinai e que, agora, foi renovado na aliança iniciada na última Páscoa de Cristo. Na linguagem Paulina, eles poderão ser reenxertados na Oliveira e receber a seiva da raiz de Jessé, a seiva de Cristo (Rm 11).

Mas houve mestres e teólogos cristãos que afirmaram estes ensinos claros e coerentes das Escrituras. Um deles foi Gregório de Nazianzeno (séc. IV), quando, orando, disse que:
"Um mistério me encobriu; eu pude pegar uma porção pequena enquanto estava neste mistério, tanto quanto eu podia examinar por mim mesmo, agora eu venho com um mistério, trazendo comigo o Dia como um bom defensor de minha covardia e fraqueza: que Aquele que hoje subiu dentre os mortos renova-me também pelo Seu Espírito e veste-me com o Homem Novo; pode dar-me a sua Nova criação [...]. Ontem, o Cordeiro foi morto e os umbrais foram ungidos, e o Egito lamentou por seu primogênito, e o Destruidor passou por nós, e o selo foi terrível e temível, nós murados com o Preciosíssimo Sangue. Hoje temos sido feitos limpos saindo do Egito e de debaixo de Faraó, e não há ninguém para nos impedir de guardar a festa para o Senhor nosso Deus, a Festa da nossa partida, ou de celebrar essa festa, não no velho fermento da maldade e da malícia, mas nos ázimos da sinceridade e da verdade (1 Co 5:8), carregando conosco nada de fermento ímpios e egípcio. Ontem eu fui crucificado com Ele, hoje eu sou glorificado com Ele; ontem eu morri com Ele, hoje eu estou vivificado com ele, ontem eu fui sepultado com Ele, hoje eu levanto com ele. Ofereçamos a Ele, que sofreu e ressuscitou por nós! Tu podes pensar que talvez eu direi sobre ouro ou prata, ou obra tecida ou gemas e jóias, mas este material não passa apenas de terra, que continua aqui abaixo, e é na sua maior parte sempre possuído por homens maus, escravos do mundo e do príncipe do mundo. Ofereçamos-nos a Ele! O bem mais precioso para Deus, e mais adequado é isto! Que demos de volta à Imagem o que é feito pela imagem. Vamos reconhecer a nossa dignidade, vamos homenagear o nosso arquétipo, deixe-nos saber o poder do mistério, e pelo o que Cristo morreu." (Sobre a Páscoa e sua relutância, oração I - tradução livre)
Como podemos ver, o que o Cristianismo pregou sempre foi a realidade que temos em Cristo, prefigurada na antiga aliança. Por causa disso, a Igreja entendeu que o centro no qual gira o calendário religioso não era mais a saída do Egito, mas a saída de um antigo mundo/era para um novo mundo/era em Cristo; a saída de uma vida de pecado para uma vida de renovação, frutos, alegria e plenitude de em Cristo, em Seu Reino, iniciada na sua morte e estabelecida em sua ressurreição ao terceiro dia. Por isso, em 325 d.C, o I Concílio de Niceia definiu que a celebração da ressurreição de Cristo seria o centro da Páscoa entre os cristãos. Os judeus antes de Cristo fizeram a releitura da Páscoa, embutindo na redenção do Egito por Moisés a expectativa futura na redenção do Messias. Agora, os cristãos estavam embutindo nela o significado final: a redenção já chegou em Jesus, o Messias judeu e Salvador do Mundo! E, pode-se perguntar, com que autoridade fizeram isso? Fizeram-no com a autoridade do próprio fato alarmante e catastrófico da ressurreição de Cristo, o Verbo de Deus, Deus conosco.

Elementos Pagãos na Páscoa Cristã?

"Agora, há elementos pagãos na festa cristã", dizem alguns. Será? Bem, se pensarmos em "pagão" como sendo elementos de origem pagã que utilizamos hoje no contexto cristão, eu concordo que sim, há elementos pagãos. Mas isso não quer dizer que são símbolos espúrios, pois foram cristianizados e não são ruins neles mesmos. Se entendermos de outra forma a não ser esta, teremos então de radicalizar. Isso porque até mesmo a palavra "deus" (ou "Deus") tem uma origem pagã, derivada de uma antiga raiz indo-europeia que também gerou a palavra "Zeus" (até hoje esta semelhança é percebida!). Leia mais sobre este detalhe neste post que fiz há algum tempo.

Neste antigo post, eu explico que ser tachado de origem "pagã" não ajuda muito para definirmos o que devemos ou não utilizar, captar, crer e praticar. O que define, na verdade, isso é se este paganismo e todas as coisas que ele traz (idolatria, atribuição falsa de poderes da natureza ou puramente humanos, magia etc) ainda estão "ligados" aos animais, objetos e símbolos utilizados por nós. No caso aqui, na Páscoa cristã.

Dois símbolos da Páscoa cristã: o coelho e o ovo.
Para exemplificar, tomemos os símbolos do ovo e do coelho. Muito se é falado da provável (e suspeita!) origem pagã do primeiro. Mas muitos não sabem que este era um símbolo comum de criação, nascimento e vida usado na antiguidade por povos semitas, gregos, romanos e europeus. Com a cristianização do Império Romano, este símbolo foi aos poucos eliminando seu significado pagão e adquirindo um novo significado cristão (nova criação, novo nascimento e nova vida em Cristo e na Sua ressurreição). Provavelmente por isso que este símbolo ficou ligado à esta festa, mas com um novo significado, que retirava e desmistificava o paganismo sobre si e colocava a realidade suprema do que Cristo fez, para ser ensinado a povos de cultura pagã, estranha e, muitas vezes, oral daqueles povos evangelizados.

Mas estes elementos não permanecem pagãos mesmo depois de darmos um novo significado a eles? Não! Não permanecem pagãos. Um exemplo, mais uma vez, para ilustrar bem seria o das palavras. Tomemos o adjetivo "marcial". Ela significa "o que é da guerra" (latim: martialis). Mas, essa palavra originalmente estava ligada invariavelmente ao deus Marte, deus da guerra romano. Hoje, quando falamos "arte marcial", dificilmente pensamos em Marte ou a referência a alguma adoração a ele. O significado é dado pela cultura que circunda estes objetos. Se a cultura que há hoje fosse pagã, então o significado teria sobrevivido. Mas como a cultura é cristã, principalmente nos países europeus onde os símbolos da Páscoa se originaram, então o significado daqueles símbolos também vão ser redefinidos e os pagãos serão derrubados para sempre. A Bíblia promete um tempo em que a redenção, a restauração de todas as coisas viria (At 3:21) e que Deus traria a reconciliação de tudo a Cristo, nos dando também este ministério reconciliatório (2 Co 5:19). Somos embaixadores do Reino de Cristo e se a cultura ao nosso redor é remodelada para centrar Nele, devemos então nos alegrar e não abominá-la.

Ovos de Páscoa decorados com símbolos cristãos (Grécia)
Um problema realmente grave que o restauracionismo traz é expressar opiniões infundadas e unilaterais sobre as origens pagãs dos costumes, não analisando as complexidades na cultura, na história e na formação destes costumes. Algo que eles ignoram completamente é que há um símbolo antigo no sêder de Páscoa, usado por judeus no mundo inteiro, que é justamente (quem diria!) um ovo cozido tostado! Alguns estudos propõe inclusive a influência de trocar ovos de Páscoa pintados nas regiões do Leste Europeu e mais ao Oriente (dos quais saiu o costume cristão) a partir de costumes parecidos que já haviam entre os judeus (duvida? Clique aqui e aqui e veja!). Então, há a possibilidade das origens do ovo de Páscoa cristão serem a partir dos ovos usados em vários costumes e no próprio sêder entre os judeus.

O coelho é outro problema na cabeça de alguns: "um animal considerado impuro pela Torá (Lv 11:5) se torna um símbolo da Páscoa, no lugar - dizem novamente eles - do cordeiro?!". Claro que não é bem assim. Coelho era um animal associado a fertilidade (por sua alta taxa de reprodução) e era usado realmente como símbolo pré-cristão europeu relacionado à primavera e às celebrações da deusa Ostera, deusa solar da fertilidade e da primavera. Inclusive o nome Easter ("Páscoa" em inglês) pode ser associado a este nome, como pode-se ver aqui.  Mas, os missionários cristãos antigos, ao pregar àqueles povos germânicos da Europa, não utilizariam a linguagem que eles entendessem? "Easter" é da raiz das palavras "iluminar, irradiar luz", ligadas também à primavera e do sol que ilumina este período depois do escuro e longo inverno no hemisfério norte. Jesus, em vários momentos do Evangelho de João, afirma ser a vida e a ressurreição, usando também metáforas da luz (Jo 8:12). A cultura, então, foi redimida nestes lugares: o que antes era dedicado a deuses pagãos, agora poderia ser elevado ao Deus santo, através da luz de Cristo. E, se não fosse a cristianização destas regiões, nós muito provavelmente nunca teríamos conhecido o Evangelho.

Talvez a gente pense que esta forma de evangelismo seja bem estranha, mas há dificuldades inerentes à comunicação do Evangelho entre culturas totalmente diferentes que forçam este tipo de estratagema. Na Bíblia vemos Paulo em At 17 pregando aos gregos atenienses. Quem analisa aquele discurso, as palavras e verbos, os elementos e expressões que ele utiliza para formar seu discurso etc, vê que ele foi extremamente habilidoso em utilizar-se daquilo que eles tinham de mais grego para passar uma mensagem que veio de fora da cultura deles. No Antigo Testamento há também um texto curioso, em Is 19:19, que diz que o Egito um dia teria um obelisco no seu meio em honra a Deus. Sabemos que este monumento era erigido em honra ao deus Rá. Há também as afirmações feitas por Deus de que Ele é o marido (em heb.: בָּעָל ba'al) e supridor das necessidades de Israel, e não Baal, o deus cananeu da fertilidade (Os 2). Uma profecia também é dada, dizendo que as riquezas das nações seriam entregues ao Rei em Sião (Is 60:5). Podemos ver, enfim, que a coisa é mais complexa do que imaginamos ser, e explicações por demais simplistas não abarcam todas as dificuldades e complexidades sociais e culturais que são constatadas nas origens da Páscoa cristã.

Conclusão: A Celebração da Páscoa Judaica por Cristãos: problemas e soluções

Apesar de toda essa explicação anterior sobre estes símbolos, não é a minha intensão aqui fazer apologia irrestrita à celebração da Páscoa cristã utilizando-os, ou até mesmo a própria celebração desta festa cristã. Isso porque a celebração da Páscoa é um costume e uma boa tradição na Igreja, já que é uma resposta dela a este evento único e singular, que mudou a História e a fundou como comunidade redimida: Cristo, sua vinda, morte e ressurreição. Mas, mesmo celebrando este evento sublime, ainda assim ela é um costume. Por isso o cristão, em última análise, é desobrigado de celebrá-la, se assim optar. Mas, por honrar ao nosso Salvador e Sua obra, muitos ramos do Cristianismo, como eu, não viram mal em celebrá-la!

Alguns colocam o fato de os símbolos da Páscoa, e até a própria festa, estarem sem o significado cristão real - em grande parte por causa do secularismo e do mercado e sociedade consumista com seus ovos e coelhos de chocolate e propagandas de falsa fraternidade e alegria - como empecilhos para a celebração desta data. Mas, o que eles vêem como empecilho, seria na verdade um meio de mostrar a verdadeira glória da festa: o altar ao Deus desconhecido está lá, envolto em ovos e coelhos. Basta o nosso dedo apontá-lo e a nossa boca apregoar as Boas Novas da festa, e então ouvidos ouvirão e mentes se abriram para a realidade daquele altar.  

Por fim, se o problema são os símbolos, por causa de suas origens, que celebrem a Páscoa sem eles. Mesmo sabendo que o contexto era outro, o trecho de Rm 14 traz um ensino que pode também ser aplicado aqui. O verso 19 afirma que "sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros". Se é para o Senhor, lembre desta data com seus símbolos. Se não trouxer edificação, não o faça.

Mas, se tanto a desobrigação do cristão em celebrar a Páscoa cristã quanto a secularização dela e de seus símbolos fazem com que alguns não se lembrem desta data, o restauracionismo traz uma solução que considero na verdade como um problema que, de todos, é o maior: a proposta de celebrar integralmente a Páscoa judaica no lugar da Páscoa cristã, em comunidades não-judaicas.

É possível sim cristãos celebrarem a festa da Páscoa nos padrões bíblicos e judaicos, mas alguns cuidados precisam ser tomados, pois isso é delicado e pode trazer outros problemas. O Cristianismo, como falei antes, está centrado em Cristo. Paulo afirma que "ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo." (Cl 2:16-17). As festas bíblicas, o tabernáculo (ou o templo depois), o sacerdócio e os sacrifícios (como a Carta aos Hebreus detalha), os ritos de purificação e de santificação apontavam para uma última e suprema realidade: Cristo, Sua obra em carne e a obra do Espírito na Igreja. Por isso que o cristão, que está imerso nesta realidade e revestido de Cristo, não precisa cumpri-las mais, pois não somos participantes do povo do Antigo Pacto.

É por causa disso que, desde as origens, o Cristianismo sempre afirmou-se ser uma fé universal, para todos os povos, diferentemente do Judaísmo. Essa foi a briga dos Apóstolos, especialmente Paulo, com os judaizantes: o Judaísmo previa a circuncisão do não-judeu para que ele entrasse de fato na aliança de Deus com Seu povo. A circuncisão deste não-judeu, fazendo-o um prosélito, colocaria diante dele a responsabilidade do cumprimento de todos os outros mandamentos (receberia o que os sábios judeus denominavam "jugo da Torá" - cumpriria os mandamentos como um judeu, integralmente). Na Nova Aliança em Jesus, essa circuncisão seria feita interiormente, tanto com o próprio judeu quanto com o não-judeu. Desse modo, mesmo que o afastamento definitivo entre sinagoga e cristãos tenha ocorrido somente no concílio de Jamnia (do ano 90 até 130 d.C), este afastamento já estava estabelecido na raiz da pregação do Evangelho anos antes. Paulo, detalhando como isso funcionava, afirmou o seguinte: "qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? [...] Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; [...] Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz (i.e: aos judeus), para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei (i.e.: pelo cumprimento dos mandamentos), porque pela lei vem o conhecimento do pecado. [..] Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. [...] Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão (i.e.: o judeu), e por meio da fé a incircuncisão. (i.e.: o não-judeu)" (Rm 3:1, 9, 19-20, 27, 30).

Com estes muros definidos, o Judaísmo e o Cristianismo caminharam paralelamente, um se afastando do outro de forma gradual. Em algumas regiões, como em Antioquia, por causa da convivência mais geograficamente estreita entre judeus e cristãos, os limites precisaram ser melhor delineados, e o cristianismo precisou se autoafirmar também como uma religião independente do Judaísmo que não cria que Jesus era o Messias (houve, até algum tempo, judeus cristãos dentro da Igreja, alguns heréticos como os ebionitas, outros louvados por, mesmo sendo judeus, serem fiéis à doutrina cristã).

Estes limites estão rígidos hoje, mas não quer dizer que sejam opressores ou intransponíveis. Um cristão pode (e deve) saber a respeito das origens judaicas de sua crença e prática. Quando comecei dizendo que a prática da Páscoa judaica como solução aos cristãos, proposta pelos restauracionistas, fosse na verdade um problema, quis dizer que essa solução pode trazer um distanciamento gradual do verdadeiro sentido da Páscoa judaica, que é Cristo como o cumprimento das ordens de cerimônias do Antigo Testamento (que incluem o Sábado, as festas bíblicas e, em específico, a Páscoa). Nesse sentido, judeus e não-judeus recebe as benesses e bençãos do cumprimento destas ordenanças se estiverem em Cristo, estando desobrigado delas. Existem judeus crentes, chamados de messiânicos, que optam em celebrar estas festas do Antigo Testamento, incluindo a Páscoa bíblico-judaica. Mas, por estarem na Nova Aliança, eles devem fazê-lo como expressão cultural e lembrança por serem também parte do povo do antigo pacto, como parte do povo de Israel. Já o não-judeu pode optar em celebrá-las como uma experiência estética, de imersão no significado de como Cristo expressou ao povo de Israel as verdades eternas de Sua obra, os mistérios que estavam ocultos nos símbolos e nesta bela cerimônia até a Sua vinda em carne e a Sua futura parousia em glória. Isso é perfeitamente saudável e poderá trazer ao cristão o espírito de aproximação com o Israel físico para que, nas palavras de Paulo, ele incite "emulação" os judeus descrentes de hoje e, com a ajuda de Deus, possa até "salvar alguns deles" (Rm 11:14).

Notas
---------------------
1 - O "ch" de pêssach e páscha sempre é pronunciado como o ch do alemão (ex: nacht) ou o nosso "rr" bem forte (ex: carro).

1 comentários:

  1. @Danipalavra

    Bem enriquecedor! Parabens pela publicação.

Postar um comentário