Eu não creio no Arrebatamento Pré-tribulacionista...

Postado por Erike Couto

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Posto novamente aqui no blog Kakatuv uma nota que publiquei no meu perfil do Facebook. Ela trata sobre a doutrina conhecida popularmente como "Arrebatamento", que seria o rapto da Igreja por Cristo, nos ares, para então levá-la aos céus, antes da Grande Tribulação, quando o mundo receberia o julgamento da ira de Deus sobre o pecado, como suposto cumprimento da última semana (dentre as 70) de Daniel (cap. 9 e 12). Esta doutrina já rendeu várias profecias e visões (como uma foto em negativo que se espalhou há mais de dez anos pela internet, que revelaria o momento que isso ocorreria) e vários livros e filmes (como os best-sellers da série "Left Behind" - "Deixados para Trás" em português), alimentando na mente de cristãos sinceros a expectativa de uma grande fuga da realidade deste mundo, que jaz no maligno e não tem outra sorte a não ser passar pelo julgamento da ira de Deus, descrito em Apocalipse. 


Isso tudo seria muito deslumbrante e crível se não fosse um detalhe: essa doutrina não tem base alguma, nem nas Escrituras, nem na tradição ou nas expectativas judaicas da época de Cristo. Quem detalha sobre isso não sou eu, mas Yechiel Tzvi Lichtenstein (1831-1913).  Ele foi o primeiro rabino e pesquisador judeu-messiânico a fazer um comentário judaico do Novo Testamento totalmente em língua hebraica. Possuo uma cópia resumida de seus explêndidos comentários e traduzo um deles aqui (sobre I Ts 4:17), que se ocupa sobre sobre esta doutrina exposta acima, que podemos denominá-la de Arrebatamento Pré-tribulacionista:



"[...] Alguns interpretam estes versos afirmando que nós iremos ao encontro do Senhor nos ares, e então iremos para o céu, pois a morada dos crentes está no céu (II Co 5:1 e Fp 3:20). Dizem também que, provavelmente, o Senhor descerá dos céus (v. 16) e não chegará à Terra, mas somente reunirá os crentes nos ares e, de lá, irá com eles para o local celestial.


Esta idéia acima é equivocada. O versículo 4 de Zc 14 nega-a, quando afirma que 'naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém' (comparar também com At 1:11). Também é conhecido por nós, a partir dos ditos dos Profetas bíblicos, que o Messias viria para reinar em Jerusalém, a cidade santa, e então se cumpririam as palavras do Anjo (Lc 1:32-33) 'e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim'. Davi reinou em Jerusalém, e não no céu. O trono do Messias nos céus não é, de todo, o trono de Davi. Davi mesmo dissera sobre ele (Sl 110:1): 'Disse o SENHOR ao meu Senhor: assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés', isto é, que ele (o Messias) se assentaria à direita de Deus, e não Davi. Pedro confirma isso afirmando que 'Davi não subiu aos céus' (At 2:34). Por isso vemos em Mt 19:28 o seguinte: 'e Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração da criação, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel'. Então retornará o reino a Israel (At 1:6), como também é dito em Dn 7:27 'e o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão.' Desse modo, serão finalmente cumpridas todas as palavras faladas por Deus pelos santos profetas (At 4:21). Se cumprirá também a profecia de Jr 3:17, 'naquele dia, chamarão a Jerusalém Trono do SENHOR. Em Ap 20-8-9 diz-se a respeito de Gogue e Magogue cercando o acampamento dos santos e 'a cidade amada', justamente porque os santos estarão na Terra, em Jerusalém, e não nos céus. Nas referências de Segunda aos Coríntios e Aos Filipenses citadas acima, que dizem que a nossa cidadania e nossa morada estão nos céus, fala-se a repeito da habitação dos santos depois da morte, momentâneo, e não diz na verdade sobre os dias do (reinado do) Messias ou do Mundo Vindouro (isto é, a eternidade com Deus). Paulo mesmo diz que o Messias (II Tm 4) 'há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino'.


A verdade é que o arrebatamento nas nuvens ao encontro do Senhor, citada nestes versículos se relaciona àquilo já falado em Mt 25:1, 'ao encontro do noivo', pois o Messias é descrito a nós como se fosse o noivo que vem ao encontro da noiva, e os parentes da noiva e seus admiradores saem ao encontro do noivo e o trazem para a morada da noiva, como é conhecido no verso 10 de Mateus 25, 'e veio o noivo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas', logo depois que já tinham saído ao encontro dele (v. 6-7). Esta é a intenção aqui: todos os eleitos de Deus serão arrebatados nas nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e então o trarão para a cidade de seu reinado, na Terra, sobre o Monte das Oliveiras, para Jerusalém, a cidade santa. Isso é dito em Zc 14:5, 'e então virá o SENHOR meu Deus e todos os santos contigo' (comparar com Mt 25:31). [...] Da mesma forma que Arão saiu ao encontro de Moisés e se reuniu com ele, e o levou ao Egito (Ex 4:27), assim também diz-se aqui 'e então estaremos para sempre com o Senhor', isto é, não nos apartaremos dele mais porque quando Ele vier para a Terra, para Jerusalém, então nós também estaremos com Ele. É o que é dito também no verso 14, 'assim, trará Deus também os que dormem em Jesus com Ele', isto é, que os trará a Jerusalém para reinar com Ele. Também é dito em Ap 20:4, 'e viverão e reinarão com o Messias por mil anos'. Este é tempo chamado (entre os rabinos) de 'dias do Messias'.Há ainda um propósito para que ocorra o arrebatamento nas nuvens ao encontro do Senhor (antes de ele vir à Terra): o Senhor virá para o Monte das Oliveiras, como vimos acima, e os santos de todos os países, desde uma extremidade do mundo até a outra, não poderiam ir para lá, então o Senhor os chamará como ocorreu no retorno deles da Babilônia (Jr 50:4) e em Is 66:8, 'Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra num só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos'. Porque, num só instante, serão arrebatados nas nuvens todos os crentes, de uma extremidade dos céus até a outra, e virão ao encontro do Senhor, quando Ele descer sobre o Monte das Oliveiras. A isso aludiu também Isaías (60;8), 'Quem são estes que vêm voando como nuvens, e como pombas às suas janelas?'. Por isso Mt 24:30-31 diz o seguinte: 'Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus'. Isto é, todos serão tomados nas nuvens pelos anjos ao encontro do Senhor, como vimos acima. Isso tudo ocorrerá com os que viveram plenamente justos no Messias."


  • Fonte: Lichtenstein; Yechiel Tzvi. החדשה הברית בספר נבחרות סוגיות (Sugiot Nivcharot Besefer Habrit Hachadashah, 'Porções Selecionadas do Novo Testamento'). Leipzing, 1891-1904. Reedição: Keren Ahvah Meshihit (Israel), 2002.
  • Tradução: Erike Couto Lourenço (erike.hebraico@gmail.com). Blog:http://kakatuv.blogspot.com/).