Eu não creio no Arrebatamento Pré-tribulacionista...

Postado por Erike Couto

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Posto novamente aqui no blog Kakatuv uma nota que publiquei no meu perfil do Facebook. Ela trata sobre a doutrina conhecida popularmente como "Arrebatamento", que seria o rapto da Igreja por Cristo, nos ares, para então levá-la aos céus, antes da Grande Tribulação, quando o mundo receberia o julgamento da ira de Deus sobre o pecado, como suposto cumprimento da última semana (dentre as 70) de Daniel (cap. 9 e 12). Esta doutrina já rendeu várias profecias e visões (como uma foto em negativo que se espalhou há mais de dez anos pela internet, que revelaria o momento que isso ocorreria) e vários livros e filmes (como os best-sellers da série "Left Behind" - "Deixados para Trás" em português), alimentando na mente de cristãos sinceros a expectativa de uma grande fuga da realidade deste mundo, que jaz no maligno e não tem outra sorte a não ser passar pelo julgamento da ira de Deus, descrito em Apocalipse. 


Isso tudo seria muito deslumbrante e crível se não fosse um detalhe: essa doutrina não tem base alguma, nem nas Escrituras, nem na tradição ou nas expectativas judaicas da época de Cristo. Quem detalha sobre isso não sou eu, mas Yechiel Tzvi Lichtenstein (1831-1913).  Ele foi o primeiro rabino e pesquisador judeu-messiânico a fazer um comentário judaico do Novo Testamento totalmente em língua hebraica. Possuo uma cópia resumida de seus explêndidos comentários e traduzo um deles aqui (sobre I Ts 4:17), que se ocupa sobre sobre esta doutrina exposta acima, que podemos denominá-la de Arrebatamento Pré-tribulacionista:



"[...] Alguns interpretam estes versos afirmando que nós iremos ao encontro do Senhor nos ares, e então iremos para o céu, pois a morada dos crentes está no céu (II Co 5:1 e Fp 3:20). Dizem também que, provavelmente, o Senhor descerá dos céus (v. 16) e não chegará à Terra, mas somente reunirá os crentes nos ares e, de lá, irá com eles para o local celestial.


Esta idéia acima é equivocada. O versículo 4 de Zc 14 nega-a, quando afirma que 'naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém' (comparar também com At 1:11). Também é conhecido por nós, a partir dos ditos dos Profetas bíblicos, que o Messias viria para reinar em Jerusalém, a cidade santa, e então se cumpririam as palavras do Anjo (Lc 1:32-33) 'e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim'. Davi reinou em Jerusalém, e não no céu. O trono do Messias nos céus não é, de todo, o trono de Davi. Davi mesmo dissera sobre ele (Sl 110:1): 'Disse o SENHOR ao meu Senhor: assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés', isto é, que ele (o Messias) se assentaria à direita de Deus, e não Davi. Pedro confirma isso afirmando que 'Davi não subiu aos céus' (At 2:34). Por isso vemos em Mt 19:28 o seguinte: 'e Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração da criação, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel'. Então retornará o reino a Israel (At 1:6), como também é dito em Dn 7:27 'e o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão.' Desse modo, serão finalmente cumpridas todas as palavras faladas por Deus pelos santos profetas (At 4:21). Se cumprirá também a profecia de Jr 3:17, 'naquele dia, chamarão a Jerusalém Trono do SENHOR. Em Ap 20-8-9 diz-se a respeito de Gogue e Magogue cercando o acampamento dos santos e 'a cidade amada', justamente porque os santos estarão na Terra, em Jerusalém, e não nos céus. Nas referências de Segunda aos Coríntios e Aos Filipenses citadas acima, que dizem que a nossa cidadania e nossa morada estão nos céus, fala-se a repeito da habitação dos santos depois da morte, momentâneo, e não diz na verdade sobre os dias do (reinado do) Messias ou do Mundo Vindouro (isto é, a eternidade com Deus). Paulo mesmo diz que o Messias (II Tm 4) 'há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino'.


A verdade é que o arrebatamento nas nuvens ao encontro do Senhor, citada nestes versículos se relaciona àquilo já falado em Mt 25:1, 'ao encontro do noivo', pois o Messias é descrito a nós como se fosse o noivo que vem ao encontro da noiva, e os parentes da noiva e seus admiradores saem ao encontro do noivo e o trazem para a morada da noiva, como é conhecido no verso 10 de Mateus 25, 'e veio o noivo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas', logo depois que já tinham saído ao encontro dele (v. 6-7). Esta é a intenção aqui: todos os eleitos de Deus serão arrebatados nas nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e então o trarão para a cidade de seu reinado, na Terra, sobre o Monte das Oliveiras, para Jerusalém, a cidade santa. Isso é dito em Zc 14:5, 'e então virá o SENHOR meu Deus e todos os santos contigo' (comparar com Mt 25:31). [...] Da mesma forma que Arão saiu ao encontro de Moisés e se reuniu com ele, e o levou ao Egito (Ex 4:27), assim também diz-se aqui 'e então estaremos para sempre com o Senhor', isto é, não nos apartaremos dele mais porque quando Ele vier para a Terra, para Jerusalém, então nós também estaremos com Ele. É o que é dito também no verso 14, 'assim, trará Deus também os que dormem em Jesus com Ele', isto é, que os trará a Jerusalém para reinar com Ele. Também é dito em Ap 20:4, 'e viverão e reinarão com o Messias por mil anos'. Este é tempo chamado (entre os rabinos) de 'dias do Messias'.Há ainda um propósito para que ocorra o arrebatamento nas nuvens ao encontro do Senhor (antes de ele vir à Terra): o Senhor virá para o Monte das Oliveiras, como vimos acima, e os santos de todos os países, desde uma extremidade do mundo até a outra, não poderiam ir para lá, então o Senhor os chamará como ocorreu no retorno deles da Babilônia (Jr 50:4) e em Is 66:8, 'Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra num só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos'. Porque, num só instante, serão arrebatados nas nuvens todos os crentes, de uma extremidade dos céus até a outra, e virão ao encontro do Senhor, quando Ele descer sobre o Monte das Oliveiras. A isso aludiu também Isaías (60;8), 'Quem são estes que vêm voando como nuvens, e como pombas às suas janelas?'. Por isso Mt 24:30-31 diz o seguinte: 'Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus'. Isto é, todos serão tomados nas nuvens pelos anjos ao encontro do Senhor, como vimos acima. Isso tudo ocorrerá com os que viveram plenamente justos no Messias."


  • Fonte: Lichtenstein; Yechiel Tzvi. החדשה הברית בספר נבחרות סוגיות (Sugiot Nivcharot Besefer Habrit Hachadashah, 'Porções Selecionadas do Novo Testamento'). Leipzing, 1891-1904. Reedição: Keren Ahvah Meshihit (Israel), 2002.
  • Tradução: Erike Couto Lourenço (erike.hebraico@gmail.com). Blog:http://kakatuv.blogspot.com/).

O Nome "Deus" é pagão?

Postado por Erike Couto

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Decidi publicar este post por causa de três coisas. A primeira é que ele estava no rascunho desde o ano passado, mas nunca havia terminado (sempre tenho muita coisa no rascunho rsrs). Segundo, presenciei desde que estive na minha adolescência em Salvador e atualmente, de forma cada vez mais constante, muitos que se dizem cristãos rejeitarem doutrinas centrais indo em direção a verdadeiras heresias sobre Deus, quem Ele é e como Ele age na Criação. Uma destas heresias é a rejeição da Trindade. Isso por si só é um perigo muito grande, pois essa doutrina é a explicação de como Deus se revelou ao mundo através de Jesus, Filho de Deus, e como Seu Espírito age em nós hoje, continuando a obra de reconciliação de Deus com o Homem. Mas, se já não bastava a rejeição a esta doutrina cristã, alguns grupos estão se direcionando para um lado ainda mais extremo (o terceiro, e principal, motivo do post): alguns grupos anti-trinitarianos também estão rejeitando o próprio substantivo para "Deus" no português, ou em qualquer língua que não sejam aqueles substantivos da língua hebraica que se refiram a Deus ou títulos de características dele, como "Eterno". Eles usam uma justificativa para ambas as rejeições: estes grupos e pessoas dizem que não aceitam tais doutrinas e palavras pois foi "Roma" que as inventou e ludibriou dessa forma a todos os cristãos com seus erros.

Aqui por enquanto não tratarei sobre a Trindade. Para uma compreensão correta desta doutrina, recomendo o post do blog Pensar, do meu amigo Igor Miguel. Ele é o primeiro de uma série que está ficando muito boa! Por ora, tratarei sobre o nome "Deus", sua origem e porque podemos usar este nome tranquilamente.

Origem do Nome em Português


O nome "Deus" é derivado de uma antiga raíz da hipotética língua "indo-européia" (dos povos que formaram o povo europeu e indiano), Dyaus, que significa "claro", "brilhante". Era o nome de uma divindade suprema entre as tribos do Vale do Indo (região limítrofe entre a Índia e Irã), que era cultuado frequentemente com outro título anexo àquele, Pita, que significa "Senhor". Daí, "Dyaus Pita", Senhor do dia claro (ou céu claro). Hoje, restam ainda vestígios no Sânscrito (língua litúrgica hindu) deste termo como o termo para "deus", deva. 

Sabe-se que os gregos e romanos tem ligações linguísticas e étnicas muito antigas com estas tribos da Índia (chamadas de "indo-arianas"), este termo para seu antigo deus passou para o grego antigo nomeando a divindade suprema do Monte Olimpo, Zeus, divindade suprema dos gregos. Podemos ver esta derivação de "Zeus" da palavra Dyaus/Deva antigos naquela palavra declinada no genitivo grego, Dió, como em hiou Dió ("filho de Zeus"). 

Na antiga religião dos povos de Lácio (região próxima à Roma, de onde veio a língua latina) ocorreu a derivação de dois termos que também vieram claramente daqueles termos do indo-europeu e das línguas do Vale do Indo. O primeiro deles é o termo usado para nomear um de seus deuses, (D)ius pater, "(Deus) Pai (que habita os) céus". Este termo evoluiu depois para um nome próprio, "Júpiter", nomeando a suprema divindade do panteão romano, correspondente ao "Zeus" grego. O outro termo é o nome latino para nomear as divindades no geral, deus, que é a palavra-mãe da nossa "deus". Já no grego antigo, a palavra para "deus", theos, não tem relação com estas raízes antigas indo-européias como deva ou dyaus, mas vem de uma raíz grega mesmo que significa "iluminar".


Nem a Bíblia Escapa...




Pois bem! As pessoas que advogam tais opiniões relatadas no início podem ler isso tudo e dizer: "Estão vendo?! É verdade! 'Deus' é um nome que derivou de um nome pagão!". Isso mesmo! Você está correto. Aí respondem: "Então não vou usá-lo, por ser pagão!". Agora a resposta é que você está errado agindo assim. Por que? Porque, se formos seguir este raciocínio, não poderemos crer então na mensagem do Antigo Testamento e, quem possui uma bíblia hebraica em casa deve rasgá-la, pois ela está cheia de termos pagãos aplicados ao próprio Deus de Israel, e usados por Ele mesmo inclusive. A começar pelo nome mais simples que Ele usa para nomear a sua divindade em hebraico bíblico: "EL".


Indo para o Oriente Próximo: A História do "EL"


As palavras no hebraico para "Deus" ou "deus" - אלהים ('elohim) e אל ('el) são usadas mais de 8.000 vezes na bíblica hebraica para se referir ao Deus de Israel e - pasmem! - são todas de origem pagã! Por que? Porque eram palavras usadas por povos cananeus, antes mesmo que qualquer trecho das Escrituras fosse sequer escrito pelos hebreus, para designar o deus supremo de seu panteão, EL. Ele era pai de Ba'al, deus das chuvas e colheitas, e consorte de Asherá, deusa da fertilidade. Este termo, na sua raíz, significa "força", "poder", e era também o termo usado pelos cananeus para designar os deuses em geral por entender que eles eram as forças pessoais que governavam os mares, rios, plantas, ar, pedras etc. Só para lembrar: Abraão, o primeiro "monoteísta" conforme a tradição judaica, era arameu (da região de Aram Naharaim em hebraico, ou Mesopotâmia em grego). Ele, então, provavelmente falava acadiano, e não hebraico. Ah, outro detalhe: Adão não falava hebraico, ela não é a lígnua mais antiga do mundo ou "angelical", "edenica" (do Jardim do Éden) ou qualquer coisa assim. Ela só é a língua usada por Deus para revelar as Escrituras a Israel, porque este na época de Moisés falava hebraico, e nada mais além disso. Posso provar cada item aqui, mas isso daria outro post...

E agora, qual é o problema de se usar termos de origens pagãs na própria Bíblia, ou hoje, para designar o nome "Deus"? Ao meu ver, nenhum! Na Bíblia, por exemplo, os hebreus se utilizaram destes termos - que designavam as divindades pagãs - para designar ao Deus único num ato de redenção da cultura, querendo mostrar que Ele sim é o verdadeiro Deus (significado de "EL") e não o deus supremo do panteão cananeu ou as forças quaisquer da Natureza. Por isso que este termo, de forma isolada ou composta, aparece nos relatos de Abraão em Gênesis, já que ele habitara em Canaã e esta seria a terra prometida a sua descendência. Por exemplo, em Gn 23:33 há a expressão אל-עולם el-olam "Deus da eternidade", Gn 14:18 אל-עליון el-elion "Deus supremo" e Gn 35:7 אל־בית־אל el-beit-el "o Deus de Betel (da casa de EL)", todos nomenclaturas tradicionais de territórios ou centros de culto ao deus "EL", em Canaã, mas que agora estavam sendo dedicados ao Deus de Abraão, o verdadeiro EL.


Tudo recai sobre Constantino!



Sobre a alegação que Roma levou os cristãos a estes erros linguísticos, não há nada mais sem base! Não houve nenhum tipo de ação engenhosa de Constantino ou de qualquer autoridade romana - como o suposto plano de uso de nomes pagãos para designar ao Deus de Israel e dos cristãos - para colocar pagãos sob a nova fé do Império (a qual Constantino aderira no início do séc. IV). Pelo contrário, o nome "deus" em latim era a única palavra usada para se referir a alguma divindade, e por isso não seria diferente usá-la para se referir ao Deus supremo e verdadeiro. Da mesma forma ocorreu com os gregos, que desde séculos e séculos usavam a palavra theós para se referir a "deus" ou "divindade" (como os filósofos antigos) e, quando a Septuaginta e Novo Testamento foram escritos em grego koiné (língua do povo e do comércio), muitos gregos passaram a servir ao Deus de Israel lendo estas versões das Escrituras, e então "theós" passou a ser usado também para se referir ao nosso Deus de forma extremamente comum.

E o Judaísmo nisso tudo?



Alguns alegam também que os judeus tem usos peculiares de nomes dados a Deus, e por isso devemos imitá-los neste sentido, seguindo seus costumes "bíblicos" ou mais "próximos da verdade" na referência ao Senhor. Um destes costumes é a utilização de um apóstrofo na palavra Deus (ficando assim: D'us). Mas isso não seria uma forma deles de rejeitar este nome, mas sim deles consideram que nenhuma língua, nem mesmo o hebraico - a Língua Sagrada -, pode descrever quem Deus é, então eles "tiram" ou substituem uma letra nestes nomes por indicar isso. Por exemplo, judeus ultra ortodoxos não chamam Deus de "elohim" אלהים, mas de "eloqim" אלקים, por causa deste mesmo princípio. Perceba que essa idéia - de que o próprio nome "Deus" deprecia ao nosso Deus, alegada no início do post - sequer é concebida no judaísmo, sendo totalmente estranha e alheia a ele. Da mesma forma os títulos como o "Eterno" (ha'olam), o "Nome" (hashem), o "Infinito" (Ein-Sof) ou o "Lugar" (hamakom) são usados quase que exclusivamente por linhas mais estritas do judaísmo ultraordoxas e pós-iluministas, como os hassidim, que muitas vezes se referem dessas formas a Deus por causa de uma concepção mística, para não falar cabalística, sobre Ele, vendo-o  como incomensurável, infinito e sem contato com a Criação de forma plena ou direta, mas somente por intermediários angelicais ou sefirot. Acho que não há nada mais anti-bíblico ou anti-cristão, e até mesmo pagão (um tipo de gnosticismo judaico!) em concepções por trás de nomes aplicados a Deus!

Além do mais, os títulos "o Nome" ou "o Eterno" não dizem nada a respeito de Deus ou quem Ele é de fato, como ser divino. Não se referem a Sua divindade, e por isso não podemos usá-los como substitutos para "Deus" ou "divindade". Estas palavras no português estão aí para expressar estes conceitos de forma clara e que compreendida por todos, não precisando então importarmos do judaísmo - que sequer abomina o termo "Deus"! - outros termos que só dentro dele são inteligíveis, como "o Nome", "Hashem". Isso é descontextualizar uma cultura por outra, sem o menor motivo realmente sério ou estritamente necessário.

Como saio de um Sistema Pagão?

Na verdade estas pessoas, quando quererm deixar de falar "Deus", desejam sair de um sistema pagão e se aproximar de algo realmente mais bíblico e "correto". Mas, definitivamente, este não é o caminho correto para isso. Você deixar conceitos pagãos não é averiguar ou buscar raízes pagãs de termos que utilizamos hoje, pois eles só fariam um sentido "pagão" se o utilizássemos em seu contexto pagão. Mas se não estamos em tais contextos hoje, porque achar que são ruins ou que podem nos contaminar, como cristãos? Quem dá o significado ao símbolo - e a palavra é um símbolo visual, assim como as pinturas, artes e desenhos - é a sociedade e cultura nas quais eles estão imersos. Se estas mudam e se transformam, os símbolos e palavras se transformam, e não há "demônios" grudados nelas!

Para exemplificar o que é dito acima, vejamos um caso com o egípcio antigo. Na língua dos faraós, havia uma palavra para designar "vida", cujo símbolo está abaixo (figura 1, abaixo). Ele se pronuncia "'anekh" e, se quiséssemos falar "Deus vivo" em egípcio, falaríamos "netcher 'anekh" (figura 2). Uma expressão comum, certo? De uma língua que, apesar de estar morta hoje, era viva e tão usada há 3.500 anos atrás quanto o português hoje é usado por nós. Pois bem. Naquela época eu poderia usar, por exemplo, uma tabuinha com esta inscrição egípcia ("Deus Vivo") nas ruas ao lado do rio Nilo, para que todos vissem e todos me entenderiam perfeitamente. Mas, como as épocas passam e não temos mais a sociedade egípcia viva com este idioma, ninguém entenderia nada se fizesse o mesmo hoje lá no Egito. E, para piorar a situação, alguns grupos ligados à movimentos místicos não-cristãos utilizam este símbolo que significa simplesmente "vida" em egípcio antigo para simbolizar seus ideais de vida, concepções de ser e espiritualidade diferentes da minha. Um destes grupos é o neo-paganismo e os famigerados e complexos movimentos da Nova Era. Por isso eu não poderia utilizá-lo hoje: por causa da ligação com estes grupos, que como cristão não faço parte. Mas não porque é um termo "pagão egípcio" para "vida", ou cheio de "demônios" ligados a ele ou uma palavra que evoca demônios só por ser escrita, visualizada ou dita. 
"Vida" e "Deus Vivo" em Egípcio
Agora... com o que devemos realmente nos preocupar (digo como cristão)? Com os conceitos e idéias sobre família, indivíduos, natureza, vida social, razão etc que a Modernidade e Pós-modernidade tentam colocar no Mundo, e que estão colocando as coisas em desordem e nós, cristãos, não fazemos absolutamente nada. Não sou filósofo, mas entendo que essas coisas sobre estas áreas da vida humana são retomadas de concepções antigas dos gregos por exemplo, e que foram readaptadas pelo Humanismo na Renascença, depois no Iluminismo e hoje, na atualidade, são levadas às últimas consequências, como o culto ao egoísmo e individualismo, à razão humana autônoma como centro do nosso "Universo", o narcisismo e o ceticismo. Isso sim deve nos angustiar a cada dia e, principalmente como cristãos, deve ser aquilo que realmente nos preocupa para lutarmos contra e trazer as verdadeiras respostas a estes dilemas. Ministérios como o L'Abri, cujo um dos fundadores é o Pr. Guilherme de Carvalho, estão na vanguarda no combate a estas coisas que são a verdadeira ameaça aos cristãos e às suas mentes,  cativas em conceitos realmente anti-bíblicos e anti-cristãos. E isso não é feito combatendo-se palavras ou expressões que são "pagãs" e evocam demônios, e não a Deus, como estes grupos e pessoas advogam ai fora.

Aulas de Hebraico Bíblico I - 1o Semestre de 2011

Postado por Erike Couto

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Trecho de Josué 1:1 do Códice de Alepo (séc. X)
Para aqueles que desejam se aprofundar em seus estudos das Sagradas Escrituras, eis a oportunidade de estudar a língua dos profetas hebreus e conhecer a sua beleza. Lecionarei este ano em dois lugares, onde os alunos que nunca tiveram o contato com esta língua aprenderão as bases do hebraico bíblico, desde a sua alfabetização até gramática, com muita interpretação e leitura dos textos originais. Estou aberto a convites para lecionar em outros lugares também (se houver uma turma interessada).
Meu e-mail para contatos e dúvidas: erike.hebraico@gmail.com

UFMG (CENEX - Centro de Extensão)

Período de matrícula: 18/01/2011 a 17/03/2011
Período de Curso: 26/03/2011 a 02/07/2011
Horário: Sábado, de 13:30 a 17:00
Carga horária total: 52 horas/aula

Conteúdo: Alfabetização, gramática (substantivos, adjetivos, preposições, iniciação aos verbos hebraicos etc), história da língua e prática de leitura e interpretação da Bíblia Hebraica e léxicos.

Valor: 

- À vista: R$155,00, com vencimento no dia seguinte ao dia da matrícula.
- Parcelado: duas parcelas de R$85,00, sendo a primeira com vencimento no dia seguinte ao da matrícula e a segunda com vencimento em 10/04/2011.

Faça sua matrícula clicando aqui.
Local: Faculdade de Letras (FALE) da UFMG - Av. Antônio Carlos, 6627 - Campus Pampulha.

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Instituto ABBA

Início: 4 de março de 2011
Duração: 4 meses - até junho de 2011
Horário: de 19 às 21 horas

Conteúdo:
Alfabetização, gramática básica (substantivos, adjetivos, preposições etc), história da língua e prática de leitura e interpretação da Bíblia Hebraica.

Valor mensal: R$ 80,00.


Faça sua matrícula clicando aqui, pelo cursos@institutoabba.com ou pelos telefones (31) 2512-8969 ou 9214-3745

Local: Instituto ABBA - Rua Formiga, 467- São Cristovão - Belo Horizonte - MG. CEP: 31110-430.

Mapa até o local:

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#6 Pergunta do formspring: Na passagem de Hb 1.3, gostaria de saber se tem algum implicação estar "palavra do seu poder" e não "poder de sua palavra", como está no original?

Postado por Erike Couto

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No original grego está τῶ ῥήματι τῆς δυνάμεως αὐτοῦ (tô rhémati tés dinámeôs autou - "pela palavra do poder dele"). Não existe nos textos mais aceitos dos originais e nem nas variantes textuais a frase "poder de sua palavra". Ela simplesmente significa que Jesus sustenta todas as coisas através do comando poderoso de Deus-Pai.

Abraços!

#5 Pergunta do formspring: Erike, porque os egípcios, nos afrescos, sempre mostram as pessoas de perfil, e nunca de frente? Algum motivo em especial?

Postado por Erike Couto

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Resposta:

Não. Pelo menos pelo pouco que sei. O motivo, por exemplo, estava no padrão de arte que eles tinham em mente, a cultura e sociedade onde estavam imersos e os materiais usados para a arte em geral. Em termos de material usado, utilizava-se muito a argila sobre as paredes dos templos e tumbas, proporcionando a criação de pinturas e esculturas em relevo, o que dificultava a exibição de outro ângulo de visão das pessoas retratadas a não ser de perfil. Em termos sociais e culturais, os egípcios não tinham o costume na exibição de forma exuberada do corpo humano tal como ocorreria, por exemplo, na Grécia Antiga. Por isso as pessoas delineadas sobre estas superfícies possuíam muitas vezes traços corporais desproporcionais entre si, como braços muito longos ou crânios ovais e, obviamente, a retratação de perfil. Era comum também a associação entre a estatura das pessoas retratadas e o posto dignatário delas, como pode ser visto nos afrescos da família real de Akenaton e Nefertiti em Tell-Amarna. Em vários deles, a família do rei tem uma estatura muito maior que a dos cortesões e camponeses, mostrando a superioridade daquela sobre estes.

Claro que as estátuas são um caso a parte, já que escultura tem três dimensões e o material utilizado pode ser mais explorado. Mas até mesmo esta modalidade artística, muitas vezes, tinha algumas destas características citadas, como a desproporção dos membros do corpo.

Espero ter ajudado. Abraços!

#4 Pergunta do formspring: Em Genesis 1.14-18, narra a criação dos luminares, gostaria de saber se o termo em hebraico para "fazer" nesta passagem pode receber o significado de "fazer aparecer", "descurtinar" ?

Postado por Erike Couto

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Resposta:

Não. Nem o texto mostra qualquer significado neste sentido, nem o verbo hebraico usado ali tem este significado. O significado do termo hebraico para "fazer" (עָשָׂה assah) é "fazer", "trabalhar sobre algo (material)" para a criação de uma determinada obra. Dá a idéia de trabalho com o contato direto do artífice, como em Ex 32:4 para se referir ao trabalho na confecção do ídolo na forma de um bezerro pelos israelitas utilizando-se o ouro. Outro texto, o de Ex 35:32, fala a respeito do trabalho de Bezalel sobre o ouro, prata e cobre para a confecção dos objetos do tabernáculo e lá utiliza-se o mesmo verbo "fazer" usado em Gn 1:17.

Tendo isso tudo em mente, é interessante notar que este será um dos verbos usados depois na criação do Homem do pó da terra: "E disse Deus: Façamos (נַעֲשֶׂה - na'asseh) o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança..." (Gn 1:26a).

Abraços!

#3 Pergunta do formspring: Qual a diferença nos termos em hebraico, no que diz respeito em se prostrar diante de D-us e diante de autoridades humanas e celestes?

Postado por Erike Couto

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Resposta:

De fato, não há um termo específico para "adoração" na língua hebraica. Os termos traduzidos normalmente por "adorar" são os verbos הִשְׁתַּחֲוָה (hishtaḥavah) e סָגַד (sagad). O primeiro está em um grau chamado "reflexivo" no hebraico, e significa "se curvar" (talvez, primitivamente, "se curvar" ou "se dobrar" como uma serpente, já que חויא ḥavia significa "serpente" em aramaico). Ele é usado tanto para seres humanos - como prostrar-se em reverência a alguém importante: "José, pois, era o governador daquela terra; ele vendia a todo o povo da terra; e os irmãos de José chegaram e inclinaram-se a ele (יִּשְׁתַּחֲווּ לוֹ yishtaḥavu lo) com o rosto em terra." (Gn 42:6) - quanto para adoração ao Senhor - " Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR (הִשְׁתַּחֲווּ לַיהוה hishtaḥavu) na beleza da santidade." (Sl 29:2) ou a deuses pagãos - "Se te esqueceres do SENHOR, teu Deus, e andares após outros deuses, e os servires, e os adorares (הִשְׁתַּחֲוִיתָ לָהֶם hishtaḥaviyta lahem), protesto, hoje, contra vós outros que perecereis" (Dt 8:19).

O outro termo, "sagad", significa também "se prostrar" e é o termo mais comum nas línguas semíticas, fora do hebraico (no árabe سجد sagida; no aramaico סגיד segid) para se referir a "adoração" a Deus ou a um ídolo ("Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos (נִסְגֻּד nisggud) a imagem de ouro que levantaste." - Dn 3:18). Mas ele também é usado quando se prostrava diante de uma personalidade de honra, como ocorre em Daniel ("Então, o rei Nabucodonosor se inclinou, e se prostrou rosto em terra perante Daniel (לְדָנִיֵּאל סְגִד ledaniel segid), e ordenou que lhe fizessem oferta de manjares e suaves perfumes." - Dn 2:46). A versão Almeida Corrigida Fiel traz "e adorou a Daniel", mas creio ser inconsistente esta tradução, pois se ele fosse adorado, Daniel teria relutado em receber tal ato diante dele. Na verdade era um ato de reverência comum em todo o Oriente Antigo.

Como distinguir, então, esta reverência a homens importantes e a adoração a Deus ou a falsos deuses na Bíblia? É simples: perceba que a adoração bíblica a Deus, por exemplo, é mais complexa e não se dá somente por uma prostração: ela sempre é acompanhada de uma série de ações no âmbito do sagrado ou trivial da vida, como ofertas, sacrifícios, serviço no Templo e louvores diversos emitidos pelo adorador. Isso pode ser visto nos versos acima, por exemplo, principalmente no verso Dt 8:19, onde Deus diz que a adoração que Lhe é devida é prostração e serviço e que os israelitas não deveriam desviá-los para outros deuses. A palavra para "serviço" aqui em hebraico é עָבַד avad, e significa literalmente "trabalho", se referindo ao complexo sistema ritualístico descrito no Pentateuco, executado pelos israelitas através dos sacerdotes e do Templo, por exemplo.

Mais tarde na história de Israel e da religião judaica, esta adoração e serviços seriam concebidas numa forma mais abstrata, como quando o salmista diz "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus." (Sl 51:17) ou quando o escriba da época de Jesus afirmara que "amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios." (Mc 12:33). A resposta de Jesus sobre a afirmação do escriba nos responde muita coisa sobre como adorarmos a Deus: "Não estás longe do reino de Deus." (Mc 12:34).

Espero ter ajudado. Abraços!

#2 Pergunta do formspring: [1] Como aprendeu árabe e [2] como desenvolveu tanto interesse pelo Qur'an?

Postado por Erike Couto

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Resposta:

[1] Sozinho, com o auxílio de sites e leitura constante de livros e textos no idioma. [2] O Qur'an (ou Alcorão) é uma das primeiras (senão a primeira) obra literária textual escrita no idioma árabe, além de livro sagrado de milhões de pessoas falantes do árabe atualmente. Ele também é o resultado da confluência de diversas tradições da época de Maomé (judaica, cristã, árabes tribais, nebateus etc). Por isso não tem como um estudante de árabe, como eu, não lê-lo nem pesquisá-lo no original árabe. Mesmo sendo cristão, e não concordando consequentemente com muito daquilo que está escrito neste livro sagrado, admiro a beleza expressa em seus versos, extremamente poéticos, e a cultura e sociedade que eles expõem em suas palavras.

Abraços!

#1 formspring: No verso 4 do salmo 150, a palavra dança parece estar perdida no meio de nomes de instrumentos musicais. E a dança nunca fez parte do culto a DEUS no tabernáculo ou templo. Qual seria a mesma no original?

Postado por Erike Couto

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Resposta:

Esta pergunta é muito interessante. Parece à primeira vista periférica, mas ela ilustra muito bem a complexidade de uma língua - como o hebraico - e a dificuldade inerente à tradução de textos escritos nela - como o Tanach ou Velho Testamento - para outro idioma - o nosso, o português.

Neste texto, temos a palavra hebraica מחול (maḥol). Seu significado é obscuro. Mesmo que muitas bíblias traduzam-na por "dança", pela regra do "Parallelismus Membrorum" (versos paralelos que contém quse sempre sinônimos e idéias semelhantes), a palavra talvez se refira a um instrumento musical que hoje nos é desconhecido. Isso porque sua raíz, ח-ו-ל (ḥ-w-l) tem um de seus significados como "acontecer, ocorrer, rolar, rodear". Então, talvez aqui se refira ao momento em que todas estas ações acontecem em danças, que na cultura semítica é feita em alegres rodas, quando por exemplo os תופים (tupim, plural de תוף - tof) - "adufes" ou "tamborins" - são tocados em alguma festividade. A Septuaginta (cerca de III a.C) traduziu o termo por χορος (choros) que significa "dança com músicas". Em outro lugar aparece também esta mesma palavra: "Ainda te edificarei, e serás edificada, ó virgem de Israel! Ainda serás adornada com os teus tamboris, e sairás nas danças dos que se alegram." (Jr 31:4 ACF).

Agora, as versões da Almeida Corrigida e Revisada e em espanhol da Bíblia têm "flauta" no lugar de "dança". Por quê? Esta tradução alternativa talvez tenha advindo do fato de existir o paralelo desta raíz vista acima comn outra raíz próxima, ח-ל-ל (ḥ-ḥ-l), que tem como significados "perfurar" e "esvaziar". Esta é usada na palavra "flauta" em hebraico, חליל (ḥaḥiyl), que é um instrumento musical e é usado constantemente também nas Escrituras em paralelo com "tamborins" (Is 5:12 por exemplo), como ocorre em Sl 150:4.

Temos então um problema de tradução de um antigo termo hebraico, e a compreensão do termo original dependerá da mente do tradutor que o traduziu. De qualquer forma, quer seja "dança com música", quer seja "flauta", esta dificuldade nos serve para mostrar duas coisas: 1) há uma bela complexidade da bíblia e língua hebraica, com termos densos e vívidos de uma cultura cujo acesso a ela se tornou difícil pelo tempo; 2) o Senhor é glorificado com danças, instrumentos e louvores no meio de Seu povo, mesmo que não haja um mandamento bíblico expresso sobre isso.

Espero ter ajudado...

Abraços