A Soberania do Deus de Jó...

Postado por Erike Couto


Entrei no blog Internautas Cristãos e li um post que tinha vários versículos em lista. Eles descrevem o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, aquele que tudo sabe, tudo pode e está em todos os lugares. Não me surpreendi com isso! Mas, fitando os olhos no último versículo desta passagem do Livro de Jó, achei-o muito interessante.

"O HOMEM, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação. Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece. E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juízo contigo. Quem do imundo tirará o puro? Ninguém. Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles." (Jó 14:1-5 - Almeida Corrigida Fiel).

Tive, então, a curiosidade de conferir o original hebraico deste versículo. Depois disso, me surpreendi de fato!

אִם חֲרוּצִים יָמָיו מִסְפַּר-חֳדָשָׁיו אִתָּךְ חֻקָּו עָשִׂיתָ וְלֹא יַעֲבֹר
'im charutzim yamaiv mispar chodashaiv 'itach chuqqav 'assita velo' ya'avor

A tradução de João Ferreira de Almeida é muito boa e já traz o sentido bem próximo expresso no texto original. Mas, conferir a beleza por trás do original em hebraico é simplesmente surpreendente! Vou tecer alguns comentários próprios e depois propor uma tradução pessoal a ele, para que vocês entendam o porquê disso que disse.

A palavra חֲרוּצִים (charutzim) tem a raíz que significa "cortado", "afastado", "liberado", "saído" e, num sentido mais geral, "corrido", "apressado". É usado em paralelo ao verbo "sair", יָצָא  yatzá'  por exemplo, no versículo 24 de II Samuel: "há de ser que, ouvindo tu um estrondo de marcha pelas copas das amoreiras, então te apressarás; porque o SENHOR saiu então diante de ti, a ferir o arraial dos filisteus.". O contexto (v. 21-23) nos mostra que este era um dito do Senhor a Davi, que O consultara para saber o que fazer no cerco em guerra contra os filisteus. Perceba o sentido militar do termo, que se refere a uma corrida em marcha contra os inimigos, para ser executado um estratagema determinado por Deus, após Este o revelar a Davi. 

Por isso, as palavras derivadas da mesma raíz desta analisada acima adquiriram também o significado de algo "determinado", "projetado", "comandado previamente", provavelmente tendo derivado deste sentido político-militar antigo, já que em alguns outros versículos estas mesmas palavras são usadas neste mesmo contexto de autoridade e de guerra. Entre eles, está o versículo 23 de Isaías 10, quando Deus diz que, sobre a Assíria, estava "determinada - נֶחֱרָצָה (necheratzah) - já a destruição, o Senhor DEUS dos Exércitos a executará no meio de toda esta terra.", no contexto de julgamento àquela nação que estava oprimindo Israel e levando-o cativo. O Targum de Jonatan, antiga tradução judaica dos livros proféticos das Escrituras para o aramaico popular do séc. III, traduziu este termo hebraico de Jó por סריגין serigin, que significa "tecidos", "entrelaçados", "organizados", como as linhas em um tapete. Esta imagem também traz a idéia de organização prévia de algo (linhas) que tem um plano maior depois para se ver depois (um tapete depois de pronto, por exemplo). A tradução de João Ferreira de Almeida Corrigida e Fiel ao Texto Original (ACF) traduziu bem o pensamento do autor, como "determinados", mas acho que poderíamos traduzir por uma palavra que, além de trazer este significado, acrescenta a noção de estratagema. Talvez assim ficasse melhor: "Visto que os seus dias estão delineados". 

A segunda parte do verso tem palavras bem peculiares também. A primeira delas é חֻקָּו chuqqav. Bem... esta forma é a forma escrita no texto massorético (na forma ketiv), mas a tradição judaica diz que não é a forma correta de se pronunciar, pois contém um erro morfológico na palavra. Ela precisaria estar escrita desta forma, חֻקָּיו chuqqaiv, que é a forma qeri, isto é, como deve ser pronunciada conforme a tradição judaica. Dessa forma, ela significa "os seus estatutos ou leis ou decretos" e se refere especificamente às leis que, de costume, eram inscritas em blocos de pedras e expostos para que todos vissem, como as estelas egípcias ou os códigos de leis mesopotâmicos como o de Hamurabi. A outra palavra enigmática, יַעֲבֹר ya'avor, é um verbo e significa "(ele) passará", "trespassará", "transportará". Ele confirma estas interpretações anteriores pois, nas Escrituras, nunca tem somente estes significados tácitos, mas também o abstrato de "transgredir ou revogar alguma lei estabelecida ou aliança firmada". Este verbo está no singular, mas isso ocorre com frequencia nos textos originais (o agente da ação é plural e o verbo se encontra no singular). O significado abstrato dele pode ser visto sendo usado claramente em Ester 1:19a e Oséias 8:1. Em Ester, o verso diz o seguinte: "Se bem parecer ao rei, saia da sua parte um edito real, e escreva-se nas leis dos persas e dos medos, e não se revogue (יַעֲבֹר ya'avor)...". No segundo caso de Oséias, temos o seguinte: "Emboca a trombeta! Ele vem como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança (עָבְרוּ בְרִיתִי 'avru v'ritie se rebelaram contra a minha lei ( תּוֹרָתִי torati)". 

Portanto, poderíamos traduzir o versículo completo da seguinte forma:

"Visto que os seus dias estão delineados e o número de seus meses está contigo; os seus decretos estabeleceste, e não serão revogados!".

Mais tarde, João Calvino, reformador do séc. XVI, sintetizaria este pensamento, baseando-se neste e em vários outros versículos bíblicos, a respeito da Soberania de Deus:

"[...] de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada." 
(A Instituição da Religião Cristã, livro I, cap. XVI, 8)

Impressionante! Este é o nosso Deus: Soberano de forma completa e absoluta, em todas as ações de todos os seres de Sua Criação, quer sejam humanos ou não, boas ou más. E não somente isso, mas estas ações também são ordenadas de forma magistral, como um plano eterno, e não uma previsão fatídica, que O tomaria de surpresa por causa de escolhas humanas ou pelo puro acaso. Infelizmente, esta característica do nosso Deus, tão bem reconhecida por Jó e preservada em suas palavras registradas nas Escrituras, foi deixada de lado por diversos pensamentos heréticos dentro da Igreja, como os recentes difundidos pelo Teísmo Aberto. Aliás, aqui está uma exposição que vale a pena ser lida, feita pelo Rev. Augustus Nicodemus, desta nova teologia. No final dela há um versículo, também de Jó, com o qual selo este post.

"Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.” (Jó 42:2-3)

6 comentários:

  1. @igorpensar

    Adorei!

    Interessante o uso do targum de סריגין me lembrou a música "O Tapeceiro" do Stênio.

    Erike, que texto brilhante. Continue escrevendo por favor.

    Em Cristo,
    Igor

  1. Erike Couto

    Mano Igor! Obrigado! Sua presença e comentários são muito preciosos! :)

    Bem lembrado! Esta música é a expressão disso! rsrs

    Abração!

  1. Rodrigo Rosa

    Erike, muito bacana essa análise. Te confesso que cada vez que penso em um Deus soberano, que arbitra sobre todas as coisas, meus ombros vão ficando mais leves. Tiro um peso que não consigo carregar.

  1. Tijs e Kelly van den Brink

    Muito bom mesmo Erike! Um encorajamento para todos nós. Gostei também do último versículo que você colocou no texto. Muitas vezes ouvi crentes citando o verso 5 de Jó 42: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem." Mas se esquecendo do contexto, e que o versículo 5 é consequência dos versículos 2 e 3, além é claro do restante do livro, como também o cáp. 14, que você expôs. Precisamos urgentemente, como cristãos, reencontrar a Soberania de Deus...

  1. Erike Couto
    Este comentário foi removido pelo autor.
  1. Erike Couto

    Olá Rodrigo!

    Isso é verdade... a Sua Soberania é mais do que uma expressão do Seu poder ou juízo... é a expressão do Seu imenso amor por nós... Daquele que vai ao nosso encontro para nos ajudar a caminhar!

    Grande Tijs!

    Pois é... Deus se revelou a Jó nos capítulos anteriores ao 42 e questionou-lhe o conhecimento sobre Seus poderosos atos. Só então Jó conheceu o Deus que servia, detentor do controle sobre tudo, inclusive sobre o que ocorria com ele. Aí ele afirmou que falava de coisas das quais, anteriormente, era ignorante a respeito. Muitas pessoas aí fora fazem isso: falam de um Deus muito distante Daquele que realmente deve ser conhecido por elas, revelado nas Escrituras!

    Abraços!

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