O Criador foi sustentado...

Postado por Erike Couto

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Detalhe do afresco da Igreja de São Jorge (Ortodoxa Grega) em Toronto - Canadá, 
Tendo feito uma reflexão hoje sobre a celebração do Natal, me veio a vontade de postá-la aqui no blog, acompanhada de uma bela mensagem, anunciada numa estranha língua do Oriente. Muita gente vê esta celebração que hoje é feita como um bom momento para estar em família, rever os parentes distantes ou um bom momento para descansar. Outros vêem nela ilegitimidade, alegando que não fora ordenada expressamente nas Escrituras. Alguns vão mais longe, e a condenam com veemência, afirmando origens pagãs quando sua data e costumes foram fixados há centenas de anos atrás.

Bem, no meio de toda esta confusão, a História cristã sempre esteve aí - tanto na época que ainda não havia o costume de celebrar a festa, quanto depois que ela passou a ser - para apregoar ao Mundo o evento central da celebração natalina: o Criador se encontrou com a criatura e o Deus Eterno se fez gente para segurar em nossas mãos e nos guiar na Sua Verdade. Este evento, por si só, transcende calendários, culturas, costumes e pensamentos. Este evento cósmico e particular, eterno e histórico, excelso e humilde ocorreu, há dois mil anos atrás, e a Glória emanada do verbo que nasceu em Belém de Judá percorre os séculos, levando a mensagem de Vida e Salvação a todos que Nele confiam.

Te convido então a rememorar mais uma vez este maravilhoso evento, ouvindo e lendo estas lindas palavras entoadas de um antigo hino cristão bizantino, exaltando a Natividade do Nosso Senhor. Este hino está em árabe, mas no vídeo contém a sua tradução paralela. Como tive a curiosidade de conferir palavra por palavra na letra original, fiz uma tradução pessoal para o português. Deus vos abençoe!




Em português:


Hoje é nascido de uma virgem Aquele que domina a Criação, possuindo-a firmemente Consigo.
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Aquele cuja essência é incognoscível, está envolto em panos, como uma criança.
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O Deus que estabeleceu anteriormente os Céus, desde o princípio, reclina-se em uma manjedoura.
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Aquele que fez chover o Maná sobre o Seu Povo no deserto, se nutre com o leite dos seios maternos.
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O Noivo da Igreja convida os Magos, o Filho da Virgem recebe os seus presentes.
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Nós reverenciamos a Tua Natividade, ó Cristo. 
Mostra-nos a Tua Divina Aparição!

A Soberania do Deus de Jó...

Postado por Erike Couto


Entrei no blog Internautas Cristãos e li um post que tinha vários versículos em lista. Eles descrevem o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, aquele que tudo sabe, tudo pode e está em todos os lugares. Não me surpreendi com isso! Mas, fitando os olhos no último versículo desta passagem do Livro de Jó, achei-o muito interessante.

"O HOMEM, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação. Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece. E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juízo contigo. Quem do imundo tirará o puro? Ninguém. Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles." (Jó 14:1-5 - Almeida Corrigida Fiel).

Tive, então, a curiosidade de conferir o original hebraico deste versículo. Depois disso, me surpreendi de fato!

אִם חֲרוּצִים יָמָיו מִסְפַּר-חֳדָשָׁיו אִתָּךְ חֻקָּו עָשִׂיתָ וְלֹא יַעֲבֹר
'im charutzim yamaiv mispar chodashaiv 'itach chuqqav 'assita velo' ya'avor

A tradução de João Ferreira de Almeida é muito boa e já traz o sentido bem próximo expresso no texto original. Mas, conferir a beleza por trás do original em hebraico é simplesmente surpreendente! Vou tecer alguns comentários próprios e depois propor uma tradução pessoal a ele, para que vocês entendam o porquê disso que disse.

A palavra חֲרוּצִים (charutzim) tem a raíz que significa "cortado", "afastado", "liberado", "saído" e, num sentido mais geral, "corrido", "apressado". É usado em paralelo ao verbo "sair", יָצָא  yatzá'  por exemplo, no versículo 24 de II Samuel: "há de ser que, ouvindo tu um estrondo de marcha pelas copas das amoreiras, então te apressarás; porque o SENHOR saiu então diante de ti, a ferir o arraial dos filisteus.". O contexto (v. 21-23) nos mostra que este era um dito do Senhor a Davi, que O consultara para saber o que fazer no cerco em guerra contra os filisteus. Perceba o sentido militar do termo, que se refere a uma corrida em marcha contra os inimigos, para ser executado um estratagema determinado por Deus, após Este o revelar a Davi. 

Por isso, as palavras derivadas da mesma raíz desta analisada acima adquiriram também o significado de algo "determinado", "projetado", "comandado previamente", provavelmente tendo derivado deste sentido político-militar antigo, já que em alguns outros versículos estas mesmas palavras são usadas neste mesmo contexto de autoridade e de guerra. Entre eles, está o versículo 23 de Isaías 10, quando Deus diz que, sobre a Assíria, estava "determinada - נֶחֱרָצָה (necheratzah) - já a destruição, o Senhor DEUS dos Exércitos a executará no meio de toda esta terra.", no contexto de julgamento àquela nação que estava oprimindo Israel e levando-o cativo. O Targum de Jonatan, antiga tradução judaica dos livros proféticos das Escrituras para o aramaico popular do séc. III, traduziu este termo hebraico de Jó por סריגין serigin, que significa "tecidos", "entrelaçados", "organizados", como as linhas em um tapete. Esta imagem também traz a idéia de organização prévia de algo (linhas) que tem um plano maior depois para se ver depois (um tapete depois de pronto, por exemplo). A tradução de João Ferreira de Almeida Corrigida e Fiel ao Texto Original (ACF) traduziu bem o pensamento do autor, como "determinados", mas acho que poderíamos traduzir por uma palavra que, além de trazer este significado, acrescenta a noção de estratagema. Talvez assim ficasse melhor: "Visto que os seus dias estão delineados". 

A segunda parte do verso tem palavras bem peculiares também. A primeira delas é חֻקָּו chuqqav. Bem... esta forma é a forma escrita no texto massorético (na forma ketiv), mas a tradição judaica diz que não é a forma correta de se pronunciar, pois contém um erro morfológico na palavra. Ela precisaria estar escrita desta forma, חֻקָּיו chuqqaiv, que é a forma qeri, isto é, como deve ser pronunciada conforme a tradição judaica. Dessa forma, ela significa "os seus estatutos ou leis ou decretos" e se refere especificamente às leis que, de costume, eram inscritas em blocos de pedras e expostos para que todos vissem, como as estelas egípcias ou os códigos de leis mesopotâmicos como o de Hamurabi. A outra palavra enigmática, יַעֲבֹר ya'avor, é um verbo e significa "(ele) passará", "trespassará", "transportará". Ele confirma estas interpretações anteriores pois, nas Escrituras, nunca tem somente estes significados tácitos, mas também o abstrato de "transgredir ou revogar alguma lei estabelecida ou aliança firmada". Este verbo está no singular, mas isso ocorre com frequencia nos textos originais (o agente da ação é plural e o verbo se encontra no singular). O significado abstrato dele pode ser visto sendo usado claramente em Ester 1:19a e Oséias 8:1. Em Ester, o verso diz o seguinte: "Se bem parecer ao rei, saia da sua parte um edito real, e escreva-se nas leis dos persas e dos medos, e não se revogue (יַעֲבֹר ya'avor)...". No segundo caso de Oséias, temos o seguinte: "Emboca a trombeta! Ele vem como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança (עָבְרוּ בְרִיתִי 'avru v'ritie se rebelaram contra a minha lei ( תּוֹרָתִי torati)". 

Portanto, poderíamos traduzir o versículo completo da seguinte forma:

"Visto que os seus dias estão delineados e o número de seus meses está contigo; os seus decretos estabeleceste, e não serão revogados!".

Mais tarde, João Calvino, reformador do séc. XVI, sintetizaria este pensamento, baseando-se neste e em vários outros versículos bíblicos, a respeito da Soberania de Deus:

"[...] de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada." 
(A Instituição da Religião Cristã, livro I, cap. XVI, 8)

Impressionante! Este é o nosso Deus: Soberano de forma completa e absoluta, em todas as ações de todos os seres de Sua Criação, quer sejam humanos ou não, boas ou más. E não somente isso, mas estas ações também são ordenadas de forma magistral, como um plano eterno, e não uma previsão fatídica, que O tomaria de surpresa por causa de escolhas humanas ou pelo puro acaso. Infelizmente, esta característica do nosso Deus, tão bem reconhecida por Jó e preservada em suas palavras registradas nas Escrituras, foi deixada de lado por diversos pensamentos heréticos dentro da Igreja, como os recentes difundidos pelo Teísmo Aberto. Aliás, aqui está uma exposição que vale a pena ser lida, feita pelo Rev. Augustus Nicodemus, desta nova teologia. No final dela há um versículo, também de Jó, com o qual selo este post.

"Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.” (Jó 42:2-3)