E a ninguém na terra chameis vosso pai...

Postado por Erike Couto

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Um versículo sempre me chamou atenção toda vez que lia. Ele se encontra no Evangelho de Mateus e diz o seguinte:

“E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes,  [...] E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.  Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Messias, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. [...] O maior dentre vós será vosso servo. (Mt 23:5-11)

Jesus começa afirmando que que os mestres fariseus, para serem mais valorizados perante a população, utilizavam-se de alguns artifícios. Um deles era o de alargar os filactérios que utilizavam ou alargar as franjas de suas vestes. Mas, o que estas expressões realmente querem dizer? Explanarei o contexto geral, histórico e judaico, delas para melhor compreensão da passagem acima. 
  • O que são os Filactérios? 

Deus ordenara, no capítulo 6 de Deuteronômio, que os israelitas adorassem-no, como aquele que os tirara do Egito, portanto, o único Deus verdadeiro (6:4) e que esta adoração precisaria ser feita por eles de forma integral, com tudo que eles pudessem possuir ou ser (6:5). Mais adiante, no verso 8, após mostrar também que ela deveria ser a todo tempo (ao levantar, ao andar, estando em casa ou ao dormir), Deus faz um uma analogia muito interessante: Ele diz que estas prescrições, e todas as leis para a vida dos israelitas dali em diante, precisaria estar tão perto deles como se estivesse "frontais entre os olhos" e "como sinal na mão". Poderei explanar com mais detalhes o que penso sobre estas analogias, bem como a origem delas naquela época, mas isso ficará para uma próxima oportunidade.
֓Tefilin ("filactérios") modernos para pôr sobre a cabeça e sobre o braço
Os judeus, mais tarde, depois que retornaram ao opressivo Exílio Babilônico (séc. VI a.C), começaram a se apegar mais e mais à Torá (Pentateuco) e aos Profetas, como seus intérpretes, para poderem agradar mais e mais ao Senhor e abolirem, de uma vez por todas, a idolatria que havia se difundido nos Reinos de Israel e Judá antes do Exílio, já que pensavam ter sido este um dos pecados que os levaram para a Babilônia. Este apego à Torá fez com que algumas analogias, como esta em Dt 6:8, fosse interpretada de forma literal. Esta leitura gerou a confecção de um apetrecho, formado de duas partes. Elas são faixas de couro com duas caixinhas, também de couro. Dentro destas caixinhas estão enrolados pedaços de pergaminho com os trechos onde aparecem esta mesma analogia no Pentateuco (Ex 13:9, 13:16, Dt 6:8, 11:18). Algumas regras judaicas mais antigas prescrevem ainda que os Dez Mandamentos fosse inserido (Ex 20). Uma das partes é enrolada sobre a cabeça, de modo que a caixinha fique na posição entre os olhos, acima, na testa. A outra parte é posta sobre a mão direita, com as faixas de couro enroladas por todo o braço, de modo que a caixa com os trechos fique sobre o lado do coração (conforme figura abaixo).
Rapaz judeu israelense utilizando os Tefilin
Estes objetos eram utilizados (e ainda são) para que o fiel judeu demonstrasse, de forma externa, a sua devoção que ocorre no coração, no momento da oração. O nome aramaico dado a este apetrecho, תפילין (tefilin) significa "orações", em alusão ao momento em que eram utilizados. O nome grego, que aparece nos Evangelhos, τὰ φυλακτήρια (tà filaktéria), significa "amuletos". Ele provém do mal entendimento por parte dos gregos antigos sobre o propósito religioso desta indumentária judaica. Sabe-se do uso dela na época de Cristo por causa das recentes descobertas em Qumran, região do Deserto de Judá, em Israel, que expuseram à luz restos destes objetos, quase idênticos aos usados atualmente, provando a antiguidade desta tradição.
  • E estas "franjas alargadas"?

Às "franjas alargadas" aqui, Jesus está se referindo aos ציציות (tsitsiot, "franjas, borlas", plural de  ציצית tsitsit). Eram quatro fios de lã branca, entrelaçados com um de cor azul, colocados nos quatro cantos da roupa comum do judeu da época. Isso era possível pois a roupa judaica era feita, basicamente, de um só pano que, sobre o corpo, formava exatamente quatro cantos. A confecção destas franjas, e o propósito delas, estavam expressos no seguinte mandamento ordenado por Deus em Números:

E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Que nas bordas das suas vestes façam franjas pelas suas gerações; e nas franjas das bordas ponham um cordão de azul. E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo. Para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sejais a vosso Deus. Eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para ser vosso Deus. Eu sou o SENHOR vosso Deus. (Nm 15:37-41)

Menino judeu utilizando os tsitsiot (franjas) por baixo da roupa.
Atualmente, não se utiliza mais roupas com cantos, mas calças e camisas. Por isso, os judeus confeccionaram um pano, que é colocado sobre o corpo, para carregá-las quando convir. O nome dado a ele é טלית talit (nome derivado da palavra "orvalho" em hebraico, devido ao fato das franjas se dependurarem da vestimenta como orvalho sobre folhas). 

Só por curiosidade, este versículo do trecho acima, "não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo", é a provável base que Jesus tomou para reinterpretar a lógica do adultério na época Dele em Mt 5:27-28 ("Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.").
  • Quem é este Pai?

Voltando ao trecho de Mateus, entendemos agora o porquê de Jesus estar tão irado contra os fariseus: eles estavam utilizando símbolos e indumentárias que tinham o propósito de uma vivência e experimentação visível de uma devoção ao Criador para um fim totalmente egoísta: se auto-promoverem como santos e dignos de honras humanas pela expressão da religiosidade deles.

O contexto de todo o trecho de Mateus segue esta mesma lógica expressa aqui: exortação à conduta deturpada dos mestres em Israel na sua época. Essa conduta era caracterizada pela religiosidade fingida e deturpada de uma boa parcela dos mestres do farisaísmo, cujo propósito era o ego dos que a praticavam. Por isso Jesus alerta que eles não mereciam o título de mestre que lhes davam, focalizando que o verdadeiro Mestre seria o Messias esperado por eles. Mas, ele afirma logo após que não devíamos também chamar ninguém de pai pois havia somente um que era Pai, o que estava nos Céus (Deus). Jesus mudou o foco de sua exortação, dos mestres para os pais de família, aqui?

Na verdade não! Vemos que no judaísmo rabínico, evolução direta do judaísmo farisaico da época do Segundo Templo (I séc. d.C), há registros (no Talmude, por exemplo) o comum fato de grandes rabinos (como Gamaliel I e seu neto, Gamaliel II) serem referidos pelo nome אבא Abba ("pai", em aramaico) como título honorífico, de forma paralela com o uso de outro, רבנן Rabanan ("nosso mestre") e רבי Rabbi ("o mestre"). Coloco aqui o uso difundido deste título evidenciado por um trecho do Talmude:

הוה כי מצטריך עלמא למיטרא הוו משדרי רבנן ינוקי דבי רב לגביה ונקטי ליה בשיפולי גלימיה ואמרו ליה אבא אבא הב לן מיטרא אמר לפני הקב"ה רבש"ע עשה בשביל אלו שאין מכירין בין אבא דיהיב מיטרא לאבא דלא יהיב מיטרא

“Quando o mundo precisava de chuva, nossos mestres mandavam as crianças da escola de instrução religiosa (lit.: casa do mestre) para ele (Rabi Hanan) e ele. Elas se agarravam nas franjas de suas vestes e pediam: Aba, aba! Dai-nos chuva! Ele, então, clamava a Deus, dizendo: Senhor do Mundo! Faze algo para estes aqui que não sabem distinguir entre o Aba que dá a chuva e o Aba que não pode dá-la (Talmude de Jerusalém, Tratado Taanit 23b)

Perceba que inclusive as crianças eram incentivadas a buscarem este grande mestre (Rabi Hanan) e a puxarem as suas franjas (tsitsiot). Por fim, ele faz a analogia entre o título que lhe chamam, Abba, com Deus, expressando a sua incapacidade ante ao Todo-Poder do Pai Celeste. Se não fosse um trecho da tradição rabínica posterior, e provavelmente intocada pela tradição evangélica, teríamos a impressão que algum cristão escrevera este trecho, não é verdade? Na realidade, os grandes teólogos e bispos cristãos da Antiguidade eram chamados de pais (ou padres, daí Patrística) por causa deste antigo costume judaico da época de Jesus.

Assim, o raciocínio do trecho de Mateus se completa: Jesus estava repreendendo os líderes de sua época que utilizavam o título de mestre (rabi ou rabanan) e de pai (abba) de forma abusiva e para sustentar uma falsa religiosidade, falsa devoção a Deus, já que a verdadeira não consistia em apreço humano (Mt 6:5) mas o buscar a Deus com um coração sincero e verdadeiro (Jo 4:23).

3 comentários:

  1. INSTITUTO ABBA

    Seus textos são verdadeiras aulas... Não dá pra ler uma vez só! Já te disse e repito: escreve que eu vou lendo e aprendendo.... Abraço!

  1. Elis

    estou admirada de como o conhecimento nas línguas originais da escritura fazem a diferença! Parabéns!
    ps: tira uma dúvida: como alguém formado em Letras foi trabalhar no campo da informática? rsrsrs tmb sou formada em Letras e já estou pensando em mudar de área!

  1. Erike Couto

    Pois é Elis... faz a diferença pois quem traduz não para o penamento na integridade para outra língua, poi cada uma é um universo simbólico cultural próprio! As Escrituras não estão isentas disso... e o conhecimento das língua originais e do contexto do texto delas nos ajudam a formular algo mais completo sobre ele e ter, por conseguinte, uma leitura mais próxima a do autor do texto sagrado.

    Acho que as duas paixões, informática e línguas, vieram quase que simultaneamente a minha vida rsrs

    Abraços

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