Os que Provaram do Dom Celestial e Caíram - Uma Análise do Original

Postado por Erike Couto

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O Calvinismo é muito interessante, por várias razões. Eu, pessoalmente, tenho estudado cada vez mais as doutrinas que foram sumarizadas na época da Reforma por João Calvino, bem como os seus desdobramentos posteriores (como o neo-calvinismo) e, pelo pouco que sei até hoje, tenho visto muita coerência deles com os pressupostos existentes na Bíblia e, principalmente, com as linhas de conduta cristã que ela prescreve aos santos. Tenho aprendido também que é um sistema de pensamento, na minha opinião, com falhas. Mas estas são também inerentes  aos homens que formularam-no. Mas o bom de tudo isso é fazer o que Paulo diz, "examinai tudo. Retende o bem." (I Ts 5:21).
No Calvinismo existem os chamados cinco pontos, que resumem a fé tradicional desta linha de pensamento cristão. Quem os conhece, sabe que no quinto deles define a doutrina da perseverança dos santos. Ela afirma que, se era Deus, em Jesus Cristo, que estava reconciliando consigo mesmo o Homem, isso quer dizer que é o mesmo Deus que preservaria o Homem salvo até o fim., não deixando este se perder. Trocando em miúdos, não há a possibilidade de perda da Salvação por alguém que já está em Cristo.
Quem crê neste ponto de vista, como eu hoje creio,  já passou horas e horas tentando ler um trecho específico da Espítola aos Hebreus que parece contradizer o que o quinto ponto afirma.  Nunca consegui conciliar exatamente as idéias expressas em um e em outro. Mas, após  uma conversa que presenciei via Twitter com o caríssimos Victor Bimbato e Igor Miguel, fiquei curioso e resolvi fazer uma análise mais profundada no trecho, aproveitando o pouco que já aprendi de Grego Antigo na faculdade. Aí, após  uma contribuição na conversa deles, Igor me propôs escrever um post sobre o que analisei. Ela é na verdade uma análise morfossintática que fiz dos versos no original grego deles.  Não vou tratar aqui sobre as outras diversas interpretações, nem os problemas que elas trazem em si, que o trecho gerou  ao longo dos tempos, mas somente expor esta, que apesar de ser bem pessoal, espero que ajude na elucidação da passagem. Este é o trecho em questão:
"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo.E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro,E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério." (Hebreus 6:4-6 - ACF)

Como disse antes, fica aparentemente claro que esta passagem, à primeira lida, contradiz o que postula o quinto ponto do TULIP. Este trecho parece justamente contradizer o ensino de que os salvos nunca perderão a salvação em Cristo. Quando lemos tal como está, parece aludir à perda da Salvação por parte daqueles que já provaram dela e dos seus frutos, como o desfrute do retardo da morte em nossas vidas, a comunhão e o amor ao próximo de forma plena, o direcionamento do Espírito etc, tudo isso como antecipação da Eternidade em nossa vida presente. Já li pouco, mas o bastante, procurando respostas a este dilema. Mas, mesmo após ler o que li, permaneci com a dúvida: "Será que a perseverança dos santos é algo realmente embasado biblicamente?".
Antes da análise que farei a diante, tinha encontrado a resposta desta pergunta por outra via, como pela compreensão de que, se o Espírito Santo é dado ao crente e este se torna Sua verdadeira habitação, como resultado de um sacrifício que veio purificar e santificar de forma verdadeira os homens, como este homem purificado e santificado seria hábil de rejeitar o que há de mais profundo, a perfeição da essência de Deus, que é Seu Espírito em nós? Poderei em um próximo post explicar isso com mais calma. Mas por ora, adentro ao trecho destacado acima, já que a análise dele poderá clarear o seu significado, assim como ocorreu comigo após fazê-la.

  • A Análise do Trecho
Trecho do Evangelho de João em Grego Uncial

Primeiramente, o autor da epístola começa o trecho dizendo que é impossível algo. O que será que é impossível aqui? No grego, diferentemente como ocorre no português, há marcas morfo-sintáticas no substantivos, adjetivos, verbos etc que indicam em que caso, modo, grau e função sintática elas possuem nas sentenças. Aqui, a palavra impossível (ἀδύνατον - adünaton) está no nominativo neutro. Isso quer dizer que provavelmente ele será o sujeito da ação verbal ou do predicativo. Aqui se encaixa esta última opção, já que a frase no original não possui verbo (os verbos de ligação ser, estar, haver etc em grego podem ser omitidos das orações e ficarem subtendidos, como ocorre aqui). Logo após impossível, vem o artigo acompanhado de um advérbio e do primeiro verbo: τοὺς ἅπαξ φωτισθέντας (toùs hápax fotisthéntas). O artigo (toùs) está no acusativo, indicando que se inicia agora, nestas sentenças, o alvo semântico do impossível do início (Seria algo como impossível para quem? ai agora vem para...). hápax é um advérbio, e podemos traduzir por uma vez, em um momento. Ele se refere ao verbo seguinte, fotisthéntas. Esta palavra, endo mais exato, é um particípio verbal passivo. Segundo o famoso gramático do grego antigo, Hebert W. Smyth, em Greek Grammar for Colleges, o particípio no grego é utilizado para denotar ações que são frequentemente feitas, ou sofridas por alguém ou algo, mas que já fazem parte da identidade daquele que a pratica, por ser uma ação constante.  É como se fosse também um adjetivo, e por isso muitos dos adjetivos gregos são derivados do particípio. Uma tradução para a nossa língua, que mostre todas as nuances do que é expresso no original, é muito difícil de fazer. No exemplo dado aqui, a tradução seria aqueles que foram iluminados ou simplesmente os iluminados

  • Aoristo? O Que é Isso?
Este verbo e encontra no aoristo. Este é o nome dado a uma ação verbal  de difícil tradução, utilizada nas narrativas gregas antigas como a Ilíada ou Odisséia, para expressar uma sucessão de fatos que antecediam às ações que realmente eram de peso na narrativa, preservadas de forma viva nas mentes e recitações dos poetas e dramaturgos gregos naqueles séculos. Com o passar do tempo, esta ação verbal ficou associada também a um tipo de tempo passado, já que as narrativas são relatos de coisas que ocorreram no passado. Por isso é também chamado de "tempo das narrativas". Mas o aoristo, diferente do passado propriamente dito (que existe também em grego) é considerado uma ação pontual, isto é, ela não está preso ao tempo da narrativa, sendo simplesmente a descrição de alguma ação que ocorria normalmente antes dos fatos narrados em si, posterior ou concomitantemente. Para ilustrar, imaginemos que esta oração esteja em grego (só não a escrevo nele pois não sei o suficiente): O escravo, que matara o seu senhor, viajou vários dias em pleno mar em seu barco. O verbo matara, se fossemos comparar de forma bem simplista, seria uma possível tradução do aoristo grego. Poderia vir nesta frase matará, indicando uma ação futura, mas mesmo assim estaria no aoristo, pois o tempo da narrativa (e ela que importa!) continuaria no passado.

  • E Caíram...
Retornando ao trecho em questão, vemos que partir de agora começa um encadeamento de verbos no particípio, passivo ou ativo, do aoristo. Isso quer dizer que eles indicam ações que eram feitas ou praticadas antes de uma ação principal, que virá mais a frente. Todos os verbos em itálico estão nestas condições: "[...] e os que provaram o dom celestial, e (também) que se tornaram participantes do Espírito Santo. E que provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e que recaíram [...]". Percebemos que há algo estranho aqui: estas pessoas que o autor se refere receberam e praticavam tudo que um crente verdadeiro, salvo, poderia receber e praticar de Deus. Eram coisas que faziam parte dele, e que já eram atributivos. Mas, de repente, entra nas mesmas condições destas ações uma ação contrária, caíram, ou os que caíram.
Qual o sentido desta palavra, caíram? Em grego, παραπεσόντας (parapesóntas) significa cair, falhar. O verbo sem o prefixo para (que significa "ir além de"), é usado tanto para coisas ruins, como cair em pecado (I Co 10:12), como para coisas boas, como cair em adoração a Deus (Ap 4:10). Mas, o seu substantivo (παραπτώμα - paraptóma) é usado com frequência por Paulo para descrever a realidade de pecados que Cristo nos libertou quando éramos mortos neles: "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas (paraptomásin), nos vivificou juntamente com Cristo" (Ef 2:5).


Isso quer dizer que não são simples quedas, não é um simples cair: é o cair ao estado prévio do qual Cristo te tirou. É rejeitar a revivificação que Cristo nos trouxe, quando éramos mortos, como caídos, nestas ofensas. Isso também quer dizer que não é descrita aqui a caminhada de vida de um cristão neófito, que entendo poder se encaixar em outros contextos do Novo Testamento de arrependimento, mas não neste em específico. Aqui o autor trata de alguém que avançou, aparentemente, os degraus da santificação que Deus gera nos crentes. A santificação é processual na Bíblia (Fp 2:12 - "operai a vossa salvação com temor e tremor") e é aludida como uma corrida em Hebreus (12:1). Por isso tal volta é impossível de ser aceita.
Na verdade vou mais longe: depois que o verbo caíram aparece no particípio aoristo, no último verso (v. 6), vemos que o tempo da narrativa muda para o presente, já que os verbos agora estão neste tempo. Isso mostra o que é impossível ocorrer: haver uma renovação para o arrependimento , no presente tempo, para aquele que praticou tudo que foi visto antes, em seu passado e biografia. Isso porque Cristo também seria crucificado novamente, no presente, se houvesse tal tipo de permissão divina ao praticante de tais ações. contraditórias. A versão ACF (gosto muito dela!) tentou expressar o que está no original, alterando os tempos verbais de forma maestral: "sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério". Mas eu, pessoalmente, traduziria assim (que ousadia ein? quem sou eu!? rs): "para que se renovem outra vez para o arrependimento, recrucificando e pondo em vexame assim o Filho de Deus para si mesmos". Como pode ser visto, o arrependimento não é impossível porque Deus não deseja perdoar aquele que caiu, mas porque não existe também a possibilidade de Cristo ser novamente recrucificado nem exposto ao vexame, para tirar novamente alguém que retornou ao seu estado de morto sem Ele. Cristo já fez isso de uma vez por todas, de forma plena, inexorável e perfeita (que na linguagem bíblica, é o que aludem quando dizem ter sido um sacrifício eterno) (Hb 8:11-28).

  • Conclusão

Concluo, então, dizendo que é impossível Cristo ser recrucificado, já que seu sacrifício foi perfeito em ação e aperfeiçoamento daqueles que o tomam sobre si; e por causa disso é igualmente impossível alguém receber o perdão de Deus após retornar ao seu estado anterior, antes da Graça de Deus atuar em sua vida. Jesus disse no Evangelho de João que aqueles que confiassem Nele e em sua obra de redenção não seriam julgados por Deus, pois passaram da morte para a vida (Jo 5:24), numa linguagem e pensamento que Paulo desenvolveria mais tarde nos versos que citei no parágrafos anteriores. Isso quer dizer que é impossível  alguém salvo retornar inclusive ao estado de queda, anterior ou morte no contexto paulino, descrito em Hb 6:4-6, já que não há mais, pelas palavras do Mestre, a possibilidade de julgamento (para a condenação) para quem já foi salvo.  Portanto, essa pessoa  descrita em Hb na verdade nunca foi salva; era só aparência sua salvação. Por isso a idéia expressa no TULIP, em seu quinto ponto, é totalmente compatível com a passagem de Hebreus 6. Para aprofundamento em alguns pontos desta conclusão, bem como na análise do contexto da passagem, que acabei não fazendo aqui (para que não ficasse um macropost!), deixo um excelente estudo recomendado por Igor Miguel. Que a paz que o Espírito nos proporciona nos testifique que estamos em Deus, escondidos Nele!

E a ninguém na terra chameis vosso pai...

Postado por Erike Couto

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Um versículo sempre me chamou atenção toda vez que lia. Ele se encontra no Evangelho de Mateus e diz o seguinte:

“E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes,  [...] E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.  Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Messias, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. [...] O maior dentre vós será vosso servo. (Mt 23:5-11)

Jesus começa afirmando que que os mestres fariseus, para serem mais valorizados perante a população, utilizavam-se de alguns artifícios. Um deles era o de alargar os filactérios que utilizavam ou alargar as franjas de suas vestes. Mas, o que estas expressões realmente querem dizer? Explanarei o contexto geral, histórico e judaico, delas para melhor compreensão da passagem acima. 
  • O que são os Filactérios? 

Deus ordenara, no capítulo 6 de Deuteronômio, que os israelitas adorassem-no, como aquele que os tirara do Egito, portanto, o único Deus verdadeiro (6:4) e que esta adoração precisaria ser feita por eles de forma integral, com tudo que eles pudessem possuir ou ser (6:5). Mais adiante, no verso 8, após mostrar também que ela deveria ser a todo tempo (ao levantar, ao andar, estando em casa ou ao dormir), Deus faz um uma analogia muito interessante: Ele diz que estas prescrições, e todas as leis para a vida dos israelitas dali em diante, precisaria estar tão perto deles como se estivesse "frontais entre os olhos" e "como sinal na mão". Poderei explanar com mais detalhes o que penso sobre estas analogias, bem como a origem delas naquela época, mas isso ficará para uma próxima oportunidade.
֓Tefilin ("filactérios") modernos para pôr sobre a cabeça e sobre o braço
Os judeus, mais tarde, depois que retornaram ao opressivo Exílio Babilônico (séc. VI a.C), começaram a se apegar mais e mais à Torá (Pentateuco) e aos Profetas, como seus intérpretes, para poderem agradar mais e mais ao Senhor e abolirem, de uma vez por todas, a idolatria que havia se difundido nos Reinos de Israel e Judá antes do Exílio, já que pensavam ter sido este um dos pecados que os levaram para a Babilônia. Este apego à Torá fez com que algumas analogias, como esta em Dt 6:8, fosse interpretada de forma literal. Esta leitura gerou a confecção de um apetrecho, formado de duas partes. Elas são faixas de couro com duas caixinhas, também de couro. Dentro destas caixinhas estão enrolados pedaços de pergaminho com os trechos onde aparecem esta mesma analogia no Pentateuco (Ex 13:9, 13:16, Dt 6:8, 11:18). Algumas regras judaicas mais antigas prescrevem ainda que os Dez Mandamentos fosse inserido (Ex 20). Uma das partes é enrolada sobre a cabeça, de modo que a caixinha fique na posição entre os olhos, acima, na testa. A outra parte é posta sobre a mão direita, com as faixas de couro enroladas por todo o braço, de modo que a caixa com os trechos fique sobre o lado do coração (conforme figura abaixo).
Rapaz judeu israelense utilizando os Tefilin
Estes objetos eram utilizados (e ainda são) para que o fiel judeu demonstrasse, de forma externa, a sua devoção que ocorre no coração, no momento da oração. O nome aramaico dado a este apetrecho, תפילין (tefilin) significa "orações", em alusão ao momento em que eram utilizados. O nome grego, que aparece nos Evangelhos, τὰ φυλακτήρια (tà filaktéria), significa "amuletos". Ele provém do mal entendimento por parte dos gregos antigos sobre o propósito religioso desta indumentária judaica. Sabe-se do uso dela na época de Cristo por causa das recentes descobertas em Qumran, região do Deserto de Judá, em Israel, que expuseram à luz restos destes objetos, quase idênticos aos usados atualmente, provando a antiguidade desta tradição.
  • E estas "franjas alargadas"?

Às "franjas alargadas" aqui, Jesus está se referindo aos ציציות (tsitsiot, "franjas, borlas", plural de  ציצית tsitsit). Eram quatro fios de lã branca, entrelaçados com um de cor azul, colocados nos quatro cantos da roupa comum do judeu da época. Isso era possível pois a roupa judaica era feita, basicamente, de um só pano que, sobre o corpo, formava exatamente quatro cantos. A confecção destas franjas, e o propósito delas, estavam expressos no seguinte mandamento ordenado por Deus em Números:

E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Que nas bordas das suas vestes façam franjas pelas suas gerações; e nas franjas das bordas ponham um cordão de azul. E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo. Para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sejais a vosso Deus. Eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para ser vosso Deus. Eu sou o SENHOR vosso Deus. (Nm 15:37-41)

Menino judeu utilizando os tsitsiot (franjas) por baixo da roupa.
Atualmente, não se utiliza mais roupas com cantos, mas calças e camisas. Por isso, os judeus confeccionaram um pano, que é colocado sobre o corpo, para carregá-las quando convir. O nome dado a ele é טלית talit (nome derivado da palavra "orvalho" em hebraico, devido ao fato das franjas se dependurarem da vestimenta como orvalho sobre folhas). 

Só por curiosidade, este versículo do trecho acima, "não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo", é a provável base que Jesus tomou para reinterpretar a lógica do adultério na época Dele em Mt 5:27-28 ("Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.").
  • Quem é este Pai?

Voltando ao trecho de Mateus, entendemos agora o porquê de Jesus estar tão irado contra os fariseus: eles estavam utilizando símbolos e indumentárias que tinham o propósito de uma vivência e experimentação visível de uma devoção ao Criador para um fim totalmente egoísta: se auto-promoverem como santos e dignos de honras humanas pela expressão da religiosidade deles.

O contexto de todo o trecho de Mateus segue esta mesma lógica expressa aqui: exortação à conduta deturpada dos mestres em Israel na sua época. Essa conduta era caracterizada pela religiosidade fingida e deturpada de uma boa parcela dos mestres do farisaísmo, cujo propósito era o ego dos que a praticavam. Por isso Jesus alerta que eles não mereciam o título de mestre que lhes davam, focalizando que o verdadeiro Mestre seria o Messias esperado por eles. Mas, ele afirma logo após que não devíamos também chamar ninguém de pai pois havia somente um que era Pai, o que estava nos Céus (Deus). Jesus mudou o foco de sua exortação, dos mestres para os pais de família, aqui?

Na verdade não! Vemos que no judaísmo rabínico, evolução direta do judaísmo farisaico da época do Segundo Templo (I séc. d.C), há registros (no Talmude, por exemplo) o comum fato de grandes rabinos (como Gamaliel I e seu neto, Gamaliel II) serem referidos pelo nome אבא Abba ("pai", em aramaico) como título honorífico, de forma paralela com o uso de outro, רבנן Rabanan ("nosso mestre") e רבי Rabbi ("o mestre"). Coloco aqui o uso difundido deste título evidenciado por um trecho do Talmude:

הוה כי מצטריך עלמא למיטרא הוו משדרי רבנן ינוקי דבי רב לגביה ונקטי ליה בשיפולי גלימיה ואמרו ליה אבא אבא הב לן מיטרא אמר לפני הקב"ה רבש"ע עשה בשביל אלו שאין מכירין בין אבא דיהיב מיטרא לאבא דלא יהיב מיטרא

“Quando o mundo precisava de chuva, nossos mestres mandavam as crianças da escola de instrução religiosa (lit.: casa do mestre) para ele (Rabi Hanan) e ele. Elas se agarravam nas franjas de suas vestes e pediam: Aba, aba! Dai-nos chuva! Ele, então, clamava a Deus, dizendo: Senhor do Mundo! Faze algo para estes aqui que não sabem distinguir entre o Aba que dá a chuva e o Aba que não pode dá-la (Talmude de Jerusalém, Tratado Taanit 23b)

Perceba que inclusive as crianças eram incentivadas a buscarem este grande mestre (Rabi Hanan) e a puxarem as suas franjas (tsitsiot). Por fim, ele faz a analogia entre o título que lhe chamam, Abba, com Deus, expressando a sua incapacidade ante ao Todo-Poder do Pai Celeste. Se não fosse um trecho da tradição rabínica posterior, e provavelmente intocada pela tradição evangélica, teríamos a impressão que algum cristão escrevera este trecho, não é verdade? Na realidade, os grandes teólogos e bispos cristãos da Antiguidade eram chamados de pais (ou padres, daí Patrística) por causa deste antigo costume judaico da época de Jesus.

Assim, o raciocínio do trecho de Mateus se completa: Jesus estava repreendendo os líderes de sua época que utilizavam o título de mestre (rabi ou rabanan) e de pai (abba) de forma abusiva e para sustentar uma falsa religiosidade, falsa devoção a Deus, já que a verdadeira não consistia em apreço humano (Mt 6:5) mas o buscar a Deus com um coração sincero e verdadeiro (Jo 4:23).

"O Maná do Reino do Amanhã dai-nos hoje..."

Postado por Erike Couto

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Eis a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos em Mateus 6:9-13:

"Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém." (Mt 6:9-13)

Refletindo sobre esta simples, porém profunda, oração que Jesus nos instruiu, foquei-me na seguinte passagem em específico:

"[...] o pão nosso de cada dia dai-nos hoje [...]" (Mt 6:11)

Lembrei-me então de algumas coisas que envolvem este verso no original grego. Lá, a expressão "o pão nosso de cada dia" é τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον (tòn árton hemerôn tòn epiúsion). A palavra epioúsion, que está no acusativo da forma nominal epiousia, é muito rara, sendo unicamente encontrada no Novo Testamento, mas em nenhum outro manuscrito grego antigo. No escritos neo-testamentários, ela se encontra em duas passagens, esta do Evangelho de Mateus e outra no de Lucas 11:13, em outro relato desta oração feita por este evangelista. Ela é composta por dois morfemas, epi, "sobre, acima" e ousia, "ser, essência, existência". Uma outra tradução poderia ser, consequentemente, "o pão nosso de (para nossa) existência (ou sustento)". A palavra ousia é raramente usada no grego antigo, e mesmo assim é restrita aos círculos da filosofia da Antiga Hélade. Para queesta difícil palavra possa ser corretamente traduzida, algumas traduções podem lançar alguma luz. 

Pai Nosso em Hebraico nas paredes do Monastério Pater Noster, em Jerusalém.
  • Traduções já feitas

A Peshitta, a tradução para o aramaico siríaco do Novo Testamento, em sua versão padronizada, a traduziu como ܕܣܘܢܩܢܢ d'sunqanan, que significa "de nosso sustento". Mas, a versão achada no códex curetoniano, tem ܐܡܝܢܐ ܕܝܘܡܐ  , amina d'yawma, "(o pão) permanente do dia", em Mateus. Na Vulgata, Jerônimo traduz a palavra epioúsia em sua literalidade grega, supersubstantialem, que significa "mais que o necessário, o fundamental". Mas, por alguma razão, ele traduz o mesmo termo, quando este aparece em Lucas, como quotidianum, "diário".  

Se tomarmos mais uma referência em uma antiga tradução da Bíblia, a efetuada para o cópta (língua egípcia, em seu último estrato linguístico, escrita em caracteres derivados do grego antigo), teremos um significado um pouco diferente. A difusão desta tradução presume-se já ter sido efetuada desde o séc. II, portanto é muito antiga. Nela, temos penoeik etnhy, "o pão nosso (do dia) que virá".

  • Comentário de Jerônimo sobre o Pai Nosso

Para complicar mais ainda a situação, o famoso tradutor da versão latina que citei acima, a Vulgata, em um relato que se encontra em comentário seu sobre  o Evangelho de Mateus, ele diz o seguinte:

"No Evangelho que é chamado 'dos Hebreus', no lugar de 'pão supersubstantialem', eu achei mahar, que significa 'de amanhã', podendo significar o seguinte: nosso pão que era para amanhã, isto é, o futuro, dai-nos neste dia" (Sobre Mateus I, comentário sobre Mt 6:11)

Este Evangelho dos Hebreus foi o provável evangelho utilizado (segundo Jerônimo, em "hebraico") por uma comunidade de judeus cristãos que habitavam a Terra Santa. No relato acima, ele diz que a palavra usada por Jesus para epioúsia seria mahar. Essa palavra, provavelmente, seria uma transcrição para o latim da hebraica מחר, mahar, que significa "amanhã, dia posterior a hoje". É muito estranho ele ter dito que esta seria a palavra original do Mestre pois aparentemente o seu significado é totalmente diferente daquele presente na palavra em grego que possuímos. Mas na verdade, a solução - segundo Joachim Jeremias, em seu livro Teologia do Novo Testamento - se encontra sim nesta palavra hebraica/aramaica citada por Jerônimo. Ele afirma que existe um adjetivo, ἡ ἐπιοῦσα (he epioôsa), que na verdade é derivado de epiousia. Mas, este adjetivo significa "(o dia) que vem, o amanhã". Ele conclui, portanto, que o nome epioúsia em Mateus e Lucas, na verdade, seria a tentativa de traduzir a palavra mahar "amanhã", tendo-se em mente a prévia tradução deste termo hebraico, na Septuaginta, pelo mesmo adjetivo grego, epioûsia.

"São Jerônimo estudando", afresco de Domenico Ghirlandaio (1480)
Joachim Jeremias observa ainda que, mesmo se pensarmos que o Evangelho dos Hebreus tenha sido uma tradução para o aramaico/hebraico dos ditos originais de Jesus (seguindo a forma dos antigos targums), e não um original propriamente dito deste (assim como a Peshitta é uma tradução de manuscritos gregos, por exemplo), ainda assim o trecho da oração do Pai Nosso, supõe-se, teria sido preservado como originalmente fora recitado por Jesus, por causa da sua extensa utilização e inserção na liturgia cristã desde as primeiras comunidades. É só lembrarmos, por exemplo, que isso ocorre também com  os textos gregos  do Novo Testamento que possuímos, onde expressões em aramaico/hebraico originais, também utilizadas extensamente pelas primeiras comunidade de cristãos, foram preservadas neles. Entre estas expressões, estão Abba (אבא - "Óh Pai!" - Rm 8:15), Maran atha (μαραναθα - מרן אתא - "Óh Nosso Senhor! Vem!" - I Co 16:22), Hosana (הושע נאת, hoshá ná, "Salva-nos agora!" - Mt 21:9) etc. Por isso, é bem provável que a palavra mahar tenha sido a palavra original que posteriormente fora traduzida para o grego como epioúsia, mas que nos foi transmitida por Jerônimo, pelas vias da tradição hebreu-cristã da Terra de Israel que hoje é desconhecida por nós. Se levarmos em conta tudo isso, juntamente com algumas evidências como a antiga tradução cópita mostrada acima, poderemos aceitar a citação de Jerônimo, que advoga ser mahar a palavra original nesta passagem do Pai Nosso, como plausível e confiável!

Desse modo, poderíamos reler o trecho do Pai Nosso desta forma: "o pão nosso de amanhã dai-nos hoje". Este entendimento do versículo é bem mais lógico e condizente com o contexto dos ditos de Jesus. Nosso Senhor ensinou os seus discípulos a orarem pedindo a Deus a aproximação da vontade Dele e de Seu Reino escatológico para a realidade simples e diária (o "hoje" deles). 

  • O Maná que nos traz Vida

Maná caindo do céu para aos israelitas (iluminura medieval do séc XIII).
Pensando de forma mais profunda (num linguajar judaico, mais midráshica!), se realmente Jesus disse de o pão de amanhã, como discutimos aqui, talvez também estivesse fazendo alusão ao Maná que caia em porção dobrada na sexta-feira para que o povo descansasse no Shabat (Ex 16:4-5). Talvez Jerônimo esteja emitindo uma antiga interpretação cristã sobre esta expressão: Jesus queria ensinar que o Pão da Vida - que é a Palavra de Deus (conforme sua resposta a Satanás no deserto, em Mt 4:4) e também Ele mesmo, como a Palavra de Deus em carne, viva (Jo 6:48) - não é algo que aquele que Lhe segue experimentará, e viverá por seu sustento, somente em um Reino distante, cujo cumprimento será no cataclismo dos tempos. Não! Ele estava também ensinando  que quem provasse de Suas Palavras e estivesse se sustentando Dele mesmo, como se sustenta com pão ou como os israelitas se sustentaram com o Maná no deserto, experimentaria a Eternidade desde agora.

  • Sinais da Ressurreição de e em Cristo

Tomo aqui esta interpretação expandida e vou mais além. Jesus disse que alguns sinais acompanhariam aqueles que cressem Nele. Perceba: a maioria destes sinais são para que a morte fosse retardada, apontando para a Eternidade que temos já no Senhor (Mc 16:17-18 - "E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.). 

Afresco da Igreja do São Salvador em Chora, Turquia.
Por isso também que Paulo, mais tarde, entenderia a nossa conversão e permanência em Jesus como uma experimentação da nossa própria Ressurreição, que teria a sua concretização final no futuro. Vejamos a seguinte passagem em Colossenses onde ele expõe isso:

"Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória." (Colossians 3:1-4 )
 
Em uma outra passagem, Paulo afirma que a ressurreição de Jesus é a primícia, a antecipação, de outras futuras, as dos crentes (I Co 15:23). Mas aqui, Paulo começa afirmando que isso que ocorreria no futuro já ocorreu, isto é, já ressuscitamos com Cristo! O próprio Jesus indicara isso também quando disse que todos aqueles que cressem Nele, já viveriam os benefícios da Ressurreição e do Reino de Deus em seu tempo presente (Jo 5:24-26 - "[...] quem crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. [...] vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão." - grifo meu). O Apóstolo continua na passagem acima dizendo que, se estamos ressurretos em Cristo, precisamos buscar as coisas da realidade de Deus, que é "de cima", em contraste com "da terra", isto é, uma realidade sem o Reino de Deus sobre ela. Ele então conecta esta realidade já presenciada pelos crentes em Cristo com uma manifestação plena e final, ressurgindo corporalmente após mortos, na glória, de Cristo, por ocasião de Sua vinda (algo expresso também em I Ts 4:16-18).

O entendimento acima é o mesmo que rodeia às prescrições em relação à Ceia do Senhor, onde o elemento do pão é um dos seus componentes, em I Co 11. Todas as vezes que participamos da Ceia, nos tornamos participantes, de forma atemporal, do momento em que Cristo se preparava para entregar Sua própria vida em nosso favor e de Sua morte e ressurreição também. Por isso Paulo alerta aqui também o cuidado que o homem deveria ter em se examinar antes de tomar da ceia. Se o homem tomasse indignamente o cálice e o pão, ocorreria então o contrário do que estes elementos aludem: a atração da morte. É por isso que ele diz que muitos estavam padecendo de enfermidade e até mortos, pois não tinham discernido este quadro restaurador do homem em Cristo que a Ceia representa (I Co 11:30).

O Evangelho é isso: Deus, em Seu infinito amor, entrega Seu Filho para morrer e então resgatar dos grilhões do pecado aqueles que Nele cressem (Jo 3:16). A estes, o caminho a Deus estaria aberto e livre, e uma comunhão plena entre  o Deus Eterno e Santo e eles seria possível (Hb 10). Então, algo maravilhoso ocorre após isso: a obra de Redenção de Cristo quebra as barreiras temporais e geográficas, e o longínquo Reino de Deus, quando todos de todas as nações conheceriam a Deus e seriam plenos Nele (época vislumbrada pelo profeta Jeremias, conforme Jr 31:31-34) pode ser experimentado na vida de cada um de nós hoje, crentes Nele, e expandido onde quer que formos (Cl 1:23-29). Podemos implantar o Reino de Deus aqui, "puxá-lo" de cima, dos Céus, para a Terra, como Jesus nos ensinou a orar e pedir ao Pai! Aleluia!