O Criador foi sustentado...

Postado por Erike Couto

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Detalhe do afresco da Igreja de São Jorge (Ortodoxa Grega) em Toronto - Canadá, 
Tendo feito uma reflexão hoje sobre a celebração do Natal, me veio a vontade de postá-la aqui no blog, acompanhada de uma bela mensagem, anunciada numa estranha língua do Oriente. Muita gente vê esta celebração que hoje é feita como um bom momento para estar em família, rever os parentes distantes ou um bom momento para descansar. Outros vêem nela ilegitimidade, alegando que não fora ordenada expressamente nas Escrituras. Alguns vão mais longe, e a condenam com veemência, afirmando origens pagãs quando sua data e costumes foram fixados há centenas de anos atrás.

Bem, no meio de toda esta confusão, a História cristã sempre esteve aí - tanto na época que ainda não havia o costume de celebrar a festa, quanto depois que ela passou a ser - para apregoar ao Mundo o evento central da celebração natalina: o Criador se encontrou com a criatura e o Deus Eterno se fez gente para segurar em nossas mãos e nos guiar na Sua Verdade. Este evento, por si só, transcende calendários, culturas, costumes e pensamentos. Este evento cósmico e particular, eterno e histórico, excelso e humilde ocorreu, há dois mil anos atrás, e a Glória emanada do verbo que nasceu em Belém de Judá percorre os séculos, levando a mensagem de Vida e Salvação a todos que Nele confiam.

Te convido então a rememorar mais uma vez este maravilhoso evento, ouvindo e lendo estas lindas palavras entoadas de um antigo hino cristão bizantino, exaltando a Natividade do Nosso Senhor. Este hino está em árabe, mas no vídeo contém a sua tradução paralela. Como tive a curiosidade de conferir palavra por palavra na letra original, fiz uma tradução pessoal para o português. Deus vos abençoe!




Em português:


Hoje é nascido de uma virgem Aquele que domina a Criação, possuindo-a firmemente Consigo.
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Aquele cuja essência é incognoscível, está envolto em panos, como uma criança.
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O Deus que estabeleceu anteriormente os Céus, desde o princípio, reclina-se em uma manjedoura.
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Aquele que fez chover o Maná sobre o Seu Povo no deserto, se nutre com o leite dos seios maternos.
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O Noivo da Igreja convida os Magos, o Filho da Virgem recebe os seus presentes.
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Nós reverenciamos a Tua Natividade, ó Cristo. 
Mostra-nos a Tua Divina Aparição!

A Soberania do Deus de Jó...

Postado por Erike Couto


Entrei no blog Internautas Cristãos e li um post que tinha vários versículos em lista. Eles descrevem o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, aquele que tudo sabe, tudo pode e está em todos os lugares. Não me surpreendi com isso! Mas, fitando os olhos no último versículo desta passagem do Livro de Jó, achei-o muito interessante.

"O HOMEM, nascido da mulher, é de poucos dias e farto de inquietação. Sai como a flor, e murcha; foge também como a sombra, e não permanece. E sobre este tal abres os teus olhos, e a mim me fazes entrar no juízo contigo. Quem do imundo tirará o puro? Ninguém. Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; e tu lhe puseste limites, e não passará além deles." (Jó 14:1-5 - Almeida Corrigida Fiel).

Tive, então, a curiosidade de conferir o original hebraico deste versículo. Depois disso, me surpreendi de fato!

אִם חֲרוּצִים יָמָיו מִסְפַּר-חֳדָשָׁיו אִתָּךְ חֻקָּו עָשִׂיתָ וְלֹא יַעֲבֹר
'im charutzim yamaiv mispar chodashaiv 'itach chuqqav 'assita velo' ya'avor

A tradução de João Ferreira de Almeida é muito boa e já traz o sentido bem próximo expresso no texto original. Mas, conferir a beleza por trás do original em hebraico é simplesmente surpreendente! Vou tecer alguns comentários próprios e depois propor uma tradução pessoal a ele, para que vocês entendam o porquê disso que disse.

A palavra חֲרוּצִים (charutzim) tem a raíz que significa "cortado", "afastado", "liberado", "saído" e, num sentido mais geral, "corrido", "apressado". É usado em paralelo ao verbo "sair", יָצָא  yatzá'  por exemplo, no versículo 24 de II Samuel: "há de ser que, ouvindo tu um estrondo de marcha pelas copas das amoreiras, então te apressarás; porque o SENHOR saiu então diante de ti, a ferir o arraial dos filisteus.". O contexto (v. 21-23) nos mostra que este era um dito do Senhor a Davi, que O consultara para saber o que fazer no cerco em guerra contra os filisteus. Perceba o sentido militar do termo, que se refere a uma corrida em marcha contra os inimigos, para ser executado um estratagema determinado por Deus, após Este o revelar a Davi. 

Por isso, as palavras derivadas da mesma raíz desta analisada acima adquiriram também o significado de algo "determinado", "projetado", "comandado previamente", provavelmente tendo derivado deste sentido político-militar antigo, já que em alguns outros versículos estas mesmas palavras são usadas neste mesmo contexto de autoridade e de guerra. Entre eles, está o versículo 23 de Isaías 10, quando Deus diz que, sobre a Assíria, estava "determinada - נֶחֱרָצָה (necheratzah) - já a destruição, o Senhor DEUS dos Exércitos a executará no meio de toda esta terra.", no contexto de julgamento àquela nação que estava oprimindo Israel e levando-o cativo. O Targum de Jonatan, antiga tradução judaica dos livros proféticos das Escrituras para o aramaico popular do séc. III, traduziu este termo hebraico de Jó por סריגין serigin, que significa "tecidos", "entrelaçados", "organizados", como as linhas em um tapete. Esta imagem também traz a idéia de organização prévia de algo (linhas) que tem um plano maior depois para se ver depois (um tapete depois de pronto, por exemplo). A tradução de João Ferreira de Almeida Corrigida e Fiel ao Texto Original (ACF) traduziu bem o pensamento do autor, como "determinados", mas acho que poderíamos traduzir por uma palavra que, além de trazer este significado, acrescenta a noção de estratagema. Talvez assim ficasse melhor: "Visto que os seus dias estão delineados". 

A segunda parte do verso tem palavras bem peculiares também. A primeira delas é חֻקָּו chuqqav. Bem... esta forma é a forma escrita no texto massorético (na forma ketiv), mas a tradição judaica diz que não é a forma correta de se pronunciar, pois contém um erro morfológico na palavra. Ela precisaria estar escrita desta forma, חֻקָּיו chuqqaiv, que é a forma qeri, isto é, como deve ser pronunciada conforme a tradição judaica. Dessa forma, ela significa "os seus estatutos ou leis ou decretos" e se refere especificamente às leis que, de costume, eram inscritas em blocos de pedras e expostos para que todos vissem, como as estelas egípcias ou os códigos de leis mesopotâmicos como o de Hamurabi. A outra palavra enigmática, יַעֲבֹר ya'avor, é um verbo e significa "(ele) passará", "trespassará", "transportará". Ele confirma estas interpretações anteriores pois, nas Escrituras, nunca tem somente estes significados tácitos, mas também o abstrato de "transgredir ou revogar alguma lei estabelecida ou aliança firmada". Este verbo está no singular, mas isso ocorre com frequencia nos textos originais (o agente da ação é plural e o verbo se encontra no singular). O significado abstrato dele pode ser visto sendo usado claramente em Ester 1:19a e Oséias 8:1. Em Ester, o verso diz o seguinte: "Se bem parecer ao rei, saia da sua parte um edito real, e escreva-se nas leis dos persas e dos medos, e não se revogue (יַעֲבֹר ya'avor)...". No segundo caso de Oséias, temos o seguinte: "Emboca a trombeta! Ele vem como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança (עָבְרוּ בְרִיתִי 'avru v'ritie se rebelaram contra a minha lei ( תּוֹרָתִי torati)". 

Portanto, poderíamos traduzir o versículo completo da seguinte forma:

"Visto que os seus dias estão delineados e o número de seus meses está contigo; os seus decretos estabeleceste, e não serão revogados!".

Mais tarde, João Calvino, reformador do séc. XVI, sintetizaria este pensamento, baseando-se neste e em vários outros versículos bíblicos, a respeito da Soberania de Deus:

"[...] de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada." 
(A Instituição da Religião Cristã, livro I, cap. XVI, 8)

Impressionante! Este é o nosso Deus: Soberano de forma completa e absoluta, em todas as ações de todos os seres de Sua Criação, quer sejam humanos ou não, boas ou más. E não somente isso, mas estas ações também são ordenadas de forma magistral, como um plano eterno, e não uma previsão fatídica, que O tomaria de surpresa por causa de escolhas humanas ou pelo puro acaso. Infelizmente, esta característica do nosso Deus, tão bem reconhecida por Jó e preservada em suas palavras registradas nas Escrituras, foi deixada de lado por diversos pensamentos heréticos dentro da Igreja, como os recentes difundidos pelo Teísmo Aberto. Aliás, aqui está uma exposição que vale a pena ser lida, feita pelo Rev. Augustus Nicodemus, desta nova teologia. No final dela há um versículo, também de Jó, com o qual selo este post.

"Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.” (Jó 42:2-3)

Os que Provaram do Dom Celestial e Caíram - Uma Análise do Original

Postado por Erike Couto

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O Calvinismo é muito interessante, por várias razões. Eu, pessoalmente, tenho estudado cada vez mais as doutrinas que foram sumarizadas na época da Reforma por João Calvino, bem como os seus desdobramentos posteriores (como o neo-calvinismo) e, pelo pouco que sei até hoje, tenho visto muita coerência deles com os pressupostos existentes na Bíblia e, principalmente, com as linhas de conduta cristã que ela prescreve aos santos. Tenho aprendido também que é um sistema de pensamento, na minha opinião, com falhas. Mas estas são também inerentes  aos homens que formularam-no. Mas o bom de tudo isso é fazer o que Paulo diz, "examinai tudo. Retende o bem." (I Ts 5:21).
No Calvinismo existem os chamados cinco pontos, que resumem a fé tradicional desta linha de pensamento cristão. Quem os conhece, sabe que no quinto deles define a doutrina da perseverança dos santos. Ela afirma que, se era Deus, em Jesus Cristo, que estava reconciliando consigo mesmo o Homem, isso quer dizer que é o mesmo Deus que preservaria o Homem salvo até o fim., não deixando este se perder. Trocando em miúdos, não há a possibilidade de perda da Salvação por alguém que já está em Cristo.
Quem crê neste ponto de vista, como eu hoje creio,  já passou horas e horas tentando ler um trecho específico da Espítola aos Hebreus que parece contradizer o que o quinto ponto afirma.  Nunca consegui conciliar exatamente as idéias expressas em um e em outro. Mas, após  uma conversa que presenciei via Twitter com o caríssimos Victor Bimbato e Igor Miguel, fiquei curioso e resolvi fazer uma análise mais profundada no trecho, aproveitando o pouco que já aprendi de Grego Antigo na faculdade. Aí, após  uma contribuição na conversa deles, Igor me propôs escrever um post sobre o que analisei. Ela é na verdade uma análise morfossintática que fiz dos versos no original grego deles.  Não vou tratar aqui sobre as outras diversas interpretações, nem os problemas que elas trazem em si, que o trecho gerou  ao longo dos tempos, mas somente expor esta, que apesar de ser bem pessoal, espero que ajude na elucidação da passagem. Este é o trecho em questão:
"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo.E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro,E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério." (Hebreus 6:4-6 - ACF)

Como disse antes, fica aparentemente claro que esta passagem, à primeira lida, contradiz o que postula o quinto ponto do TULIP. Este trecho parece justamente contradizer o ensino de que os salvos nunca perderão a salvação em Cristo. Quando lemos tal como está, parece aludir à perda da Salvação por parte daqueles que já provaram dela e dos seus frutos, como o desfrute do retardo da morte em nossas vidas, a comunhão e o amor ao próximo de forma plena, o direcionamento do Espírito etc, tudo isso como antecipação da Eternidade em nossa vida presente. Já li pouco, mas o bastante, procurando respostas a este dilema. Mas, mesmo após ler o que li, permaneci com a dúvida: "Será que a perseverança dos santos é algo realmente embasado biblicamente?".
Antes da análise que farei a diante, tinha encontrado a resposta desta pergunta por outra via, como pela compreensão de que, se o Espírito Santo é dado ao crente e este se torna Sua verdadeira habitação, como resultado de um sacrifício que veio purificar e santificar de forma verdadeira os homens, como este homem purificado e santificado seria hábil de rejeitar o que há de mais profundo, a perfeição da essência de Deus, que é Seu Espírito em nós? Poderei em um próximo post explicar isso com mais calma. Mas por ora, adentro ao trecho destacado acima, já que a análise dele poderá clarear o seu significado, assim como ocorreu comigo após fazê-la.

  • A Análise do Trecho
Trecho do Evangelho de João em Grego Uncial

Primeiramente, o autor da epístola começa o trecho dizendo que é impossível algo. O que será que é impossível aqui? No grego, diferentemente como ocorre no português, há marcas morfo-sintáticas no substantivos, adjetivos, verbos etc que indicam em que caso, modo, grau e função sintática elas possuem nas sentenças. Aqui, a palavra impossível (ἀδύνατον - adünaton) está no nominativo neutro. Isso quer dizer que provavelmente ele será o sujeito da ação verbal ou do predicativo. Aqui se encaixa esta última opção, já que a frase no original não possui verbo (os verbos de ligação ser, estar, haver etc em grego podem ser omitidos das orações e ficarem subtendidos, como ocorre aqui). Logo após impossível, vem o artigo acompanhado de um advérbio e do primeiro verbo: τοὺς ἅπαξ φωτισθέντας (toùs hápax fotisthéntas). O artigo (toùs) está no acusativo, indicando que se inicia agora, nestas sentenças, o alvo semântico do impossível do início (Seria algo como impossível para quem? ai agora vem para...). hápax é um advérbio, e podemos traduzir por uma vez, em um momento. Ele se refere ao verbo seguinte, fotisthéntas. Esta palavra, endo mais exato, é um particípio verbal passivo. Segundo o famoso gramático do grego antigo, Hebert W. Smyth, em Greek Grammar for Colleges, o particípio no grego é utilizado para denotar ações que são frequentemente feitas, ou sofridas por alguém ou algo, mas que já fazem parte da identidade daquele que a pratica, por ser uma ação constante.  É como se fosse também um adjetivo, e por isso muitos dos adjetivos gregos são derivados do particípio. Uma tradução para a nossa língua, que mostre todas as nuances do que é expresso no original, é muito difícil de fazer. No exemplo dado aqui, a tradução seria aqueles que foram iluminados ou simplesmente os iluminados

  • Aoristo? O Que é Isso?
Este verbo e encontra no aoristo. Este é o nome dado a uma ação verbal  de difícil tradução, utilizada nas narrativas gregas antigas como a Ilíada ou Odisséia, para expressar uma sucessão de fatos que antecediam às ações que realmente eram de peso na narrativa, preservadas de forma viva nas mentes e recitações dos poetas e dramaturgos gregos naqueles séculos. Com o passar do tempo, esta ação verbal ficou associada também a um tipo de tempo passado, já que as narrativas são relatos de coisas que ocorreram no passado. Por isso é também chamado de "tempo das narrativas". Mas o aoristo, diferente do passado propriamente dito (que existe também em grego) é considerado uma ação pontual, isto é, ela não está preso ao tempo da narrativa, sendo simplesmente a descrição de alguma ação que ocorria normalmente antes dos fatos narrados em si, posterior ou concomitantemente. Para ilustrar, imaginemos que esta oração esteja em grego (só não a escrevo nele pois não sei o suficiente): O escravo, que matara o seu senhor, viajou vários dias em pleno mar em seu barco. O verbo matara, se fossemos comparar de forma bem simplista, seria uma possível tradução do aoristo grego. Poderia vir nesta frase matará, indicando uma ação futura, mas mesmo assim estaria no aoristo, pois o tempo da narrativa (e ela que importa!) continuaria no passado.

  • E Caíram...
Retornando ao trecho em questão, vemos que partir de agora começa um encadeamento de verbos no particípio, passivo ou ativo, do aoristo. Isso quer dizer que eles indicam ações que eram feitas ou praticadas antes de uma ação principal, que virá mais a frente. Todos os verbos em itálico estão nestas condições: "[...] e os que provaram o dom celestial, e (também) que se tornaram participantes do Espírito Santo. E que provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e que recaíram [...]". Percebemos que há algo estranho aqui: estas pessoas que o autor se refere receberam e praticavam tudo que um crente verdadeiro, salvo, poderia receber e praticar de Deus. Eram coisas que faziam parte dele, e que já eram atributivos. Mas, de repente, entra nas mesmas condições destas ações uma ação contrária, caíram, ou os que caíram.
Qual o sentido desta palavra, caíram? Em grego, παραπεσόντας (parapesóntas) significa cair, falhar. O verbo sem o prefixo para (que significa "ir além de"), é usado tanto para coisas ruins, como cair em pecado (I Co 10:12), como para coisas boas, como cair em adoração a Deus (Ap 4:10). Mas, o seu substantivo (παραπτώμα - paraptóma) é usado com frequência por Paulo para descrever a realidade de pecados que Cristo nos libertou quando éramos mortos neles: "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas (paraptomásin), nos vivificou juntamente com Cristo" (Ef 2:5).


Isso quer dizer que não são simples quedas, não é um simples cair: é o cair ao estado prévio do qual Cristo te tirou. É rejeitar a revivificação que Cristo nos trouxe, quando éramos mortos, como caídos, nestas ofensas. Isso também quer dizer que não é descrita aqui a caminhada de vida de um cristão neófito, que entendo poder se encaixar em outros contextos do Novo Testamento de arrependimento, mas não neste em específico. Aqui o autor trata de alguém que avançou, aparentemente, os degraus da santificação que Deus gera nos crentes. A santificação é processual na Bíblia (Fp 2:12 - "operai a vossa salvação com temor e tremor") e é aludida como uma corrida em Hebreus (12:1). Por isso tal volta é impossível de ser aceita.
Na verdade vou mais longe: depois que o verbo caíram aparece no particípio aoristo, no último verso (v. 6), vemos que o tempo da narrativa muda para o presente, já que os verbos agora estão neste tempo. Isso mostra o que é impossível ocorrer: haver uma renovação para o arrependimento , no presente tempo, para aquele que praticou tudo que foi visto antes, em seu passado e biografia. Isso porque Cristo também seria crucificado novamente, no presente, se houvesse tal tipo de permissão divina ao praticante de tais ações. contraditórias. A versão ACF (gosto muito dela!) tentou expressar o que está no original, alterando os tempos verbais de forma maestral: "sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério". Mas eu, pessoalmente, traduziria assim (que ousadia ein? quem sou eu!? rs): "para que se renovem outra vez para o arrependimento, recrucificando e pondo em vexame assim o Filho de Deus para si mesmos". Como pode ser visto, o arrependimento não é impossível porque Deus não deseja perdoar aquele que caiu, mas porque não existe também a possibilidade de Cristo ser novamente recrucificado nem exposto ao vexame, para tirar novamente alguém que retornou ao seu estado de morto sem Ele. Cristo já fez isso de uma vez por todas, de forma plena, inexorável e perfeita (que na linguagem bíblica, é o que aludem quando dizem ter sido um sacrifício eterno) (Hb 8:11-28).

  • Conclusão

Concluo, então, dizendo que é impossível Cristo ser recrucificado, já que seu sacrifício foi perfeito em ação e aperfeiçoamento daqueles que o tomam sobre si; e por causa disso é igualmente impossível alguém receber o perdão de Deus após retornar ao seu estado anterior, antes da Graça de Deus atuar em sua vida. Jesus disse no Evangelho de João que aqueles que confiassem Nele e em sua obra de redenção não seriam julgados por Deus, pois passaram da morte para a vida (Jo 5:24), numa linguagem e pensamento que Paulo desenvolveria mais tarde nos versos que citei no parágrafos anteriores. Isso quer dizer que é impossível  alguém salvo retornar inclusive ao estado de queda, anterior ou morte no contexto paulino, descrito em Hb 6:4-6, já que não há mais, pelas palavras do Mestre, a possibilidade de julgamento (para a condenação) para quem já foi salvo.  Portanto, essa pessoa  descrita em Hb na verdade nunca foi salva; era só aparência sua salvação. Por isso a idéia expressa no TULIP, em seu quinto ponto, é totalmente compatível com a passagem de Hebreus 6. Para aprofundamento em alguns pontos desta conclusão, bem como na análise do contexto da passagem, que acabei não fazendo aqui (para que não ficasse um macropost!), deixo um excelente estudo recomendado por Igor Miguel. Que a paz que o Espírito nos proporciona nos testifique que estamos em Deus, escondidos Nele!

E a ninguém na terra chameis vosso pai...

Postado por Erike Couto

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Um versículo sempre me chamou atenção toda vez que lia. Ele se encontra no Evangelho de Mateus e diz o seguinte:

“E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes,  [...] E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.  Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Messias, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. [...] O maior dentre vós será vosso servo. (Mt 23:5-11)

Jesus começa afirmando que que os mestres fariseus, para serem mais valorizados perante a população, utilizavam-se de alguns artifícios. Um deles era o de alargar os filactérios que utilizavam ou alargar as franjas de suas vestes. Mas, o que estas expressões realmente querem dizer? Explanarei o contexto geral, histórico e judaico, delas para melhor compreensão da passagem acima. 
  • O que são os Filactérios? 

Deus ordenara, no capítulo 6 de Deuteronômio, que os israelitas adorassem-no, como aquele que os tirara do Egito, portanto, o único Deus verdadeiro (6:4) e que esta adoração precisaria ser feita por eles de forma integral, com tudo que eles pudessem possuir ou ser (6:5). Mais adiante, no verso 8, após mostrar também que ela deveria ser a todo tempo (ao levantar, ao andar, estando em casa ou ao dormir), Deus faz um uma analogia muito interessante: Ele diz que estas prescrições, e todas as leis para a vida dos israelitas dali em diante, precisaria estar tão perto deles como se estivesse "frontais entre os olhos" e "como sinal na mão". Poderei explanar com mais detalhes o que penso sobre estas analogias, bem como a origem delas naquela época, mas isso ficará para uma próxima oportunidade.
֓Tefilin ("filactérios") modernos para pôr sobre a cabeça e sobre o braço
Os judeus, mais tarde, depois que retornaram ao opressivo Exílio Babilônico (séc. VI a.C), começaram a se apegar mais e mais à Torá (Pentateuco) e aos Profetas, como seus intérpretes, para poderem agradar mais e mais ao Senhor e abolirem, de uma vez por todas, a idolatria que havia se difundido nos Reinos de Israel e Judá antes do Exílio, já que pensavam ter sido este um dos pecados que os levaram para a Babilônia. Este apego à Torá fez com que algumas analogias, como esta em Dt 6:8, fosse interpretada de forma literal. Esta leitura gerou a confecção de um apetrecho, formado de duas partes. Elas são faixas de couro com duas caixinhas, também de couro. Dentro destas caixinhas estão enrolados pedaços de pergaminho com os trechos onde aparecem esta mesma analogia no Pentateuco (Ex 13:9, 13:16, Dt 6:8, 11:18). Algumas regras judaicas mais antigas prescrevem ainda que os Dez Mandamentos fosse inserido (Ex 20). Uma das partes é enrolada sobre a cabeça, de modo que a caixinha fique na posição entre os olhos, acima, na testa. A outra parte é posta sobre a mão direita, com as faixas de couro enroladas por todo o braço, de modo que a caixa com os trechos fique sobre o lado do coração (conforme figura abaixo).
Rapaz judeu israelense utilizando os Tefilin
Estes objetos eram utilizados (e ainda são) para que o fiel judeu demonstrasse, de forma externa, a sua devoção que ocorre no coração, no momento da oração. O nome aramaico dado a este apetrecho, תפילין (tefilin) significa "orações", em alusão ao momento em que eram utilizados. O nome grego, que aparece nos Evangelhos, τὰ φυλακτήρια (tà filaktéria), significa "amuletos". Ele provém do mal entendimento por parte dos gregos antigos sobre o propósito religioso desta indumentária judaica. Sabe-se do uso dela na época de Cristo por causa das recentes descobertas em Qumran, região do Deserto de Judá, em Israel, que expuseram à luz restos destes objetos, quase idênticos aos usados atualmente, provando a antiguidade desta tradição.
  • E estas "franjas alargadas"?

Às "franjas alargadas" aqui, Jesus está se referindo aos ציציות (tsitsiot, "franjas, borlas", plural de  ציצית tsitsit). Eram quatro fios de lã branca, entrelaçados com um de cor azul, colocados nos quatro cantos da roupa comum do judeu da época. Isso era possível pois a roupa judaica era feita, basicamente, de um só pano que, sobre o corpo, formava exatamente quatro cantos. A confecção destas franjas, e o propósito delas, estavam expressos no seguinte mandamento ordenado por Deus em Números:

E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Que nas bordas das suas vestes façam franjas pelas suas gerações; e nas franjas das bordas ponham um cordão de azul. E as franjas vos serão para que, vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do SENHOR, e os cumprais; e não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo. Para que vos lembreis de todos os meus mandamentos, e os cumprais, e santos sejais a vosso Deus. Eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para ser vosso Deus. Eu sou o SENHOR vosso Deus. (Nm 15:37-41)

Menino judeu utilizando os tsitsiot (franjas) por baixo da roupa.
Atualmente, não se utiliza mais roupas com cantos, mas calças e camisas. Por isso, os judeus confeccionaram um pano, que é colocado sobre o corpo, para carregá-las quando convir. O nome dado a ele é טלית talit (nome derivado da palavra "orvalho" em hebraico, devido ao fato das franjas se dependurarem da vestimenta como orvalho sobre folhas). 

Só por curiosidade, este versículo do trecho acima, "não seguireis o vosso coração, nem após os vossos olhos, pelos quais andais vos prostituindo", é a provável base que Jesus tomou para reinterpretar a lógica do adultério na época Dele em Mt 5:27-28 ("Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.").
  • Quem é este Pai?

Voltando ao trecho de Mateus, entendemos agora o porquê de Jesus estar tão irado contra os fariseus: eles estavam utilizando símbolos e indumentárias que tinham o propósito de uma vivência e experimentação visível de uma devoção ao Criador para um fim totalmente egoísta: se auto-promoverem como santos e dignos de honras humanas pela expressão da religiosidade deles.

O contexto de todo o trecho de Mateus segue esta mesma lógica expressa aqui: exortação à conduta deturpada dos mestres em Israel na sua época. Essa conduta era caracterizada pela religiosidade fingida e deturpada de uma boa parcela dos mestres do farisaísmo, cujo propósito era o ego dos que a praticavam. Por isso Jesus alerta que eles não mereciam o título de mestre que lhes davam, focalizando que o verdadeiro Mestre seria o Messias esperado por eles. Mas, ele afirma logo após que não devíamos também chamar ninguém de pai pois havia somente um que era Pai, o que estava nos Céus (Deus). Jesus mudou o foco de sua exortação, dos mestres para os pais de família, aqui?

Na verdade não! Vemos que no judaísmo rabínico, evolução direta do judaísmo farisaico da época do Segundo Templo (I séc. d.C), há registros (no Talmude, por exemplo) o comum fato de grandes rabinos (como Gamaliel I e seu neto, Gamaliel II) serem referidos pelo nome אבא Abba ("pai", em aramaico) como título honorífico, de forma paralela com o uso de outro, רבנן Rabanan ("nosso mestre") e רבי Rabbi ("o mestre"). Coloco aqui o uso difundido deste título evidenciado por um trecho do Talmude:

הוה כי מצטריך עלמא למיטרא הוו משדרי רבנן ינוקי דבי רב לגביה ונקטי ליה בשיפולי גלימיה ואמרו ליה אבא אבא הב לן מיטרא אמר לפני הקב"ה רבש"ע עשה בשביל אלו שאין מכירין בין אבא דיהיב מיטרא לאבא דלא יהיב מיטרא

“Quando o mundo precisava de chuva, nossos mestres mandavam as crianças da escola de instrução religiosa (lit.: casa do mestre) para ele (Rabi Hanan) e ele. Elas se agarravam nas franjas de suas vestes e pediam: Aba, aba! Dai-nos chuva! Ele, então, clamava a Deus, dizendo: Senhor do Mundo! Faze algo para estes aqui que não sabem distinguir entre o Aba que dá a chuva e o Aba que não pode dá-la (Talmude de Jerusalém, Tratado Taanit 23b)

Perceba que inclusive as crianças eram incentivadas a buscarem este grande mestre (Rabi Hanan) e a puxarem as suas franjas (tsitsiot). Por fim, ele faz a analogia entre o título que lhe chamam, Abba, com Deus, expressando a sua incapacidade ante ao Todo-Poder do Pai Celeste. Se não fosse um trecho da tradição rabínica posterior, e provavelmente intocada pela tradição evangélica, teríamos a impressão que algum cristão escrevera este trecho, não é verdade? Na realidade, os grandes teólogos e bispos cristãos da Antiguidade eram chamados de pais (ou padres, daí Patrística) por causa deste antigo costume judaico da época de Jesus.

Assim, o raciocínio do trecho de Mateus se completa: Jesus estava repreendendo os líderes de sua época que utilizavam o título de mestre (rabi ou rabanan) e de pai (abba) de forma abusiva e para sustentar uma falsa religiosidade, falsa devoção a Deus, já que a verdadeira não consistia em apreço humano (Mt 6:5) mas o buscar a Deus com um coração sincero e verdadeiro (Jo 4:23).

"O Maná do Reino do Amanhã dai-nos hoje..."

Postado por Erike Couto

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Eis a oração que Jesus ensinou aos seus discípulos em Mateus 6:9-13:

"Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém." (Mt 6:9-13)

Refletindo sobre esta simples, porém profunda, oração que Jesus nos instruiu, foquei-me na seguinte passagem em específico:

"[...] o pão nosso de cada dia dai-nos hoje [...]" (Mt 6:11)

Lembrei-me então de algumas coisas que envolvem este verso no original grego. Lá, a expressão "o pão nosso de cada dia" é τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον (tòn árton hemerôn tòn epiúsion). A palavra epioúsion, que está no acusativo da forma nominal epiousia, é muito rara, sendo unicamente encontrada no Novo Testamento, mas em nenhum outro manuscrito grego antigo. No escritos neo-testamentários, ela se encontra em duas passagens, esta do Evangelho de Mateus e outra no de Lucas 11:13, em outro relato desta oração feita por este evangelista. Ela é composta por dois morfemas, epi, "sobre, acima" e ousia, "ser, essência, existência". Uma outra tradução poderia ser, consequentemente, "o pão nosso de (para nossa) existência (ou sustento)". A palavra ousia é raramente usada no grego antigo, e mesmo assim é restrita aos círculos da filosofia da Antiga Hélade. Para queesta difícil palavra possa ser corretamente traduzida, algumas traduções podem lançar alguma luz. 

Pai Nosso em Hebraico nas paredes do Monastério Pater Noster, em Jerusalém.
  • Traduções já feitas

A Peshitta, a tradução para o aramaico siríaco do Novo Testamento, em sua versão padronizada, a traduziu como ܕܣܘܢܩܢܢ d'sunqanan, que significa "de nosso sustento". Mas, a versão achada no códex curetoniano, tem ܐܡܝܢܐ ܕܝܘܡܐ  , amina d'yawma, "(o pão) permanente do dia", em Mateus. Na Vulgata, Jerônimo traduz a palavra epioúsia em sua literalidade grega, supersubstantialem, que significa "mais que o necessário, o fundamental". Mas, por alguma razão, ele traduz o mesmo termo, quando este aparece em Lucas, como quotidianum, "diário".  

Se tomarmos mais uma referência em uma antiga tradução da Bíblia, a efetuada para o cópta (língua egípcia, em seu último estrato linguístico, escrita em caracteres derivados do grego antigo), teremos um significado um pouco diferente. A difusão desta tradução presume-se já ter sido efetuada desde o séc. II, portanto é muito antiga. Nela, temos penoeik etnhy, "o pão nosso (do dia) que virá".

  • Comentário de Jerônimo sobre o Pai Nosso

Para complicar mais ainda a situação, o famoso tradutor da versão latina que citei acima, a Vulgata, em um relato que se encontra em comentário seu sobre  o Evangelho de Mateus, ele diz o seguinte:

"No Evangelho que é chamado 'dos Hebreus', no lugar de 'pão supersubstantialem', eu achei mahar, que significa 'de amanhã', podendo significar o seguinte: nosso pão que era para amanhã, isto é, o futuro, dai-nos neste dia" (Sobre Mateus I, comentário sobre Mt 6:11)

Este Evangelho dos Hebreus foi o provável evangelho utilizado (segundo Jerônimo, em "hebraico") por uma comunidade de judeus cristãos que habitavam a Terra Santa. No relato acima, ele diz que a palavra usada por Jesus para epioúsia seria mahar. Essa palavra, provavelmente, seria uma transcrição para o latim da hebraica מחר, mahar, que significa "amanhã, dia posterior a hoje". É muito estranho ele ter dito que esta seria a palavra original do Mestre pois aparentemente o seu significado é totalmente diferente daquele presente na palavra em grego que possuímos. Mas na verdade, a solução - segundo Joachim Jeremias, em seu livro Teologia do Novo Testamento - se encontra sim nesta palavra hebraica/aramaica citada por Jerônimo. Ele afirma que existe um adjetivo, ἡ ἐπιοῦσα (he epioôsa), que na verdade é derivado de epiousia. Mas, este adjetivo significa "(o dia) que vem, o amanhã". Ele conclui, portanto, que o nome epioúsia em Mateus e Lucas, na verdade, seria a tentativa de traduzir a palavra mahar "amanhã", tendo-se em mente a prévia tradução deste termo hebraico, na Septuaginta, pelo mesmo adjetivo grego, epioûsia.

"São Jerônimo estudando", afresco de Domenico Ghirlandaio (1480)
Joachim Jeremias observa ainda que, mesmo se pensarmos que o Evangelho dos Hebreus tenha sido uma tradução para o aramaico/hebraico dos ditos originais de Jesus (seguindo a forma dos antigos targums), e não um original propriamente dito deste (assim como a Peshitta é uma tradução de manuscritos gregos, por exemplo), ainda assim o trecho da oração do Pai Nosso, supõe-se, teria sido preservado como originalmente fora recitado por Jesus, por causa da sua extensa utilização e inserção na liturgia cristã desde as primeiras comunidades. É só lembrarmos, por exemplo, que isso ocorre também com  os textos gregos  do Novo Testamento que possuímos, onde expressões em aramaico/hebraico originais, também utilizadas extensamente pelas primeiras comunidade de cristãos, foram preservadas neles. Entre estas expressões, estão Abba (אבא - "Óh Pai!" - Rm 8:15), Maran atha (μαραναθα - מרן אתא - "Óh Nosso Senhor! Vem!" - I Co 16:22), Hosana (הושע נאת, hoshá ná, "Salva-nos agora!" - Mt 21:9) etc. Por isso, é bem provável que a palavra mahar tenha sido a palavra original que posteriormente fora traduzida para o grego como epioúsia, mas que nos foi transmitida por Jerônimo, pelas vias da tradição hebreu-cristã da Terra de Israel que hoje é desconhecida por nós. Se levarmos em conta tudo isso, juntamente com algumas evidências como a antiga tradução cópita mostrada acima, poderemos aceitar a citação de Jerônimo, que advoga ser mahar a palavra original nesta passagem do Pai Nosso, como plausível e confiável!

Desse modo, poderíamos reler o trecho do Pai Nosso desta forma: "o pão nosso de amanhã dai-nos hoje". Este entendimento do versículo é bem mais lógico e condizente com o contexto dos ditos de Jesus. Nosso Senhor ensinou os seus discípulos a orarem pedindo a Deus a aproximação da vontade Dele e de Seu Reino escatológico para a realidade simples e diária (o "hoje" deles). 

  • O Maná que nos traz Vida

Maná caindo do céu para aos israelitas (iluminura medieval do séc XIII).
Pensando de forma mais profunda (num linguajar judaico, mais midráshica!), se realmente Jesus disse de o pão de amanhã, como discutimos aqui, talvez também estivesse fazendo alusão ao Maná que caia em porção dobrada na sexta-feira para que o povo descansasse no Shabat (Ex 16:4-5). Talvez Jerônimo esteja emitindo uma antiga interpretação cristã sobre esta expressão: Jesus queria ensinar que o Pão da Vida - que é a Palavra de Deus (conforme sua resposta a Satanás no deserto, em Mt 4:4) e também Ele mesmo, como a Palavra de Deus em carne, viva (Jo 6:48) - não é algo que aquele que Lhe segue experimentará, e viverá por seu sustento, somente em um Reino distante, cujo cumprimento será no cataclismo dos tempos. Não! Ele estava também ensinando  que quem provasse de Suas Palavras e estivesse se sustentando Dele mesmo, como se sustenta com pão ou como os israelitas se sustentaram com o Maná no deserto, experimentaria a Eternidade desde agora.

  • Sinais da Ressurreição de e em Cristo

Tomo aqui esta interpretação expandida e vou mais além. Jesus disse que alguns sinais acompanhariam aqueles que cressem Nele. Perceba: a maioria destes sinais são para que a morte fosse retardada, apontando para a Eternidade que temos já no Senhor (Mc 16:17-18 - "E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.). 

Afresco da Igreja do São Salvador em Chora, Turquia.
Por isso também que Paulo, mais tarde, entenderia a nossa conversão e permanência em Jesus como uma experimentação da nossa própria Ressurreição, que teria a sua concretização final no futuro. Vejamos a seguinte passagem em Colossenses onde ele expõe isso:

"Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória." (Colossians 3:1-4 )
 
Em uma outra passagem, Paulo afirma que a ressurreição de Jesus é a primícia, a antecipação, de outras futuras, as dos crentes (I Co 15:23). Mas aqui, Paulo começa afirmando que isso que ocorreria no futuro já ocorreu, isto é, já ressuscitamos com Cristo! O próprio Jesus indicara isso também quando disse que todos aqueles que cressem Nele, já viveriam os benefícios da Ressurreição e do Reino de Deus em seu tempo presente (Jo 5:24-26 - "[...] quem crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. [...] vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão." - grifo meu). O Apóstolo continua na passagem acima dizendo que, se estamos ressurretos em Cristo, precisamos buscar as coisas da realidade de Deus, que é "de cima", em contraste com "da terra", isto é, uma realidade sem o Reino de Deus sobre ela. Ele então conecta esta realidade já presenciada pelos crentes em Cristo com uma manifestação plena e final, ressurgindo corporalmente após mortos, na glória, de Cristo, por ocasião de Sua vinda (algo expresso também em I Ts 4:16-18).

O entendimento acima é o mesmo que rodeia às prescrições em relação à Ceia do Senhor, onde o elemento do pão é um dos seus componentes, em I Co 11. Todas as vezes que participamos da Ceia, nos tornamos participantes, de forma atemporal, do momento em que Cristo se preparava para entregar Sua própria vida em nosso favor e de Sua morte e ressurreição também. Por isso Paulo alerta aqui também o cuidado que o homem deveria ter em se examinar antes de tomar da ceia. Se o homem tomasse indignamente o cálice e o pão, ocorreria então o contrário do que estes elementos aludem: a atração da morte. É por isso que ele diz que muitos estavam padecendo de enfermidade e até mortos, pois não tinham discernido este quadro restaurador do homem em Cristo que a Ceia representa (I Co 11:30).

O Evangelho é isso: Deus, em Seu infinito amor, entrega Seu Filho para morrer e então resgatar dos grilhões do pecado aqueles que Nele cressem (Jo 3:16). A estes, o caminho a Deus estaria aberto e livre, e uma comunhão plena entre  o Deus Eterno e Santo e eles seria possível (Hb 10). Então, algo maravilhoso ocorre após isso: a obra de Redenção de Cristo quebra as barreiras temporais e geográficas, e o longínquo Reino de Deus, quando todos de todas as nações conheceriam a Deus e seriam plenos Nele (época vislumbrada pelo profeta Jeremias, conforme Jr 31:31-34) pode ser experimentado na vida de cada um de nós hoje, crentes Nele, e expandido onde quer que formos (Cl 1:23-29). Podemos implantar o Reino de Deus aqui, "puxá-lo" de cima, dos Céus, para a Terra, como Jesus nos ensinou a orar e pedir ao Pai! Aleluia!

Que tem a ver Meca com Jerusalém? Ou a Mesquita com a Igreja? - Parte I

Postado por Erike Couto

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O título deste post é uma paráfrase de um dito do grande teólogo cristão Tertuliano (séc. III). Ele afirmara que:

"[...] Que tem a ver Atenas com Jerusalém? Ou a Academia com a Igreja? Ou os hereges com os cristãos? A nossa doutrina vem do pórtico de Salomão, que nos ensina a buscar o Senhor na simplicidade do coração. Que inventem, pois, se o quiserem, um cristianismo de tipo estóico e dialético! [...]"

(De Praescriptione Haereticorum cap. 7:41)

Tertuliano expressou isso quando enfrentava em sua época heresias que poderiam corromper a doutrina cristã no meio da Igreja, advindas de correntes com influências judaicas, gregas e egípcias, das conhecidas religiões de mistérios. E, graças à força teológica de homens como ele, a Igreja pôde  se fortalecer e se firmar em bases sólidas, que fez com que tivéssemos hoje um legado doutrinário riquíssimo para usufruirmos, aprendendo como viviam os antigos cristãos.

Talvez alguém pergunte: "Certo! Mas o quê o Islam tem a ver com isso tudo?". Bem... se compararmos as épocas, veremos que estamos vivendo em um tempo que urge a necessidade de, digamos, vários "Tertulianos" no meio da Igreja. E, se na posteridade ficarem registradas ditos e obras de algum apologista atual da mesma envergadura daquele latino, com certeza o tema central será o Islamismo. A religião da Arábia já está ai, avançando em todo o mundo. E incluo neste mundo o Brasil! Além de poucos brasileiros saberem disso, uma boa parte da Igreja brasileira também está alienada a este fato, preocupado-se muito mais nas somas de dízimos que ela pode arrecadar ou em qual político "pastor" vai ascender aos famigerados cargos do Congresso Nacional...

Antes de postar algumas questões que o cristão brasileiro poderá enfrentar (ou já enfrenta!) com o avanço do Islam, e instruí-lo como lidar com elas, vou expor em linhas gerais background histórico e doutrinário desta religião do Oriente.
  • História

O nome Islam é dado à religião que foi fundada pelo árabe Muhammad ibn 'Abd Allah ibn 'Abd al-Muttalib  (ou simplesmente محمد , Muhammad, conhecido aqui por Maomé) em 625 d.C. Nesta época, ele habitava a Arábia (hoje Árabia Saudita). Semi-analfabeto, iletrado e comerciante próspero com o auxílio de Khadija, sua rica esposa, ele pertencia à tribo dos Quraishitas, que era responsável, entre outras coisas, com a administração das rotas de comércio da Arábia com outros lugares do mundo como Índia e Pérsia e do culto aos diversos ídolos (os árabes, à época, eram politeístas) que havia na cidade onde ele morava, Meca. Em um certo dia, ele alegou ter recebido a visita em visão de um anjo, o Gabriel registrado na tradição judaico-cristã, após um longo tempo de meditação em busca do qual deus adorar, ante os centenas da época, e como se aproximar dele, estando num lugar conhecido como "a Caverna da Luz". Este ser celestial lhe disse, então, para ele começar a recitar de forma espontânea uma mensagem divina de que não haveria outro deus verdadeiro a não ser Deus e que ele, Maomé, seria seu enviado, carregando esta nova mensagem aos árabes e ao mundo.

A Caverna da Luz: conforme a tradição islâmica, Maomé recebera aqui o Alcorão

Um dos fundamentos da fé que Maomé propagara desde então era a submissão  irrestrita a Deus (que em árabe se diz justamente islam - إسلام, "submissão", entrega¨, do verbo اسلم, aslama, "entregar-se", "submeter-se"), crendo que Ele é o Criador de tudo (الخالق - al-khaaliq) e o Senhor dos Mundos (رب العالم - Rabb al-3aalamin). Por isso aqueles que creem na mensagem de Maomé se autodenominam "muçulmanos", que em árabe é o particípio ativo do verbo mencionado acima, مسلم (muslim), que significa "aquele que se submete (a Deus)".

As revelações a Maomé feitas pelo anjo continuaram com o passar do tempo, de forma paulatina e em porções. Ao todo, levaram 23 anos para que elas finalmente terminassem. Segundo a tradição islâmica, enquanto as recebia, Maomé memorizava-as e as recitava de cor para seus companheiros, já que não sabia escrever. Estes, as escreviam em palmas de tamareiras e em cacos de barro, até que finalmente foram reunidas após a morte de Maomé por um dos seus sucessores (em árabe خليفة - khalifah - que gerou nosso "califa"), Uthman 'ibn Affan (574 - 656), e compiladas em uma espécie de códex e distribuído como versão padronizada para os fiéis. Este livro passou a ser chamado de Alcorão (القرآن - Al-qur'an), que significa "recitação em voz alta" ou "leitura", em alusão à instrução inicial do anjo a Maomé.

Uma cópia do Al-qur'an (Alcorão), livro sagrado para os muçulmanos

A difusão do Islam se deu por meio diferente das outras religiões monoteístas anteriores: a espada era o meio propagador da nova fé. Maomé conseguira agregar um pequeno grupo ao redor de si, formado principalmente por sua mulher, sobrinhos, primos e tios dele. Posteriormente, sua mensagem começou a incomodar a circunvizinhança e os influentes comerciantes de Meca, pois ela pregava a adoração ao único Deus e o distanciamento completo da idolatria. Interessante notar que o termo "idolatria" em árabe é شرك shirk, que significa "coparticipação", "mistura", "dividir com". Isso caracteriza como era a religiosidade mecana: politeísta e profundamente sincrética, misturando crenças animistas, judaicas, cristãs, persas e hindus. Isso era totalmente explicável pelo caráter de cruzamento de rotas comerciais que Meca possuía, interligando os lugares que os que professavam estas diferentes crenças habitavam. O problema é que o culto nos santuários espalhados pela região, principalmente o mais famoso dentre eles (a Kaaba), era um dos sustentáculos do promissor comércio existente em Meca. Está aqui a razão da revolta dos comerciantes da cidade.

Ele foi então obrigado a sair da cidade por pressão da população, resistente aos lemas propostos por ele. Para se refugiar, Maomé se direciona a uma cidade conhecida como يثرب Yathrib. Este episódio seria conhecido posteriormente como هجرة hijrah, "a Fuga" ou Hégira, e seria o marco inicial para a contagem dos anos no calendário islâmico. A cidade também adquiriria um novo nome, مدينة النبي madinat an-nabi - "a Cidade do Profeta (Maomé)", chegando ao Ocidente como Medina.
 
Lá, ele teve contato com a comunidade de judeus e cristãos que habitavam a cidade. Este momento foi no qual, presumivelmente, Maomé teve contato também com as tradições judaico-cristãs que entrariam no arcabouço de crenças islâmicas, como informações sobre a vida de Moisés, o Êxodo do Egito, os profetas do Antigo Testamento e a família e vida de Jesus. Muitas destas informações, hoje escritas no Alcorão e na tradição de ditos de Maomé (conhecido como حديث Hadith) são permeadas de lendas e interpretações extrabíblicas, advindas do Talmude e midrash judaicos e de lendas da literatura cristã apócrifa. Em um outro post poderemos comentar em detalhes as influências destas lendas sobre os escritos islâmicos.

Após alguns acordos entre os muçulmanos e não-muçulmanos de Medina, e também a quebra constante dos mesmos, Maomé se revolta contra a resistência de muitos à nova fé e estabelece que os infiéis deveriam ser combatidos à espada. Entre os muçulmanos, porém, não poderia haver qualquer divisão, já que estes eram irmãos, que formavam uma espécie de nova nação que ultrapassava os limites tribais (الامة - al-ummah, "a Nação"). Os idólatras precisariam aceitar a nova fé ou serem mortos. Já os judeus e o cristãos, principalmente, eram considerados "o Povo do Livro" (اهل الكتاب - 'ahl al-kitaab). O Alcorão prescrevia que eles não deveriam ser mortos como os idólatras pois eles criam em um único Deus também (Sura al-Ankabut 29:47). Mas, para que isso ocorresse, e para que vivessem em um estado de relativa liberdade social dentro da ummah islâmica (isto é, livres, porém controlados em alguns papéis sociais), a condição sine qua nonon seria o pagamento de tributos ao Estado islâmico onde eles residissem (impostos estes conhecidos pelo nome de Jazyah جزية , Sura al-Tauba 9:29).

Em Medina, o profeta do Islam estabelece as fundações da comunidade muçulmana e fortalece seus seguidores a se organizarem como um exército poderoso para batalhar pela conquista de Meca. Após 10 anos de intensas batalhas, a cidade da Kaaba é dominada pelos muçulmanos e se inaugura a expansão islâmica por toda a bacia do Mediterrâneo e Oriente Médio.
  • Doutrinas

O Islam se fundamenta, resumidamente, em 5 pontos, conhecidos como os Pilares do Islam (أركان الإسلام -  arkaan al-islaam). Eles são:

1. A profissão de fé

O fiel necessita aceitar a fé como a Shahaada (شهادة) inicialmente prefigura. Ela diz que لا إله الا الله ومحمد رسول الله (la 'ilah 'ila' 'Allah waMuhammad rassul 'ullah), que significa "Não há divindade a não ser Deus e Maomé é o seu enviado". Ela conjuntamente expressa o monoteísmo islâmico (توحيد - tawhid) e a crença de que Maomé foi o último dos profetas (antes dele vieram Jesus, Davi, Moisés, Abraão e outros) e que possuía a mensagem que corrigia, plenificaria e substituiria muito do que foi pregado por eles, que está contido na Lei de Moisés (توراة - Tawrah), nos Salmos de Davi (زبور‎ - Zabur) e nos Evangelhos de Jesus (إنجيل - 'Injil).

2. A Oração Diária

Em árabe صلاة - salaah, é uma das práticas que os muçulmanos se destacam mais aos olhos dos não-muçulmanos: uma diligência e meticulosidade nos diversos momentos de oração. Elas devem ser feitas em árabe (mesmo para quem não é falante da língua!) e possui 5 momentos diários: ao amanhecer, meio-dia, antes do pôr-do-sol, após o pôr-do-sol e à noite. O fiel precisa cumprir também uma série de regras para diversas posições durante a oração, que tem uma parte inicial recitada (cuja maior parte do conteúdo advém de versos do Alcorão) e outro final de oração pessoal. Na forma comunitária, a oração é feita em um lugar conhecido como masjad (مسجد). Este nome vem da raíz سجد (sajada) que significa "adorar", "se prostrar". São edificações normalmente com um amplo recinto circular ou poligonal, sem muitas decorações (e proibidamente sem imagens ou figuras humanas ou de animais), destinado à oração e à prédica do  imame às sextas-feiras (dia semanal sagrado ao muçulmano). Em português,  estas edificações são conhecidas como mesquitas.

Muçulmanos rezando em uma mesquita

3. O Jejum

O sawm (صوم - "jejum") é feito no mês de Ramadã (nono mês lunar), quando se comemora a primeira revelação do Alcorão recebida por Maomé. Durante o jejum, que perdura por todos os dias do mês, durante suas horas claras, não é permitido comer, beber nem ter relações sexuais. O jejum é concluído diariamente com a ingestão de tâmaras, como fazia Maomé.  

4. A Oferta

A zakkaah ("tributo" ou "oferta") é uma parcela (normalmente 2,5 %) dos bens que o fiél possui e que tenha adquirido no período de um ano. Esta parcela é destinada à manutenção da comunidade pobre muçulmana, que não tem condições de se sustentar por conta própria ou não pode pagar as despesas para o cumprimento de algum dos mandamentos do Islam, como a Peregrinação a Meca.

5. A Peregrinação

Esta é obrigatória a todo muçulmano. Se as condições permitirem, deve ser feita anualmente. Se não, pelo menos uma vez na vida. Ocorre principalmente no mës de Ramadan. Ela se destina a Meca, cidade que contém a maior, e mais sagrada, mesquita, Al-masgad Al-haraam (A Mesquita Sagrada), em cujo centro se encontra uma edificação, de forma cúbica, denominada Kaaba (كعبة - "cubo"). Ela é considerada o primeiro ponto de adoração humano a Deus, construído por Adão, rededicado por Abraão e finalmente restaurado por Maomé. Em volta dela é que a peregrinação a Meca tem seu ápice, com as sete voltas ao seu redor e o vislumbre pelo fiél de uma das mais sagradas relíquias islämicas, denominada الحجر الأسود Aj-hajar Al-aswad ("A Pedra Negra"). Segundo a tradição, ela foi enviada do céu a Adão e que, inicialmente branca, se tornara negra por causa dos pecados da Humanidade.

A mesquita mais sagrada para os muçulmanos, em Meca, Árabia Saudiata, em tempos de peregrinação da Hajj. Ao centro: a Caaba. Canto direito: a Lua Crescente, símbolo do Islam.

  • Islam, submissão em paz ou em conflito?

Alguém poderá perguntar: "Bela história! Mas o quê tenho a ver com isso tudo, como cristão!?". O Islam seria uma religião que traria tanto impacto sobre o cristão como o traz o hinduísmo ou o xintoísmo se não fosse alguns pontos que a diferencia destas duas últimas crenças do Extremo Oriente. Um dos pontos é que a fé islâmica emergiu de uma confluência de duas tradições: a judaica e a cristã. Apesar destas influências, visíveis nas histórias dos patriarcas e profetas hebreus descritas no Alcorão por exemplo, há também passagens neste livro sagrado que são contra-respostas à fé cristã, ou pelo menos tal como ela era compreendida pelos árabes da época de Maomé ou como era disseminada por grupos heréticos como os Nestorianos, já fixados na península arábica desde o exílio deles após excomunhão do Concílio de Éfeso em 431. Por isso, sempre que um muçulmano abordar algum cristão e suas crenças, ele utilizará seu texto religioso basilar: o Alcorão. Isso pode ser algo ainda raro nestas terras tupiniquins (uma abordagem muçulmana a um cristão), mas já é realidade em países como como a Inglaterra, os EUA ou a França, onde seu crescimento tem sido mais acentuado. Por isso, urge ao cristão ter conhecimento de sua própria fé, a forma correta da doutrina (isto é, a forma ortodoxa dela) para que saiba também encarar os textos e argumentos que o que confessa a fé islâmica traga futuramente a ele.

Outro ponto que faz com que o Islam esteja na lista do dia dos cristãos atuais é a sua história de expansão, cujo meio propagador fora a espada. Ele se deu sob milícias em ação, invadindo territórios e subjugando os povos que neles habitavam, carregando o estandarte da nova fé do Alcorão, cujas palavras impulsionavam o seu avanço. Essa luta dos fiéis pela concretização de um império teocrático na época mamoetana deu-se o nome de جهاد Jihad, que significa "luta", "esforço". O termo jihad, que fora usado naquele contexto para descrever a guerra que o fiél executaria contra as outras crenças não-muçulmanas, fora interpretado pelas diversas escolas posteriores de interpretação corânica (Sha'afi, Hanafi, Maalaki, Hanbali, entre outras) de forma alegórica para muçulmanos de épocas posteriores. Estas escolas interpretavam o termo jihad como a luta que o fiél deveri travar no seu dia-a-dia para agradar a Deus ou ao semelhante (conhecida como الجهاد الكبير - aj-jihad al-kabir, "a grande luta"). Mesmo a escola hanbali, considerada a mais tradicionalista e cuja interpretação é a mais literalista dentre todas também, considera uma jihad do fiél contra outras crenças baseada principalmente na discussão e argumentação, e não na guerra com espadas. Nestes tempos pós-maometanos, ainda que a fé continuasse a se expandir (chegando a alcançar a Península Ibérica!), os muçulmanos utilizavam a espada como último recurso. Esta última interpretação, que a escola Hanbali expusera mais que as outras, é conhecida como "a pequena luta" (الجهاد الصغير - Aj-jihad as-saghir), nome que frisa justamente a sua importância secundária diante da "grande luta" do fiel, que é com ele mesmo em sua submissão a Deus.

Bem, isso poderia pertencer a um passado sangrento islâmico, se não fosse o atual fenômeno que vem disseminando-se entre os imames de todo o mundo:  a adesão e pregação de um literalismo na interpretação corânica, a profusão de grupos radicais (e, consequentemente, a difusão do pensamento terrorista) e o avanço rumo ao Ocidente do Islam. É verdade que estes grupos  ainda constituem uma ponta no próprio Islam, que se diz a religião da paz. Concordo que haja sim, a busca de paz por muçulmanos sinceros e desejosos em cumprir sua religião e ter bons vínculos com seus vizinhos não-muçulmanos, principalmente em países ocidentais. Quero deixar claro que valorizo o que há de interessante, e que dignifica o Homem, no Islam e na cultura muçulmana e árabe. Essa apreciação é inevitável, na verdade, como estudante que sou desta maravilhosa língua. Os árabes desenvolveram uma cultura riquíssima nas artes, poesia, música, literatura etc, bem como no desenvolvimento técnico-científico na Idade Média, quando nos países árabes floresceu a Matemática, Engenharia e a Astronomia enquanto a Europa se encontrava atrasada nestes avanços.  Na verdade, eles estavam explicitando a criatividade que é inerente à Humanidade, criada à Imagem do Deus Eterno. Por outro lado, precisamos reconhecer que existe algo inerente ao próprio texto corânico, na própria história da religião e na leitura interpretativa desfalcada destes, que tem gerado este tipo de ação e uma aplicação extremista das regras religiosas e sociais dentro do Islam. Como cristão e conhecedor dos ensinos da religião muçulmana, que não são conforme às Escrituras, dos embates que os muçulmanos tiveram com a fé cristã (bem como a resposta deles a ela) e do que poderemos enfrentar atualmente com sua expansão no Mundo, reconheço o papel que Paulo nos alertara para cumprir em uma de suas epístolas.  Escrevendo a Timóteo, ele afirmara a difusão perene da sã doutrina, como e quando defendê-la e do perigo que os cristãos indultos correriam em se desviar dela para doutrinas que não são conforme a Salvação de Deus, tal como revelada nas Escrituras Sagradas

"Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino, que pregues a Palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério." (II Tm 4:1-5)

Comecei este post com uma abordagem histórica geral e mostrei as bases da fé  para poder posteriormente entrar no campo apologético. Expus a necessidade disso também nestes últimos parágrafos, mas esta exposição apologética, mais detalhada, caberá em um próximo post.

Retratação Pública à Igreja de Cristo

Postado por Erike Couto

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Olá gente!

Tem algum tempo que não posto nada aqui (e põe tempo nisso!). Como eu tinha alguns posts em rascunho, decid publicá-los. Mas antes, mudei o layout do blog. Escolhi este pois temos a sensação de estar de frente a um pergaminho antigo, e são neles que estão as maiores preciosidades da História. O versículo bíblico em hebraico é de Esdras 3;2, que relata o povo de Israel que retornara do Exílio Babilônico restaurando o culto a Deus. Em português o texto diz "edificaram o altar do Deus de Israel, para oferecerem sobre ele holocaustos, como está escrito na lei de Moisés, o homem de Deus". Além de ser um versículo que tem profundo significado, nele aparece a expressão (em negrito) que deu nome ao blog, kakatuv.

Pois bem... decidi iniciar esta nova fase neste blog com a publicação de uma retratação feita por mim em conjunto com amigos, irmãos do peito. Nela, pedimos perdão ao Corpo de Cristo, a Igreja, por termos nos identificado com ela e até mesmo termos dito professar a fé cristã mas ao mesmo tempo negligenciado crenças tão basilares - e até mesmo inegociáveis - das Escrituras Sagradas, como a Santa Trindade ou a atuação plena da graça de Deus sobre a vida do crente. Na verdade, esta nova fase não é só do blog, mas também de minha vida como cristão.

Na minha modesta opinião, creio que o conteúdo da carta pode ser resumido na seguinte expressão: ela expressa uma ortodoxia cristã reformada mínima adotada por mim e por aqueles que a subscreveram. Explicarei cada termo para ficar mais claro: quando digo ortodoxia, me refiro à doutrina correta de algo (de όρθος, órthos, corretoδόξα, doxa, doutrina). O adjetivo cristã delimita esta doutrina. Não é à ortodoxia islãmica, judaica, hindu ou de qualquer outra crença que me refiro. É à doutrina correta ensinada por Jesus Cristo e seus seguidores iniciais (apóstolos e discípulos) e posteriores (cristãos dos primeiros séculos). Ela se baseia nas Sagradas Escrituras Cristãs (Antigo e Novo Testamento) e é de certa forma bem estabelecida e firme, unindo cristãos de todas as épocas e lugares no mundo.

Antes de explicar o último termo, quero fazer um panorama histórico rápido aqui. Apesar de ter afirmado a pouco que a doutrina cristã dos primeiros séculos era bem conhecida e firme, tenho também a consciência que, de forma gradual, em algum momento da História a Igreja de Cristo começou a se enveredar por sendas de doutrinas deturpadas ou que não refletiam plenamente o que as Escrituras ensinavam. No início da Idade Média, por exemplo, este fenômeno já era praticamente imperante na Igreja da época. Uma das causas deste enveredamento foi a sobreposição do que a Tradição ensinava sobre aquilo que as Escrituras Sagradas prescreviam. Preciso deixar claro que a Tradição não é algo ruím, pois nela encontramos comentários feitos por líderes e teólogos cristãos sobre a Bíblia, cujo objetivo era que esta fosse aplicada a vida do crente de forma integral e inerrante. Por isso ela se tornou de certo modo os óculos necessários para que a Revelação fosse lida e interpretada, evitando desvios doutrinários. Até ai tudo bem! O problema ocorreu quando interesses egoístas ou políticos acabaram influenciando estas interpretações tradicionais, ocasionando além de uma imposição da interpretação errônea, que acabara entrando na Tradição, em detrimento ao ensino correto bíblico, também a restrição do acesso ao texto bíblico per si por parte do cristão.


Mas, como o Espírito Santo habita na Igreja e a guia a toda verdade, como Jesus prometera (Jo 16;13), ocorreu uma mudança de rumo na História. Alguns homens perceberam este e outros erros que permeavam a vida dos cristãos e que deformavam o relacionamento deles com Deus e sua visão de mundo e conduta. Eles então decidem consertar (ou reformar) a Igreja de então destes erros, e ensinar o que deveria ser o correto. Por isso inauguram em meados do século XVI um movimento que toma proporções mundiais conhecido como Reforma Protestante. Entre seus maiores expoentes estão Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio.

Um dos princípios expostos pelos Reformadores era que, mesmo que a Tradição tenha o seu lugar e importância na Igreja, ela deve sempre ser confrontada com a inerrante Palavra de Deus para que doutrinas errôneas não contamine o verdadeiro ensino de Cristo. Por isso que, apesar de terem feito uma "limpeza" na Tradição, os Reformadores não deixaram aquilo que foi ensinado e promulgado nos primeiros séculos do Cristianismo, pois sabiam perfeitamente que a doutrina estabelecida nestes tempos continha a base daquilo que os cristãos verdadeiros deveriam acreditar e professar. O interessante é que este movimento é contínuo e efetiva-se até hoje. Não é em vão que um dos lemas, escrito em latim, daqueles que professam uma fé cristã reformada seja Ecclesia reformata semper reformanda est que significa "Igreja reformada sempre está se reformando". Eis a explicação para o acréscimo do adjetivo reformada ao termo ortodoxia no início desse texto: seguimos o movimento que deseja uma Igreja santa, limpa e mais próxima do que nunca da Revelação de Deus.

Bem... leiam explicitamente na carta o que somente introduzo aqui. Para abrí-la, cliquem no link abaixo. Provavelmente escreverei alguns posts sobre estas coisas. Falar delas é falar da fé no Cristo que nos salva e nos faz à Sua imagem, a imagem do verdadeiro homem. Nele, somos os humanos que Deus nos criou para sermos, retos diante Dele.