Gimel (I)

Postado por Erike Couto

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Retornando aos comentários sobre as letras hebraicas, este post será sobre a letra gimel. Ela é a terceira letra do alfabeto hebraico (fig. 2.b, na forma quadrática da letra). Seu som sempre é de um “g” forte, como de galo mas nunca g fricativo como em gelo. Seu valor numérico é 3.

Pois bem. A respeito de qual representação pictográfica esta letra derivou não se tem muita certeza, como a maioria das letras hebraicas. As formas dela no fenício e proto-semitico, praticamente idênticas, são representadas na figura 2.a. Alguns estudiosos, como Alan Gardiner em sua obra “The Egyptian Origin of the Semitic Alphabet”, acreditavam que esta letra derivava da forma de um cajado ou haste na língua egípcia (fig. 1.a). Mas outros pesquisadores afirmam que poderia ser derivada do hieroglífico egípcio para “pé, perna” (fig. 1.b), trazendo consigo a idéia de “andar, caminhar, trazer, estabelecer”. Esta ultima opinião é a que sustento. Vejamos o porquê é a mais coerente.


O nome original desta letra provavelmente não era “gimel” (גימל), tal como a nomeamos atualmente, mas “gam” (em árabe até hoje é assim pronunciado, jam, جَم). Interpretando as letras que formam este antigo nome, teremos o significado original e primitivo de sua raiz e seus derivados. A letra Mem (מ), como veremos adiante em outro post, significa “águas” ou “mar”. Se o g (Gimel) de gam significa “pé, andar, caminhar” e o m (Mem) “águas”, então temos “andar para perto da água”. Estranho? Para nós pode não haver significado algum nesta frase, mas para os antigos hebreus ela era extremamente significativa e prática. No deserto, o “mundo” dos povos nômades, o local onde os hebreus faziam suas tendas para descansarem ou firmarem acampamento antes de partirem para outro local em busca de mais rotas de comerciantes ou para algum centro urbano era algum lugar perto dos oásis, locais com verdadeiras fontes de água, em plena sequidão do deserto, onde humanos e animais (como camelos, jumentos etc, animais de carga e transporte para o comércio e deslocamentos) poderiam estar juntos se reabastecendo para uma nova jornada. Como o hebraico é uma língua lógica, cuja base é a vida semi-nômade-pastoril hebréia primitiva, então esta raiz (gam) em sua antiga língua quer nos mostrar justamente isso: o “ir e se ajuntar ao local das águas” para a sobrevivência no deserto de animais e humanos.

Para conferirmos isso mais de perto, é só vermos a partícula גם em hebraico. Ela significa “também” ou “e”, e sempre traz a idéia de associação, conjunção, agrupamento, como em Ct 7:13 “As mandrágoras exalam o seu perfume, e às nossas portas há todo o gênero de excelentes frutos, novos e velhos (חדשים גם ישנים); ó amado meu, eu os guardei para ti”. Igualmente o verbo gamam, גמם que não possui documentado seu uso no hebraico antigo, mas que tem o significado de “ajuntar, congregar, aumentar, amontoar”. Isso porque a sua raiz cognata no árabe tem este mesmo significado (جَمّ, jamm - Gímel em árabe tem som de "j") e no hebraico antigo ela se encontra no núcleo da palavra מגמה, megammah, e significa “bando, ajuntamento” (árabe جمة, jummah). Este vocábulo hebraico aparece uma única vez no Velho Testamento, em Hq 1;9, na expressão מגמת פניהם, que pode ser traduzida como o ajuntamento de seus rostos”.

A partir do que foi visto acima, podemos perceber que aquela idéia mostrada anteriormente de “dissecar” a palavra, averiguar o significado primitivo dela (de “ir ao local das águas”) e comparar com as suas raízes derivadas já está funcionando. Mas, resta-nos algo ainda: há alguma raiz derivada de gam que esteja ligada ao elemento “água” e não somente à idéia de “ajuntar”, como vimos até agora? A resposta é "sim", existe! Melhor que isso, há uma palavra na qual estes dois elementos, o de “ir, ajuntar” e “água” se encontram. Ela é גמא gome’ e significa “junco”, justamente o nome da planta que se “ajunta, aglomera” ao redor da “água” dos rios, como ao longo do grande rio Nilo, para absorver este tão precioso bem para o seu crescimento. Esta mesma raiz, quando se encontra conjugada no hif’il, significa “dar de beber”, como na passagem de Gn 24:17, quando o servo de Abraão, Eliezer, diz a Rebeca “deixa-me beber (הגמיאיני, hagmi’ini) um pouco de água do teu cântaro”.

Pronto! Fecha-se o raciocínio. É extremamente interessante perceber como a formação das línguas semíticas e de seus alfabetos, em geral, e do hebraico, em particular, é algo rico e lógico. Gostaria de comentar mais algumas coisas, como a relação com a noissa vida prática, atual, destas relações de raízes hebraicas, mas para que este texto não acabe se tornando enfadonho, mas sim um singelo e espontâneo comentário sobre esta letra hebraica, deixarei o restante do raciocínio para um próximo post.