Beit (I)

Postado por Erike Couto

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Continuando nossos posts sobre as letras hebraicas, a próxima letra que iremos nos aprofundar é o Beit. Quero seguir a ordem alfabética pois acho mais interessantes para comentários posteriores que irei fazer.



A letra Beit (ב) no hebraico é a segunda letra na ordem alfabética, e tem o valor de “2”, quando usada como numeral. Ela tem essa forma, chamada de “quadrática”, por causa da influência das letras feitas por cuneiformes na Babilônia, na época do Exílio do povo judeu por aquelas bandas dos rios Tigre e Eufrates. Sua forma pré-exílica original, no proto-semítico e no fenício (cujo alfabeto foi tomado pelos hebreus posteriormente), era conforme mostrado na fig. 1. b. Esta forma é a achada nas inscrições encontradas em Serabit El-Khedim, que indicam a evolução do Beit proto-semítico apartir deste hieróglifo egípcio. Essa origem pode ter sido o hieróglifo cujo desenho era de um recinto (fig. 1a, na palavra egípcia para "templo", hwt, e na fig. 1.c, na palavra para horizonte, akhet).




Ela se encontra em muitas outras línguas semíticas, como no árabe (cujo nome é Ba - ب). Seu nome deriva da palavra Beit (בית) que significa “casa” (בית, bayt em hebraico bíblico). Daí a Betel bíblica (בית-אל, beit-el, “casa de Deus”) de Gn 12:18, onde Abraão fez sua tenda (אהל, ‘ohel) e edificou um altar ao Senhor. Ali também Jacó teve um sonho que, segundo o relato de Gn 28:16-17, tomou para si como sendo uma teofania e, dali em diante, reconhecera o local como casa de Deus (Gn 28:19).



Agora pergunto: o que a casa é para nós, humanos? Todos os animais tem uma “casa” – o passarinho seu ninho; o urso, sua caverna (Zé Coméia pelo menos tem a dele!); o leão, uma sombra projetada por alguma árvore na Savana para seu aconchego (acho que essa é a casa dele rsrs); as formigas, o bem estruturado formigueiro e assim por diante. Mas nós, seres feito à Imagem do Criador, além de vermos na casa um aconchego, refúgio contra o que está fora, vemos nela um lugar de interioridade, intimidade e também onde construímos algo para a posteridade. Hoje, em um mundo que é ao mesmo tempo tão cheio de “culturas humanas” (mesmo que existissem antes, foram estudadas melhor na Modernidade, como as do Extremo Oriente) e os progressos tecnológicos, mas ao mesmo tempo tão breve e vazio, temos a necessidade mais do que nunca de termos um local onde nos sentimos humanos, de onde podemos construir algo que permaneça para gerações, como um família estruturada e uma herança (também financeira, mas principalmente de vida e dignidade!) para nossa posteridade.



A casa no deserto: tenda de um nômade




Vejamos o que a letra Beit nos mostra sobre todos estes valores: quando ela vem anexada no início de alguma palavra, significa “em” e, às vezes, “com”, como em Gn 2:15 “E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim (בגן, be-gan, no-jardim) do Éden para o lavrar e o guardar”. O que está “em” está no “interior”. Nossa casa é “dentro”, e não “fora”! Existe, claro, muita gente que é mais amiga que nossos familiares (PV 18:24), mas ainda não há coisa mais preciosa para alguém que ter uma família, em sua casa, em seu interior, em que se possa confiar e compartilhar de sua vida, quer sucessos, quer insucessos não é mesmo?



Não só isso, mas quando fazemos o paralelo entre esta letra e algumas raízes hebraicas que derivaram dela, vemos o quanto o pensamento semita antigo, principalmente o dos hebreus, é interessante, e ainda nos ensina algo para nossa vida, valores que mesmo sendo simples, tem uma importância extrema para nós, (pós?)-modernos.



A palavra Bait (בית) veio da raiz “בנה” (banah - “construir, edificar”). Mas onde está o “Nun” (נ) de בית, Beit? E podemos saber com toda a certeza esta relação entre Bait e banah? Sabemos a relação entre bait e a raíz banah na verdade por analogia com outras palavras parecidas com bait que contém raízes relacionadas a elas cujo Nun caira com a evolução natural da língua. Por exemplo, a palavra para “bolsa” (hebraico bíblico) ou “bolso” (hebraico moderno) – כיס (kis), vem da raiz כנסkanás – “entrar, ajuntar”. Quando ocorre isso em algumas palavras com mais de uma silaba, sabe-se que havia uma letra que “caiu” através do Dagesh Forte (sinal que indica consoante duplicada) que é posto no meio da letra seguinte a letra caida, indicando que a letra for a reduplicada para “tomar o lugar” da letra que caira. Isso ocorreu com חָזִּיר (chazir – “porco”), cuja forma original provavelmente fora חנזירchanzir (conferir o árabe خِنْزِير chinzir, onde o antigo Nun foi preservado). Mas, por alguma razão até agora por mim desconhecida, o Dagesh Forte não aparece na escrita massorética do texto bíblico na palavra para Bait. Por isso precisamos fazer estas analogias dela com outras palavras para chegarmos a conclusão proposta no início deste parágrafo.



Uma casa para a moradia é a construção humana por excelência, além de ser a primeira de todas as construções (ou aluguéis) que um homem faz na vida! Como estamos lidando com o pensamento de um povo antigo, semítico, expresso pela língua que falavam, precisamos saber também que alguns costumes eram quase obrigatórios à vida de um homem maduro. Um deles, após ter (en)casado, era o de ter filhos (Gn 1:22). Por isso as palavras para filho (בן, ben) e filha (בת, bat) em hebraico são derivadas da raiz banah e da palavra bait. É evidente a derivação na palavra ben, mas na palavra para filha precisamos conferir o árabe, onde a palavra para “menina, filha” é بنت (bint), onde o Nun de banah ainda se preserva. Daí, compreendemos que os filhos eram o objetivo final para aquele que construía um lar, uma casa, no pensamento hebraico, pois eram eles que levariam seus bens, materiais, de costumes e – principalmente – espirituais, para as gerações futuras. Este quadro é encravado hieroglificamente na própria palavra para filho, ben, formado pelas letras Beit (“casa”) e Nun (raiz relacionada às idéias de “semente”, “broto” e “prolongar”, “vir posteriormente nas gerações” – aramaico נונא, nuna, “peixe” – por causa de sua proliferação – e Sl 72:17 ”O seu nome permanecerá eternamente; o seu nome se irá propagando de pais a filhosינין, yanin - enquanto o sol durar…”): “os bens perpetuados nas gerações futuras”, que é justamente a função do filho na família hebréia antiga.



Para finalizar este (gigante?) post, existem outras duas palavras que queria mostrar aqui, relacionando-as com o que foi dito acima: בין (bein – “entre”, “espaço vazio entre dois ou mais objetos/pessoas”) e בינה (binah – “entendimento, compreenssão”). Elas provavelmente vêm também da raiz banah, pois para você construir algo, precisa ter compreensão e discernimento daquilo que faz, principalmente se for uma casa para sua própria família. “Entre” contém o elemento de “interioridade”, “espaço” entre as coisas, daí a derivação de banah e bait.



Veja o quanto aprendemos quando “ouvimos” aquilo que o pensamento bíblico-semítico nos tem a dizer, fazendo-nos atentar para conceitos que os modernos tempos querem ofuscar com uma luz energizada pela Razão humana, mas não pelo Pai das Luzes (Tg 1:17), que é a verdadeira fonte de entendimento e sabedoria para nossas vidas e comportamentos.



1 comentários:

  1. Igor Miguel

    Continue postando menino... depois leia meu último post sobre o estilo de texto que temos que adotar em blogs... amei seu post!

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