A Beleza da Caligrafia Árabe

Postado por Erike Couto

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Eu estou (re)estudando atualmente uma das línguas que considero mais bonitas, tanto em riqueza de vocábulos quanto na escrita: o árabe. Idioma pertencente ao ramo das línguas semíticas (mais especificamente da família semítica ocidental), ela é uma língua dinâmica e atual, falada (de acordo com Ethnologue) como língua nativa por cerca de 221 milhões de pessoas. Após a expansão do Islam, apartir do séc. VII d.C, passou a ser a língua religiosa de 250 milhões de mulçumanos ao redor do mundo. Um dos motivos para este status dado ao árabe foi sua utilização na escrita do Qurãn (ou Alcorão),1 livro sagrado do Islam.
Os árabes que aderiram ao Islam, desde que este fora fundado por Maomé, se restringiram em representar seres humanos ou animais em desenhos ou esculturas, temendo que isso pudesse ser tomado por alguns como idolatria ou representações da realidade que poderiam ser postas no lugar da adoração a Deus. Por isso, eles desenvolveram uma complexa (e exuberante) arte caligráfica, que seria usada como adorno e decoração nas mesquitas2 ao redor do mundo.

(Fig. 1: Frases em árabe adornando medalhões suspensos no interior da mesquita de Santa Sofia, em Istambul, Turquia)

Como resultado de mais de 14 séculos de desenvolvimento, a caligrafia árabe se tornou uma arte que exalta, de uma só vez, o apreço árabe pela literatura, pelo expressão do pensar (através da escrita) e pela fineza e delicadeza dos traços, que ganham vida, expressando aquilo que está escrito sob a forma de belos desenhos e formas, mesmo diante do olhos do ignorante da língua sagrada do Islam.
Costumeiramente, os desenhos ou frases estilizados, incrustados nas muros nas cidades e vilarejos do Médio Oriente, são versículos ou ditos do Alcorão, confissões de fé (como o Basmallah ou a Shahadah) ou máximas árabes. Algumas destas pinturas em mesquitas são compostas por textos inteiros, cujas palavras são entrelaçadas de formada complexa ou altamente simétrica, cuja beleza pode ser equiparada, por exemplo, com os afrescos existentes na Capela Sistina, no Vaticano (guardando as diferenças que há entre o Ocidente e o Oriente, claro).
Apesar de profundo admirador, não entendo muito de caligrafia árabe. Mas, levado por um sentimento de louvor a Deus por tamanha beleza, expressa sob a forma de letras, riscos e linhas, feitos por esta cultura milenar, decidi postar este pequeno comentário sobre esta arte árabe.3
Os calígrafos árabes dividiram em grupos os estilos de escrita utilizados para o delineamento desta arte das letras. O primeiro estilo cúfico. É o mais antigos dos estilos de escrita árabe. Ele leva este nome por causa da cidade de onde ele foi difundido, Kufa, no Iraque, cuja fundação remonta à época de Maomé, no século VII d.C.

(Fig. 2: Página do Qurãn do século XI d.C em escrita cúfica)

O Thuluth (“terceiro”) é o estilo que foi mais utilizado em monumentos, mesquitas e edificações em todo o mundo árabe. Desenvolvido principalmente a partir do século XI d.C, não se sabe ao certo porque ele leva este nome. Supõe-se que advenha do fato que a proporção das letras, quando comparadas com o estilo anterior, cúfico, seja três vezes maior.

(Fig. 3: Bandeira da Arábia Saudita: A Shahadah escrita em estilo Thuluth)

O estilo que é uma evolução direta do anterior e que teve o uso irrestrito em diversas cópias do Qurãn foi o Naskh. Seu nome, a propósito, significa justamente isso: cópia. Isso porque sua escrita é a escrita do Thuluth suavizada para a escrita à mão, para que fossem feitas as cópias do livro sagrado do Islam.

(Fig, 4: Página da primeira sura do Qurãn, Al-fatiha, em escrita Naskh)

Por fim, o estilo denominado Nasta’liq (ou Taliq) foi o que mais gerou frutos em seu uso fora do mundo árabe. Desenvolvido por volta do séc. X na Turquia, este estilo foi incorporado, e levemente modificado, por diversas línguas que passaram, depois da expansão do Império Islâmico, a utilizar o alfabeto árabe. Entre estas línguas, estão o urdu e o farsi. Ele é caracterizado por traços rápidos e leves, que acompanham os movimentos da mão quando escrito.

(Fig. 5: Texto persa escrito em Nasta’liq)

Abaixo, alguns exemplos de caligrafia árabe sob a forma de desenhos e formas, exuberantemente desenhadas, que falam por si só:









Quando vejo expressões da cultura humana tão bem elaboradas como a caligrafia árabe desenvolveu ao longo dos séculos, tenho um sentimento de gratidão a Deus, pois sei que somente Ele poderia ter oferecido tamanha graça ao homem, capacitando-o neste tipo de arte como este povo tem conservado ao longo de sua história. Sei também que, na maioria dos casos, os calígrafos árabes nem cogitavam a possibilidade que era Ele que produzia o movimento em suas mãos para tal feito (ou se tinham conhecimento disso, muitos não O conheciam como Ele deveria ter sido conhecido por eles). Mas, sendo nós agentes de redenção no mundo, cuja manifestação como filhos de Deus é ansiada pela Criacão (Rm 8:19), temos o papel de retornar o louvor da expressão de nossa humanidade, incrustado na Cultura, para o Deus Todo-Poderoso, tornando o mundo, mais uma vez, “muito bom”, como no princípio de tudo (Gn 1:31).

Notas:

1) Lit. “recitação”, é o nome do livro sagrado para a religião islâmica, sendo considerado a última revelação à humanidade dada por Deus (Allah em língua árabe) a Maomé (Muhammad), no início do século VII d.C.
2) Em árabe, masjid, lit.: “local de adoração”. Nome dado ao local de reunião comunitário para preces da religião islâmica.
3) Tomei como base as informações encontradas no site http://www.arabiccalligraphy.com/ac/ (acessado em 01/08/09 às 21:00h).