O que fazer com Jesus Cristo?

Postado por Erike Couto

Escrito por C. S. Lewis¹

“O que fazer com Jesus Cristo?”. Esta é uma questão que tem, em certo sentido, um lado desesperadoramente cômico. A figura de uma mosca sentada decidindo o que vai fazer com um elefante possui elementos cômicos. Pois a verdadeira questão não é sobre o que nós vamos fazer com Jesus Cristo, mas o que Ele vai fazer conosco. Contudo, talvez, o questionador quis dizer o que fazer com Ele no sentido de “como resolveremos o problema histórico a nós lançado pelos ditos e feitos registrados desse Homem?”. Esse problema envolve reconciliar duas coisas. Por um lado, tem-se a quase geralmente admitida profundidade e sanidade de Seu ensino moral, que não é muito seriamente questionado, mesmo por aqueles que se opõem ao Cristianismo. Na realidade, acho que, quando estou discutindo com pessoas extremamente anti-Deus, elas preferem fazer o seguinte apontamento: “Sou inteiramente a favor do ensino moral do Cristianismo” – e parece ser de aceitação geral que, no ensino desse Homem e de Seus seguidores imediatos, a verdade moral é exposta da maneira mais pura e melhor. Não é idealismo desleixado, é cheia de sabedoria e argúcia. O seu todo é realista, revigorado ao mais alto nível, o produto de uma mente sã. Este é um fenômeno.

O outro fenômeno é a natureza muito espantosa dos comentários teológicos desse Homem. Todos vocês entendem o que digo, e quero realmente ressaltar o ponto de que a afirmação espantosa que esse Homem parece fazer não é feita meramente em um momento de Sua carreira. Há, é claro, aquele momento que levou à Sua execução. O momento em que o sumo sacerdote Lhe disse: “Quem és tu?”. “Eu sou o Ungido, o Filho do Deus eterno, e me verás aparecendo no fim da história como o juiz do Universo”. Mas tal afirmação, de fato, não termina nesse momento dramático. Quando se olha para Sua conversa, será encontrado esse tipo de afirmação presente em toda a história. Por exemplo, Ele caminhava dizendo a pessoas: “Eu perdôo os teus pecados”. Ora, é bastante natural que um homem perdoe algo que se faça a ele. Assim, se alguém me trapaceia em cinco libras, é bastante possível e razoável para mim dizer: “Bem, eu lhe perdôo, não tocamos mais no assunto”. O que você diria se alguém a você devesse cinco libras e eu dissesse: “Tudo bem, eu perdôo a ele”? Daí, parece que algo curioso escapa quase por acidente. Em uma ocasião, esse Homem está sentado em um monte observando Jerusalém e de repente surge um extraordinário comentário: “Sempre vos envio profetas e sábios”. Ninguém comenta sobre isso. No entanto, muito repentinamente, quase incidentalmente, Ele está afirmando ser o poder que, pelos séculos, tem enviado sábios e líderes ao mundo. Eis aí outro comentário curioso: em quase todas as religiões existem desagradáveis observâncias como o jejum. Esse Homem, de repente, comenta em certa feita: “Ninguém precisa jejuar enquanto eu estiver aqui”. Quem é esse Homem que observa que Sua mera presença suspende todas as regras normais? Quem é essa pessoa que pode, de repente, dizer à Escola que eles podem ter um período de meio-feriado? Às vezes, as declarações propõem a suposição de que Ele, o Orador, é completamente sem pecado ou culpa. Essa sempre é a atitude. “Vós, para os quais eu falo, são todos pecadores”, e Ele nunca, sequer remotamente, sugere que a mesma reprovação pode ser dirigida contra Ele. Ele diz novamente: “Sou o unigênito Filho do Único Deus; antes que Abraão existisse, Eu sou” (e lembre-se o que as palavras “Eu sou” significavam em hebraico. Eram o nome de Deus, que não devia ser falado por qualquer ser humano, nome que, se declarado, condenava à morte).
Bem, esse é o outro lado. De um lado, ensino moral claro, definido. De outro, afirmações que, se não verdadeiras, são as de um megalomaníaco, comparadas com as de que Hitler era o mais são e humilde dos homens. Não há meio-caminho e não há paralelo em outras religiões. Se você tivesse ido até Buda e lhe perguntasse: “Tu és o filho de Brahma?”, ele teria dito: “Filho meu, ainda estás no vale da ilusão”. Se você tivesse ido até Sócrates, e lhe perguntasse: “Tu és Zeus?”, ele teria rido de você. Se você tivesse ido até Maomé e lhe perguntasse: “Tu és Alá?”, ele teria primeiramente rasgado as próprias vestes e, depois, decepado sua cabeça. Se você tivesse perguntado a Confúcio: “Tu és o Céu?”, acho que ele teria provavelmente replicado: “São de mau gosto comentários estranhos à natureza”. A idéia de um grande mestre moral dizendo o que Cristo disse está fora de cogitação. Em minha opinião, a única pessoa que pode dizer aquele tipo de coisa é ou Deus, ou um completo lunático sofrendo daquela forma de ilusão que solapa toda a mente do homem. Se você acha que é um ovo cozido, enquanto está procurando uma fatia de torrada para lhe cair bem², talvez você seja são, mas se você pensa que é Deus, não restam chances para você. Podemos notar, de passagem, que ele nunca foi considerado como um mero mestre moral. Ele não produziu esse efeito em qualquer das pessoas com quem Ele realmente encontrou. Ele produziu principalmente três efeitos: Ódio, Terror, Adoração. Não há resquícios de pessoas expressando aprovação moderada.

O que fazer para reconciliarmos os dois fenômenos contraditórios? Uma tentativa consiste em dizer que o Homem não disse realmente essas coisas, mas que Seus seguidores exageraram a história, e assim desenvolveu-se a lenda de que Ele lhes havia dito aquilo. Isso é difícil, pois Seus seguidores eram todos judeus; isto é, eles pertenciam à nação que, dentre todas as outras, era a mais convicta de que havia somente um Deus – de que não poderia existir outro. É muito estranho que tal terrível invenção sobre um líder religioso tivesse se desenvolvido no meio do povo, na face da terra, menos propenso a cometer esse engano. Pelo contrário, temos a impressão de que nenhum de Seus seguidores imediatos ou mesmo os escritores do Novo Testamento apegaram-se tão facilmente à doutrina.

Outro ponto é que, segundo essa visão, seria preciso considerar as narrativas do Homem como sendo lendas. Ora, como historiador literário, eu estou perfeitamente convencido de que, o que quer que os Evangelhos sejam, eles não são lendas. Tenho lido um grande número de lendas, e estou bastante certo de que eles não são o mesmo tipo de coisa. Não são artísticos o suficiente para serem lendas. De um ponto de vista imaginativo, eles são desajeitados, não se conectam a coisas adequadamente. A maior parte da vida de Jesus nos é totalmente desconhecida, assim como é a vida de qualquer um que viveu naquele tempo, e nenhuma pessoa construindo uma lenda permitiria que assim o fosse. Exceto por pedaços dos diálogos platônicos, não há conversas que conheço, na literatura antiga, como o Quarto Evangelho. Não há nada, mesmo na literatura moderna, até aproximadamente cem anos atrás, quando o romance realista veio à existência. Na história da mulher apanhada em adultério, é-nos dito que Cristo se curvou e rabiscou na areia com Seu dedo. Nada advém disso. Ninguém jamais baseou qualquer doutrina nisso. E a arte de inventar detalhezinhos irrelevantes para tornar mais convincente uma cena imaginária é uma arte puramente moderna. Ter realmente acontecido não seria, claramente, a única explicação dessa passagem? O escritor expôs a situação dessa maneira, simplesmente porque a havia visto.


Então, chegamos à mais estranha história de todas, a história da Ressurreição. É muito necessário deixá-la clara. Ouvi um homem dizer: “A importância da Ressurreição é que ela dá evidências de sobrevivência, evidências de que a personalidade humana sobrevive à morte”. Para essa visão, o que aconteceu com Cristo seria o que havia sempre acontecido com todos os homens, a diferença sendo que, no caso de Cristo, fomos privilegiados de ver tudo acontecendo. Isso, certamente, não é o que os escritores cristãos primitivos pensavam. Algo perfeitamente novo na história do Universo acontecera. Cristo havia vencido a morte. A porta que sempre estivera trancada foi, pela primeira vez, deixada escancarada. Isso é bem distinto de mera sobrevivência do espírito. Não quero dizer que eles desacreditavam na sobrevivência do espírito. Pelo contrário, eles acreditavam nisso tão firmemente que, em mais de uma ocasião, Cristo teve de assegurar-lhes de que Ele não era um espírito. O ponto é que, enquanto acreditavam na sobrevivência, ainda consideravam a Ressurreição como algo totalmente diferente e novo. As narrativas da Ressurreição não são um retrato de sobrevivência após a morte; registram como um modo de ser totalmente novo surgiu no Universo. Algo novo apareceu no Universo: tão novo como o primeiro surgimento de vida orgânica. Esse Homem, após a morte, não fica dividido em “espírito” e “cadáver”. Um novo modo de ser surgira. Essa é a história. O que fazer com ela?

A questão é, suponho, se qualquer hipótese cobre os fatos tão bem quanto a hipótese cristã. Essa hipótese é a de que Deus desceu até o Universo criado, até a humanidade – e subiu novamente, puxando-a consigo. A hipótese alternativa não é lenda, nem exagero, nem as aparições de um espírito. É loucura ou mentiras. A menos que alguém possa aceitar a segunda alternativa (e eu não posso), volta-se para a teoria cristã.

“O que fazer com Jesus Cristo?” Não existe questão quanto ao que podemos fazer com Ele, é inteiramente uma questão de o que Ele pretende fazer conosco. Você deve aceitar ou rejeitar a história.

As coisas que Ele diz são muito diferentes das que qualquer outro mestre disse. Outros dizem: “Esta é a verdade sobre o Universo. É por este caminho que deveríeis ir”, mas Ele diz: “Eu sou o Caminho, e a Verdade, e a Vida”. Ele diz: “Nenhum homem pode alcançar a realidade absoluta, a não ser por Mim. Se tentares reter tua própria vida, serás inevitavelmente arruinado. Dá de ti mesmo, e serás salvo”. Ele diz: “Se te envergonhas de Mim, se, quando ouves este chamado, tu te voltas para o outro lado, Eu também olharei para o outro lado quando voltar como Deus, sem disfarce. Se algo está te afastando de Deus e de Mim, o que quer que seja, lança isso fora. Se é teu olho, arranca-o. Se é tua mão, decepa-a. Se te colocares em primeiro lugar, serás o último. Venham a Mim todos os que carregam um fardo pesado, e Eu consertarei esse problema. Teus pecados, todos eles, são apagados, Eu posso fazer isso. Eu sou Renascimento, Eu sou Vida. Come-Me, bebe-Me, Eu sou Tua comida. E, finalmente, não temas, Eu venci o Universo inteiro”. Essa é a questão.

Notas:

1. Tradução: Djair Dias Filho. C. S. LEWIS, ‘What are we to make of Jesus Christ?’, In: ____________. C. S. Lewis – Essay Collection: Faith, Christianity and the Church. Londres: HarperCollins, 2002. Reimpresso de Asking Them Questions, Third Series, editado por Ronald Selby Wright (OUP, 1950), reproduzido em Undeceptions (1971) e God in the Dock (1998).

2. Torrada com ovo cozido, refeição tipicamente inglesa. (Nota do Tradutor).

Extraído de http://cristianismototal.wordpress.com/2010/06/17/o-que-fazer-com-jesus-cristo/

Um Messias "cristão" em um antigo poema judaico (Parte 1)

Postado por Erike Couto

Visitando alguns sites israelenses há algumas semanas, me deparei com um site católico que tinha estudo no mínimo ousado: em um dos estudos do site, o autor afirmava que um trecho de um piyut encontrado no Machzor que, aparentemente falava do Messias judaico que há de vir, na verdade falava sobre o Messias Jesus! Li com calma o trecho da oração e, para a minha surpresa, realmente ela parece falar sobre Jesus Cristo. Colocarei aqui o texto original, a transliteração e a tradução dele feita por mim e comentada ad nauseam no Facebook (agradeço especialmente aos amigos Igor Miguel, Aíla Pinheiro e Davi Almeida pelos comentários e ajuda na tradução).


Original

Tradução Transliteração
Então, desde antes de "No princípio" / A Bela Morada e o Perene estabeleceu

Talpiot nas alturas, desde o princípio / Projetou antes que houvesse povo e língua

Aconselhou à Sua Divina Presença ali repousar / e guiar os errantes nas sendas retas

Se a iniquidade enrubesceu / Ele antecipou o "lavem-se" e "purifiquem-se"

Se com Sua fúria se enfureceu contra a Sua Temível / O Santo não ascendeu toda a Sua ira

Estávamos sujeitos em nossas ambições até agora / Nossa Rocha não berrou contra nós

Apartou-se de nós o Messias da Nossa Justiça / Ficamos aterrorizados, e não havia quem nos justificasse

Nossas transgressões e o jugo de nossas iniquidades / Ele carregou e foi ferido por causa de nossas iniquidades

Suportou sobre o ombro os nossos pecados / Ser achado como perdão por nossas transgressões

E por sua ferida nós fomos sarados / Ó Eterno, agora é o tempo para criará-lo como nova criatura

Do círculo elevá-Lo / Para desde Seir soltá-Lo,

Para anunciar a nós no Monte do Líbano / Uma segunda vez, por meio do Perene
'az millifnei bere'shit / Naveh veYinnon hishit

Talpiot marom meri'shon / Tikkan térem kol am velashon

Shichnô "atz sham lehashrot / Shogim lehadrich bid'rachei yesharot

Resha" 'im he'ediym / Rachatzu vehizzakku hiqdiym

Qétzef 'im qatzaf be'ayumatô / Qadosh lo' ya"iyr kol chamatô

Tzummatnu bevitz"enu "ad "attah / Tzurenu "aleinu lo' ga"tah

Panah mennu Meshiach Tzid'kenu / Pullatznu ve'ein mi letzaddekenu

"avonoteinu ve"ol pesha"einu / "Omês vehu' mecholal mippesha"einu

Sovêl "al shéchem chattô'teinu / Selichah metzô' la"avonoteinu

Nirpa' lanu bachavuratô / Netzach beriyyah chadashah livrô'tô

Mechug ha"alehu / MiSe"iyr had'lehu

Lehashmiy"enu beHar haLevanon / Sheniyt beyad Yinnon



Este pelo poema judaico foi composto por Eliezer Kalir. Nascido em algum ponto do séc. VII ao séc. X d.C, ele foiu um dos mais profícuos e antigos poetas litúrgicos. Mais sobre a vida dele pode ser encontrado na Enciclopédia Judaica. Um dos seus poemas mais conhecidos, "Az Lifnei Bereshit", é uma ode à glória de Deus que existia antes de haver Mundo e às coisas criadas por Ele para o sustento de Israel. Neste link é possível visualizar o Machzor¹ com este poema completo com uma tradução para o inglês e, nas páginas 231 e 232, pode-se ver o trecho cuja tradução se encontra acima.

Quem lê tanto a tradução acima quanto a que está no antigo Machzor se espanta com a semelhança entre o que é dito ali e com o Messias delineado no Novo Testamento, conhecido como Jesus. Farei alguns comentários que elucidarão alguns pontos do poema, evidenciando ainda mais essas semelhanças.

No verso 1, encontramos duas palavras hebraicas, "Naveh" e "Yinnon". Esses são os nomes dados ao Templo e ao Messias, respectivamente, na literatura mística judaica. O primeiro é baseado no seguinte versículo:

"Olha para Sião, a cidade das nossas solenidades; os teus olhos verão a Jerusalém, habitação (Navêh) quieta, tenda que não será removida, cujas estacas nunca serão arrancadas e das suas cordas nenhuma se quebrará." (Isaías 33:20)

E em Êxodo 15:13:

"Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação (navéh) da tua santidade."

Já a segunda denominação (Naveh) foi tirada deste versículo bíblico:

"Permaneça o seu nome eternamente; continue a sua fama (Yinnon, em hebraico) enquanto o sol durar , e os homens sejam abençoados nele; todas as nações o chamem bem-aventurado." (Salmos 72:17).

O trecho "enquanto o sol" é "lifnei hashemesh" em hebraico é literalmente "diante do sol" ou "antes do sol". Por causa do caráter explicitamente messiânico, da obscuridade em volta da palavra Yinnon e do significado ambíguo de "lifnei shemesh" (que pode ser entendido "antes [de existir] sol"), os judeus entenderam que o verso original "lifnei shemesh inon shmô" significa "antes de existir sol, seu nome já era Yinnon". Ainda que "Yinnon" seja um verbo e signifique "estabelecido", "o que é continuado", foi tomado por eles como um dos nomes próprios do Messias.

"Talpiot", no verso 2, é um hapax legomenon² na Bíblia Hebraica. Essa palavra se encontra no livro de Cantares, no seguinte verso: 

"O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada para pendurar armas (heb.: talpiot); mil escudos pendem dela, todos broquéis de poderosos." (Cânticos 4:4)

Um dos significados atribuídos a Talpiot é de "tal piot", isto é, "monte de fios (de espadas ou armas)". Esse termo foi utilizado na tradição mística judaica ao Templo, a Jerusalém, ao Jardim do Éden (ou ao Paraíso) etc³ . Lembrando que há conexões, em diversos ligares da Bíblia, entre o Éden e Israel/Jerusalém/Templo, como em Gênesis 13:10, Isaías 51:3 e, no próprio Novo Testamento, na Carta aos Hebreus. Por isso os rabinos fizeram essa conexão dentro de uma única palavra.

Mas, segundo o poema, o Templo e o Messias já existiam "desde antes de 'No princípio'"? Sim! Isso parece muito com a idéia que João escreveu em seu Evangelho, ao falar do Verbo Divino (Jo 1:1) e com o que vemos de Templo Espiritual em Hb 8:1-2,5:

Ora, a suma do que temos dito é que temos um sumo sacerdote tal, que está assentado nos céus à destra do trono da majestade, Ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem [...] como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou. (Hebreus 8:1-2,5)
Perceba a semelhança entre "ministro do verdadeiro santuário [...] o qual o Senhor fundou" com "A Bela Morada e o Perene estabeleceu", verso 1 do poema. Mas o poema encontra base para esse verso na tradição que se acha no Talmude Babilônico:

שבעה דברים נבראו קודם שנברא העולם, ואלו הן תורה ותשובה וגן עדן וגיהנם וכסא הכבוד ובית המקדש ושמו של משיח.
"sete coisas foram criadas antes que fosse criado o Mundo, e elas são: a Torá e o arrependimento, o Paraíso e o Inferno, o trono de Glória e o Templo, e o nome do Messias". (Talmude Babilônico, tratado Pesachim 54b).
Para dar base às coisas criadas antes do Mundo, os rabinos usaram versículos bíblicos. Para o nome do Messias, utilizaram o versículo de Sl 72:17, justamente o que fala de "Yinnon" (ou "o Perene").

Em breve publicarei mais um post com a Parte II deste estudo.

Notas:

1) Machzor (cuja tradução é "ciclo", "período") é o nome dado ao livro de orações que é utilizado especificamente na época de Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico) e no Yom Kippur (Dia da Expiação ou Perdão). Ele é repleto de orações místicas e poemas medievais, belamente compostos para expressar a profundidade desse período de juízo divino e confissões de pecados.

2) Hapax Legomenon significa "dito uma única vez" e se refere aos termos que aparecem somente uma vez em todos os textos bíblicos.

3)  http://www.etzion.org.il/vbm/archive/10-jeru/17jeru.php

Pensar...: Confissão Belga e Trindade

Postado por Erike Couto

Pensar...: Confissão Belga e Trindade: Gosto de relembrar que nossa fé protestante, principalmente aquela de tradição reformada, vem produzindo alinhamentos doutrinários importan...

#9 Pergunta do formspring: o quer dizer o "Eu sou o que sou" de Exôdo 3:14?

Postado por Erike Couto

Tenho uma suspeita para aquilo que significa אהיה אשר אהיה ('ehyeh 'asher 'ehyeh) de Ex 3:14 e irei expô-la aqui.

No Egito, havia uma divindade que originou todas as coisas e outros deuses. Seu nome era "Khepri" (hpry). Este nome vem do verbo egípcio para "tornar a ser, existir", que é exatamente o verbo usado por Deus em Êxodo. O nome dessa divindade pode ser inclusive lido como "o que pertence ao ser" (bem filosófico não? rsrs). Como o nome "khepri" parece o nome para "escaravelho" (kheper), então este deus passou a ser associado ao escaravelho divino, que como o animal terrestre carregava a bolota de fezes, carregava Rá, o sol, ao longo do céu.

Aquela divindade egípcia era considerada primordial, sendo como uma energia, um poder soberano que movia os deuses, a criação e renovação da vida e até o próprio Rá, o rei dos deuses. Em muitos textos egípcios, como em um papiro com um dos mitos da criação egípcia, disponível no Museu Britânico. Ali, o deus Khepri fala que "eu sou aquele que veio a ser na forma de Khepri (o que é)".

Deus, no contexto de Êxodo 3, se revela a Moisés como aquele que é o criador de tudo - dos coxos, cegos e mudos - e por isso estava enviando-o para uma missão. E isso está ligado à revelação dele ao nome "Eu sou", e é este que se chama "Eu sou" (ou "Eu me torno") é que o envia a Faraó, aquele que na terra que era protegido por essa divindade egípcia, Kheperi. Então, nesse caso, Deus quis confrontar os conceitos de Moisés, e a força do mito e religião egípcia que envolvia o poder no Egito e o próprio Faraó, ao colocar sobre si um título tão forte quanto esse.

Esse é somente um palpite, baseado em algum conhecimento de egípcio e Egito antigo que adquiri. Um outro meio possível de interpretar este título é que ele é um jogo de palavras com o próprio nome "YHWH" (יהוה), o nome da aliança de Deus, que também parece derivar da raiz de "ser" ou "tornar-se" em hebraico.

Há algumas outras, mas não me vêm a mente no momento...

#8 Pergunta do formspring: Como podemos comprovar que a Torah entegue a Moisés é a mesma que lemos hoje?

Postado por Erike Couto

Como não sou especialista nisso, só irei dar meu palpite aqui. Eu creio nas camadas de redação da Torá, mas não conforme a alta crítica da escola alemã (iniciada por Julius Wellhausen em fins do séc. XIX). Creio que houve um grande evento de libertação do povo hebreu do Egito e um grande evento de revelação no Mt. Sinai (independente de sua identificação por nós hoje) e que, ali, o Deus YHWH fez uma aliança com eles e lhes entregou o núcleo, e onde também foi compilado uma boa parte, daquilo que mais tarde seria conhecida como "Torá" (ou Pentateuco). Partes do Pentateuco que relatam o antepassado de Israel são atribuídos pela tradição judaico-cristã a autoria mosaica.

Essa tradição tem plausibilidade por ser, por exemplo, uma tradição muito peculiar (que narra derrotas e fracassos, diferente dos povos da antiguidade) de um povo semi-nômade (sem pretensões algumas de registrá-las, exceto se algo muito grandioso tivesse ocorrido). Além do mais, esta tradição contém elementos difíceis de explicar fora, e posterior, à época/autoria mosaica, como o contexto egípcio detalhado de certas passagens sobre José e o próprio Moisés, com descrição de posições e nomes de origem egípcia bem específicos. Sabe-se também que os cananeus, e os hebreus provavelmente, já conheciam uma forma de escrita proto-semítica, derivada dos hieróglifos egípcios, descoberta há alguns anos atrás na região do Sinai. Por essas, e outras razões, eu dou crédito à tradição Moisés recebeu a Torá, mesmo que ela tenha sido completada depois de anos (ou séculos) desde a sua vida. A própria tradição judaica - como o Talmude Babilônico - e os cristãos antigos sugeriam estes retoques no Pentateuco, como a inserção de trechos sobre a morte de Moisés por editores posteriores. Hoje, várias linhas de pesquisa em Israel, por exemplo, sugerem mais uma unidade do texto da Torá que uma colcha de retalhos de fontes de várias partes da coleção sagrada, sugeridas através, por exemplo, do estilo de linguagem e uso de certos títulos divinos em determinados trechos e seções delas.

Então, enfim, creio que a Torá é de origem mosaica, teve partes reveladas por teofania e outras por inspiração do autor, através de memórias de relatos antigos. Algum tempo depois, outros redatores vieram e sobrepuseram as outras camadas que, até uma época da História de Israel, o texto foi recebido para ser utilizado como Palavra de Deus normativa, divinamente inspirado para reger a prática e doutrina do povo.

#7 Pergunta do formspring: A palavra semente em hebraico tem o significado de semem, ou é apenas linhagem sanguinea?

Postado por Erike Couto

No hebraico bíblico a palavra "zerá' " (זֶרָע) tem estas três acepções: semente (ou semeadura), sêmen e prole (ou filhos, descendência).

Como um cristão deve celebrar a Páscoa?

Postado por Erike Couto

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Como um cristão deve celebrar a Páscoa?


Introdução

Existem hoje muitos movimentos que têm se distanciado da verdade das Escrituras e da simplicidade do Evangelho. Movimentos tais como o das Testemunhas de Jeová ou do Mormonismo são, já de longa data, reconhecidamente heréticos pelos cristãos. Mas, há vários outros movimentos que têm surgido e se espalhado entre igrejas evangélicas (e até católicas!), de forma sorrateira e diversificada. Dentre estes, um é especialmente bem perigoso à saúde da fé cristã: o movimento do restauracionismo. Em pontos gerais, ele propõe uma volta à Igreja do primeiro século (ou à Igreja dos Apóstolos), pois ela era pura e sem mácula, em contraposição com a Igreja dos outros séculos, com doutrinas estranhas e de origens pagãs.

Existem graus de heresias dentro do movimento restauracionista. Mas há uma lógica interna, uma regra dentro do movimento, que leva aqueles cristãos, ou as suas igrejas que adotam seus pressupostos, das heresias mais leves às mais graves. Esta regra é o pressuposto de que a Igreja primitiva ou do primeiro século era a igreja mais pura que poderia ter havido. Um outro passo que os adeptos desse movimento dão, após esse, é o de considerar a predominância de judeus e da judaicidade da Igreja antiga um critério de pureza e de imitação pela Igreja atual. Eles não atentam ao fato de que a Igreja do Novo Pacto estava sendo iniciada no seio de Israel, indo em direção às nações. Os restauracionistas afirmam que a Igreja do século II d.C em diante passou a comportar muito mais não-judeus (ou gentios) do que judeus, e então os elementos da cultura gentílica, pagãos e anti-bíblicos entraram nela. Por isso que hoje a Igreja precisa urgentemente se despir destes elementos e substituí-los por elementos da identidade e cultura judaicas. Com certeza essa é uma visão distorcida da liberdade cristã e do acolhimento das nações na Igreja através do Evangelho.

Em um nível mais leve, pode aparentar ser ações até inofensivas, como a negação na celebração da Páscoa ou do Natal cristãos somente. Mas, em graus mais graves aos quais esta lógica pode levar, estas igrejas podem se judaizar completamente, adotando as festas bíblicas ("Por que não? São bíblicas!" dizem...) e judaicas, utilizando-se expressivamente da língua hebraica nos cultos e louvores, instaurando a circuncisão e a autoafirmação de identidade judaica entre não-judeus etc. No campo da doutrina, podem chegar à negação daquilo que consideram "posteriores" ao primeiro século como a Trindade, o cânon (ou o próprio) do Novo Testamento como inspirado, as duas naturezas de Cristo (a humana e a divina), a salvação somente pela graça (pois o cumprimento da Lei é definitivo à vida dos membros destes movimentos) etc. São pontos que mereciam destaque aqui para serem tratados em sua gravidade, mas tratarei deles em outros posts. Neste - por causa da época da Páscoa em que nos encontramos - tratarei somente de um subponto: a celebração da Páscoa cristã e sua rejeição pelo movimento restauracionista.

A Páscoa: definição

Páscoa é o nome apostuguezado do nome hebraico פֵּסַח (pêssach)¹. Essa forma portuguesa veio via grego, πάσχα (páscha). A palavra hebraica deriva da raiz פ.ס.ח. que significa "saltar, pular". Como ilustração, a palavra "coxo" em hebraico vem desta raiz, פִּסֵחַ (pissêach), justamente por causa da deficiência que causa-lhe a necessidade de pulos. Essa festa foi instituída pelo próprio Deus, quando tirou israelitas do Egito no êxodo à terra de Canaã, a terra prometida a Abraão (Gn 12:7).

Sangue do cordeiro sendo passado nos umbrais das casas dos israelitas.

A festa em si foi instituída no capítulo 12 de Êxodo. Na iminência da última e mais terrível praga sobre o Egito - a morte dos primogênitos -, Deus institui um sinal para distinguir os israelitas dos egípcios: cada chefe de família deveria tomar um cordeiro sem defeito no 10º dia do mês do calendário hebreu (mês de Abibe ou Nisã, como é conhecido em um período posterior) e preservá-lo em suas casas sob vigilância até o 14º dia, quando seria imolado ao pôr-do-sol. Seu sangue então seria retirado e aspergido com um molho de hissopo (talvez fosse o nosso orégano) sobre os umbrais das portas das casas. A carne do cordeiro também deveria ser comida completamente, sem deixar sobras, assada diretamente no fogo, acompanhada de ervas amargas e pães sem fermentação (ou ázimos). Os pães eram comidos assim e tudo deveria ser feito às pressas porque Deus, à meia-noite, iria passar por sobre o Egito. Os primogênitos dos egípcios, que não possuíam a marca nas portas, seriam mortos. Já os dos israelitas, que a possuíam, seriam preservados com vida. Logo depois, eles sairiam no meio da noite em marcha a Canaã, fugindo do Egito. Mas, longe de ser um evento isolado, todo este ritual foi ordenado também por Deus como uma celebração de memória, a ser feita de geração a geração, perpetuamente. Seria um meio vívido de ensinar um evento remoto às crianças das próximas gerações - e, como mais tarde Deuteronômio define, não mais de pressa e desespero, mas alegria e paz -, de como Deus libertou Seu povo do cativeiro e agora eles descansariam reclinados para a celebração.

A Páscoa Judaica: Lembrança do Passado, Antecipação do Futuro

A Páscoa foi comemorada por séculos pelos israelitas. Mas, depois do Exílio Babilônico (séc. VII a.C) ela passou por algumas incrementações. Ela ganhou uma ordem de como a ceia deveria ser feita (em hebraico: sêder), com cada elemento em seu momento de ser servido e explicado. Para esta explicação, foram reunidas histórias e contos sobre o Êxodo e seus personagens, bem como cânticos a serem entoados no momento da ceia. Isso tudo foi reunido séculos mais tarde em uma obra, que deu-se o nome de Hagadá (em hebraico: "o relato").

Mesa com os elementos do tradicional sêder (ceia) da Páscoa judaica
Por volta do ano 100 a.C, o famoso rabino Hilel acrescentou aos ritos da antiga Páscoa elementos novos, como quatro cálices a serem bebidos um por vez, após determinados elementos, como as ervas amargas e os pães ázimos. Cada cálice simbolizava algo: o primeiro era pelo início e santificação da cerimônia; o segundo é tomado antes dos ázimos e da explicação da Páscoa às crianças (arguição de quatro perguntas sobre a festa feitas por elas aos pais); o terceiro simboliza a ação de graças pelos elementos à mesa, a redenção do Egito e a abundância desta redenção (este cálice deve transbordar); e o último é o cálice dos louvores de agradecimento e júbilo pela redenção. Estes louvores também falavam da expectativa no futuro Messias que viria para trazer a libertação do cativeiro das nações a Israel e sua paz e reinado sobre o povo de Deus. Outros elementos foram acrescentados também mais ou menos nesta época, como o aficoman (אפיקומן). Durante a cerimônia, os pães eram partidos em vários pedaços. Um deles era encoberto com um pano e escondido até o fim da cerimônia, quando era comido juntamente com a carne do cordeiro pascal.

Jesus: o Messias Redentor e a Páscoa

Como vocês podem perceber, a Páscoa como descrita acima foi a celebrada por Cristo e seus discípulos. Eles, como bons judeus, a fizeram em todos os detalhes do mandamento e das tradições da época. Mas, mais que isso, Jesus também tomou a Páscoa como peça central, como chave importante para a compreensão de seu papel messiânico. Por isso esse relato é encontrado nos três dos quatro evangelhos (e, no último, apesar de não haver o relato, ele é ecoado no discurso à multidão em Jo 6).

Mais que celebrar, Jesus mostra-nos que houve uma mudança radical na história. A redenção e libertação de Israel prefigurava a libertação futura de Israel pelo Messias dos exílios e dos cativeiros nas mãos das nações estrangeiras e a instauração da paz definitiva. Prefigurava o banquete messiânico final, quando todos os justos, ressurretos, estariam sob o reinado de Deus.

Ao celebrar a ceia pascal, Jesus afirma que essas expectativas messiânicas estavam entrelaçadas com o estabelecimento da Nova Aliança profetizada em Jr 31, que incluía todas estas promessas também: a renovação e purificação de Israel (Ez 36), a libertação do domínio estrangeiro (Is 62:8-9), as bençãos frutíferas e abundantes que viriam sobre a terra deles (Jl 3:18) e o domínio do reinado de Deus com o Messias (Zc 14:9). Ele não somente as relaciona, mas também afirma solenemente que esta Nova Aliança estava se iniciando partir daquela última Páscoa com seus discípulos, antes da crucificação. Mas, o elemento desconsertante também entra em cena: Ele tinha afirmado antes daquele momento, e na Páscoa reafirma, que a Sua morte na cruz romana - o ato mais desonroso e maldito pelos judeus sob domínio de Roma - seria aquilo que daria início a este processo! Parecia que as coisas não estavam se encaixando. Não é em vão que os apóstolos e discípulos, depois de Sua morte, ficaram com medo e desnorteados.

A tumba está vazia, pois Ele ressuscitou!

Mas, aquele que tinha todos os sinais para ser o Messias prometido, o Rei de Israel, estava agora morto por um ato de execução romano, enfaixado e sepultado. Situação mais desesperadora não poderia haver! O que os discípulos não contavam é que os ditos misteriosos de Jesus sobre ser ele a ressurreição e a vida e as suas parábolas usando Jonas como referência de vida após a morte se concretizariam! E, ao terceiro dia, para espanto e alegria de todos, Jesus ressuscita!

A Páscoa era uma fechadura, com símbolos e elementos que apontavam a algo futuro trancados em uma cerimônia preservada desde o passado hebreu. E justamente a chave para destrancá-la, a ressurreição de Cristo, é dada ao povo de Deus e à História: Ele não ressuscita em um corpo qualquer, dessa criação somente, como Lázaro o foi algum tempo antes por Suas próprias mãos. Ele ressuscita em um corpo dessa criação renovado, restaurado e glorificado. Isso quer dizer que todas as promessas de libertação dos cativeiros e opressões estrangeiras e a restauração, citadas acima, foram cumpridas Nele. Jesus, como o novo Moisés, possui aquilo que as promessas de frutos abundantes e habitação com Deus, preditas nos profetas, prefiguravam: a própria plenitude do Espírito, recebida como dádiva pelo Pai. (Ez 36:25-30 e Jl 2:28). Mas, e os seus discípulos? Eles formavam essa comunidade de Israel renovada. Por isso Jesus chamou doze dentre eles para serem apóstolos (isto é, mensageiros das boas novas do Reino do Messias e sua restauração, representando as doze tribos de Israel) e chamou de "minha Igreja" edificada sobre a rocha em Mt 16:18 (que agora incluiria não somente judeus, mas também não-judeus, Mt 28:18-20). Como este povo reunido ao redor Dele era um com Ele - assim como Ele era um com o Pai (Jo 17:21) -, Jesus assim poderia compartilhar com eles a promessa do Espírito que Ele recebera do Pai, derramando-o sobre este povo, como ocorreu em Pentecostes (Lc 25:49 e At 2:33). Este Espírito seria aquele que faria a obra necessária no coração dos homens, trazendo o Reino de Deus escatológico para a história, mudando a vida deles e fazendo-os nascer de novo (Jo 3:3) e entrar em uma nova aliança firme, eterna e direta com Deus em Jesus Cristo (Jr 31:31-34 e I Tm 2:5).

Paralelos entre Páscoa Judaica e a Redenção em Cristo

Mas de que forma essa grande redenção em Cristo estava prefigurada na Páscoa bíblico-judaica? Paulo afirma depois em I Co 5:7 que Cristo é nosso cordeiro pascal porque, pelo seu sangue, eliminamos o fermento que simboliza o pecado e somos purificados. Isso porque a substituição no Egito do cordeiro que é morto para que os israelitas vivessem e fossem salvos da ira de Deus apontava para Cristo, que morre como maldito de Deus, recebendo a ira que era destinada a nós, para que vivêssemos em novidade de vida (Rm 6:4). Paulo diz em outro lugar também que Deus nos transportou do império das trevas para o Reino de Seu Filho Jesus, numa clara linguagem pascal. Os despojos de ouro e jóias que Israel tomou dos egípcios ao sair de sua terra e a recepção da Lei pelo povo no Sinai e, logo depois, o derramar do Espírito de profecia sobre os anciãos do povo, prefiguravam as riquezas que receberíamos em Cristo (Ef 3:16, Hb 11:26), Seu Espírito em Pentecostes e a Lei de Deus escrita em nossos corações, nos guiando em santificação à plenitude da vida que Cristo tem guardada para nós (I Pe 1:3-5).

Cordeiro
A Páscoa Cristã

O Cristianismo antigo compreendeu bem esta realidade suprema em Cristo, prefigurada pela Páscoa. Isso já tinha sido sinalizado nas diversas passagens referidas acima, e em uma em particular (Co 2:16-17): "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo". Cristo é a realidade substancial de tudo que foi dito e vivido por Israel e pelos profetas. Mais que isso, Ele é o rei de Israel que cumpre tudo o que Israel descumpriu na aliança firmada no Sinai: Ele foi fiel a todos os mandamentos de Deus e agradou o Pai em tudo que fez (Lc 3:22, Hb 4:14-15). Por isso que, aquela vinha que Isaías falara - cortada por ter dado frutos imaturos e inúteis (Is 5) - poderia agora florescer como ramos da videira verdadeira, Cristo (Jo 15). Ele é o Israel e israelita verdadeiro e, como corpo Dele e unidos a Ele, podemos ser parte de Sua semente bendita e receber as bençãos da Nova Aliança, pela fé, já prometidas remotamente a Abraão (Ga 3:16, 26-29). Israel tinha a promessa das bençãos, mas ele não a recebeu pois tropeçara (Rm 11:7). Então Jesus, no lugar de Israel, recebe as bençãos em plenitude e distribui aos eleitos de Deus, que creem e permanecem Nele. Somente desse modo israelitas e gentios podem receber as bençãos de Deus: unindo-se a Cristo, para serem restaurados e viverem como um único povo de Deus, a comunidade santa, a Igreja (Ef 2:14-18, Ap 7).

A Igreja cristã teve ataques de doutrinas espúrias, entre elas a que dizia que Israel foi rejeitado por Deus por ter rejeitado Jesus como Messias, matando-o. Isso é uma clara afronta às Escrituras, que diz que Cristo foi morto por propósito eterno de Deus (At 2:23), pelas mãos das autoridades judias (At 2:36) e romanas (não-judias - At 4:27-28). Paulo diz também que, como qualquer outro povo que não recebe o Evangelho, o judeu é indesculpável pelo seu pecado e receberá o juízo de Deus se não se unir a Cristo (Rm 1:16,18). Mas o apóstolo dos gentios também afirma claramente que, por amor aos patriarcas, Deus tem preservado a descendência de Israel até aquele momento (e até hoje também) para que conheçam a Cristo e se tornem então novamente participantes do povo de Deus, a Igreja que havia na Antiga Aliança feita no Sinai e que, agora, foi renovado na aliança iniciada na última Páscoa de Cristo. Na linguagem Paulina, eles poderão ser reenxertados na Oliveira e receber a seiva da raiz de Jessé, a seiva de Cristo (Rm 11).

Mas houve mestres e teólogos cristãos que afirmaram estes ensinos claros e coerentes das Escrituras. Um deles foi Gregório de Nazianzeno (séc. IV), quando, orando, disse que:
"Um mistério me encobriu; eu pude pegar uma porção pequena enquanto estava neste mistério, tanto quanto eu podia examinar por mim mesmo, agora eu venho com um mistério, trazendo comigo o Dia como um bom defensor de minha covardia e fraqueza: que Aquele que hoje subiu dentre os mortos renova-me também pelo Seu Espírito e veste-me com o Homem Novo; pode dar-me a sua Nova criação [...]. Ontem, o Cordeiro foi morto e os umbrais foram ungidos, e o Egito lamentou por seu primogênito, e o Destruidor passou por nós, e o selo foi terrível e temível, nós murados com o Preciosíssimo Sangue. Hoje temos sido feitos limpos saindo do Egito e de debaixo de Faraó, e não há ninguém para nos impedir de guardar a festa para o Senhor nosso Deus, a Festa da nossa partida, ou de celebrar essa festa, não no velho fermento da maldade e da malícia, mas nos ázimos da sinceridade e da verdade (1 Co 5:8), carregando conosco nada de fermento ímpios e egípcio. Ontem eu fui crucificado com Ele, hoje eu sou glorificado com Ele; ontem eu morri com Ele, hoje eu estou vivificado com ele, ontem eu fui sepultado com Ele, hoje eu levanto com ele. Ofereçamos a Ele, que sofreu e ressuscitou por nós! Tu podes pensar que talvez eu direi sobre ouro ou prata, ou obra tecida ou gemas e jóias, mas este material não passa apenas de terra, que continua aqui abaixo, e é na sua maior parte sempre possuído por homens maus, escravos do mundo e do príncipe do mundo. Ofereçamos-nos a Ele! O bem mais precioso para Deus, e mais adequado é isto! Que demos de volta à Imagem o que é feito pela imagem. Vamos reconhecer a nossa dignidade, vamos homenagear o nosso arquétipo, deixe-nos saber o poder do mistério, e pelo o que Cristo morreu." (Sobre a Páscoa e sua relutância, oração I - tradução livre)
Como podemos ver, o que o Cristianismo pregou sempre foi a realidade que temos em Cristo, prefigurada na antiga aliança. Por causa disso, a Igreja entendeu que o centro no qual gira o calendário religioso não era mais a saída do Egito, mas a saída de um antigo mundo/era para um novo mundo/era em Cristo; a saída de uma vida de pecado para uma vida de renovação, frutos, alegria e plenitude de em Cristo, em Seu Reino, iniciada na sua morte e estabelecida em sua ressurreição ao terceiro dia. Por isso, em 325 d.C, o I Concílio de Niceia definiu que a celebração da ressurreição de Cristo seria o centro da Páscoa entre os cristãos. Os judeus antes de Cristo fizeram a releitura da Páscoa, embutindo na redenção do Egito por Moisés a expectativa futura na redenção do Messias. Agora, os cristãos estavam embutindo nela o significado final: a redenção já chegou em Jesus, o Messias judeu e Salvador do Mundo! E, pode-se perguntar, com que autoridade fizeram isso? Fizeram-no com a autoridade do próprio fato alarmante e catastrófico da ressurreição de Cristo, o Verbo de Deus, Deus conosco.

Elementos Pagãos na Páscoa Cristã?

"Agora, há elementos pagãos na festa cristã", dizem alguns. Será? Bem, se pensarmos em "pagão" como sendo elementos de origem pagã que utilizamos hoje no contexto cristão, eu concordo que sim, há elementos pagãos. Mas isso não quer dizer que são símbolos espúrios, pois foram cristianizados e não são ruins neles mesmos. Se entendermos de outra forma a não ser esta, teremos então de radicalizar. Isso porque até mesmo a palavra "deus" (ou "Deus") tem uma origem pagã, derivada de uma antiga raiz indo-europeia que também gerou a palavra "Zeus" (até hoje esta semelhança é percebida!). Leia mais sobre este detalhe neste post que fiz há algum tempo.

Neste antigo post, eu explico que ser tachado de origem "pagã" não ajuda muito para definirmos o que devemos ou não utilizar, captar, crer e praticar. O que define, na verdade, isso é se este paganismo e todas as coisas que ele traz (idolatria, atribuição falsa de poderes da natureza ou puramente humanos, magia etc) ainda estão "ligados" aos animais, objetos e símbolos utilizados por nós. No caso aqui, na Páscoa cristã.

Dois símbolos da Páscoa cristã: o coelho e o ovo.
Para exemplificar, tomemos os símbolos do ovo e do coelho. Muito se é falado da provável (e suspeita!) origem pagã do primeiro. Mas muitos não sabem que este era um símbolo comum de criação, nascimento e vida usado na antiguidade por povos semitas, gregos, romanos e europeus. Com a cristianização do Império Romano, este símbolo foi aos poucos eliminando seu significado pagão e adquirindo um novo significado cristão (nova criação, novo nascimento e nova vida em Cristo e na Sua ressurreição). Provavelmente por isso que este símbolo ficou ligado à esta festa, mas com um novo significado, que retirava e desmistificava o paganismo sobre si e colocava a realidade suprema do que Cristo fez, para ser ensinado a povos de cultura pagã, estranha e, muitas vezes, oral daqueles povos evangelizados.

Mas estes elementos não permanecem pagãos mesmo depois de darmos um novo significado a eles? Não! Não permanecem pagãos. Um exemplo, mais uma vez, para ilustrar bem seria o das palavras. Tomemos o adjetivo "marcial". Ela significa "o que é da guerra" (latim: martialis). Mas, essa palavra originalmente estava ligada invariavelmente ao deus Marte, deus da guerra romano. Hoje, quando falamos "arte marcial", dificilmente pensamos em Marte ou a referência a alguma adoração a ele. O significado é dado pela cultura que circunda estes objetos. Se a cultura que há hoje fosse pagã, então o significado teria sobrevivido. Mas como a cultura é cristã, principalmente nos países europeus onde os símbolos da Páscoa se originaram, então o significado daqueles símbolos também vão ser redefinidos e os pagãos serão derrubados para sempre. A Bíblia promete um tempo em que a redenção, a restauração de todas as coisas viria (At 3:21) e que Deus traria a reconciliação de tudo a Cristo, nos dando também este ministério reconciliatório (2 Co 5:19). Somos embaixadores do Reino de Cristo e se a cultura ao nosso redor é remodelada para centrar Nele, devemos então nos alegrar e não abominá-la.

Ovos de Páscoa decorados com símbolos cristãos (Grécia)
Um problema realmente grave que o restauracionismo traz é expressar opiniões infundadas e unilaterais sobre as origens pagãs dos costumes, não analisando as complexidades na cultura, na história e na formação destes costumes. Algo que eles ignoram completamente é que há um símbolo antigo no sêder de Páscoa, usado por judeus no mundo inteiro, que é justamente (quem diria!) um ovo cozido tostado! Alguns estudos propõe inclusive a influência de trocar ovos de Páscoa pintados nas regiões do Leste Europeu e mais ao Oriente (dos quais saiu o costume cristão) a partir de costumes parecidos que já haviam entre os judeus (duvida? Clique aqui e aqui e veja!). Então, há a possibilidade das origens do ovo de Páscoa cristão serem a partir dos ovos usados em vários costumes e no próprio sêder entre os judeus.

O coelho é outro problema na cabeça de alguns: "um animal considerado impuro pela Torá (Lv 11:5) se torna um símbolo da Páscoa, no lugar - dizem novamente eles - do cordeiro?!". Claro que não é bem assim. Coelho era um animal associado a fertilidade (por sua alta taxa de reprodução) e era usado realmente como símbolo pré-cristão europeu relacionado à primavera e às celebrações da deusa Ostera, deusa solar da fertilidade e da primavera. Inclusive o nome Easter ("Páscoa" em inglês) pode ser associado a este nome, como pode-se ver aqui.  Mas, os missionários cristãos antigos, ao pregar àqueles povos germânicos da Europa, não utilizariam a linguagem que eles entendessem? "Easter" é da raiz das palavras "iluminar, irradiar luz", ligadas também à primavera e do sol que ilumina este período depois do escuro e longo inverno no hemisfério norte. Jesus, em vários momentos do Evangelho de João, afirma ser a vida e a ressurreição, usando também metáforas da luz (Jo 8:12). A cultura, então, foi redimida nestes lugares: o que antes era dedicado a deuses pagãos, agora poderia ser elevado ao Deus santo, através da luz de Cristo. E, se não fosse a cristianização destas regiões, nós muito provavelmente nunca teríamos conhecido o Evangelho.

Talvez a gente pense que esta forma de evangelismo seja bem estranha, mas há dificuldades inerentes à comunicação do Evangelho entre culturas totalmente diferentes que forçam este tipo de estratagema. Na Bíblia vemos Paulo em At 17 pregando aos gregos atenienses. Quem analisa aquele discurso, as palavras e verbos, os elementos e expressões que ele utiliza para formar seu discurso etc, vê que ele foi extremamente habilidoso em utilizar-se daquilo que eles tinham de mais grego para passar uma mensagem que veio de fora da cultura deles. No Antigo Testamento há também um texto curioso, em Is 19:19, que diz que o Egito um dia teria um obelisco no seu meio em honra a Deus. Sabemos que este monumento era erigido em honra ao deus Rá. Há também as afirmações feitas por Deus de que Ele é o marido (em heb.: בָּעָל ba'al) e supridor das necessidades de Israel, e não Baal, o deus cananeu da fertilidade (Os 2). Uma profecia também é dada, dizendo que as riquezas das nações seriam entregues ao Rei em Sião (Is 60:5). Podemos ver, enfim, que a coisa é mais complexa do que imaginamos ser, e explicações por demais simplistas não abarcam todas as dificuldades e complexidades sociais e culturais que são constatadas nas origens da Páscoa cristã.

Conclusão: A Celebração da Páscoa Judaica por Cristãos: problemas e soluções

Apesar de toda essa explicação anterior sobre estes símbolos, não é a minha intensão aqui fazer apologia irrestrita à celebração da Páscoa cristã utilizando-os, ou até mesmo a própria celebração desta festa cristã. Isso porque a celebração da Páscoa é um costume e uma boa tradição na Igreja, já que é uma resposta dela a este evento único e singular, que mudou a História e a fundou como comunidade redimida: Cristo, sua vinda, morte e ressurreição. Mas, mesmo celebrando este evento sublime, ainda assim ela é um costume. Por isso o cristão, em última análise, é desobrigado de celebrá-la, se assim optar. Mas, por honrar ao nosso Salvador e Sua obra, muitos ramos do Cristianismo, como eu, não viram mal em celebrá-la!

Alguns colocam o fato de os símbolos da Páscoa, e até a própria festa, estarem sem o significado cristão real - em grande parte por causa do secularismo e do mercado e sociedade consumista com seus ovos e coelhos de chocolate e propagandas de falsa fraternidade e alegria - como empecilhos para a celebração desta data. Mas, o que eles vêem como empecilho, seria na verdade um meio de mostrar a verdadeira glória da festa: o altar ao Deus desconhecido está lá, envolto em ovos e coelhos. Basta o nosso dedo apontá-lo e a nossa boca apregoar as Boas Novas da festa, e então ouvidos ouvirão e mentes se abriram para a realidade daquele altar.  

Por fim, se o problema são os símbolos, por causa de suas origens, que celebrem a Páscoa sem eles. Mesmo sabendo que o contexto era outro, o trecho de Rm 14 traz um ensino que pode também ser aplicado aqui. O verso 19 afirma que "sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros". Se é para o Senhor, lembre desta data com seus símbolos. Se não trouxer edificação, não o faça.

Mas, se tanto a desobrigação do cristão em celebrar a Páscoa cristã quanto a secularização dela e de seus símbolos fazem com que alguns não se lembrem desta data, o restauracionismo traz uma solução que considero na verdade como um problema que, de todos, é o maior: a proposta de celebrar integralmente a Páscoa judaica no lugar da Páscoa cristã, em comunidades não-judaicas.

É possível sim cristãos celebrarem a festa da Páscoa nos padrões bíblicos e judaicos, mas alguns cuidados precisam ser tomados, pois isso é delicado e pode trazer outros problemas. O Cristianismo, como falei antes, está centrado em Cristo. Paulo afirma que "ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo." (Cl 2:16-17). As festas bíblicas, o tabernáculo (ou o templo depois), o sacerdócio e os sacrifícios (como a Carta aos Hebreus detalha), os ritos de purificação e de santificação apontavam para uma última e suprema realidade: Cristo, Sua obra em carne e a obra do Espírito na Igreja. Por isso que o cristão, que está imerso nesta realidade e revestido de Cristo, não precisa cumpri-las mais, pois não somos participantes do povo do Antigo Pacto.

É por causa disso que, desde as origens, o Cristianismo sempre afirmou-se ser uma fé universal, para todos os povos, diferentemente do Judaísmo. Essa foi a briga dos Apóstolos, especialmente Paulo, com os judaizantes: o Judaísmo previa a circuncisão do não-judeu para que ele entrasse de fato na aliança de Deus com Seu povo. A circuncisão deste não-judeu, fazendo-o um prosélito, colocaria diante dele a responsabilidade do cumprimento de todos os outros mandamentos (receberia o que os sábios judeus denominavam "jugo da Torá" - cumpriria os mandamentos como um judeu, integralmente). Na Nova Aliança em Jesus, essa circuncisão seria feita interiormente, tanto com o próprio judeu quanto com o não-judeu. Desse modo, mesmo que o afastamento definitivo entre sinagoga e cristãos tenha ocorrido somente no concílio de Jamnia (do ano 90 até 130 d.C), este afastamento já estava estabelecido na raiz da pregação do Evangelho anos antes. Paulo, detalhando como isso funcionava, afirmou o seguinte: "qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? [...] Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; [...] Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz (i.e: aos judeus), para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei (i.e.: pelo cumprimento dos mandamentos), porque pela lei vem o conhecimento do pecado. [..] Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. [...] Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão (i.e.: o judeu), e por meio da fé a incircuncisão. (i.e.: o não-judeu)" (Rm 3:1, 9, 19-20, 27, 30).

Com estes muros definidos, o Judaísmo e o Cristianismo caminharam paralelamente, um se afastando do outro de forma gradual. Em algumas regiões, como em Antioquia, por causa da convivência mais geograficamente estreita entre judeus e cristãos, os limites precisaram ser melhor delineados, e o cristianismo precisou se autoafirmar também como uma religião independente do Judaísmo que não cria que Jesus era o Messias (houve, até algum tempo, judeus cristãos dentro da Igreja, alguns heréticos como os ebionitas, outros louvados por, mesmo sendo judeus, serem fiéis à doutrina cristã).

Estes limites estão rígidos hoje, mas não quer dizer que sejam opressores ou intransponíveis. Um cristão pode (e deve) saber a respeito das origens judaicas de sua crença e prática. Quando comecei dizendo que a prática da Páscoa judaica como solução aos cristãos, proposta pelos restauracionistas, fosse na verdade um problema, quis dizer que essa solução pode trazer um distanciamento gradual do verdadeiro sentido da Páscoa judaica, que é Cristo como o cumprimento das ordens de cerimônias do Antigo Testamento (que incluem o Sábado, as festas bíblicas e, em específico, a Páscoa). Nesse sentido, judeus e não-judeus recebe as benesses e bençãos do cumprimento destas ordenanças se estiverem em Cristo, estando desobrigado delas. Existem judeus crentes, chamados de messiânicos, que optam em celebrar estas festas do Antigo Testamento, incluindo a Páscoa bíblico-judaica. Mas, por estarem na Nova Aliança, eles devem fazê-lo como expressão cultural e lembrança por serem também parte do povo do antigo pacto, como parte do povo de Israel. Já o não-judeu pode optar em celebrá-las como uma experiência estética, de imersão no significado de como Cristo expressou ao povo de Israel as verdades eternas de Sua obra, os mistérios que estavam ocultos nos símbolos e nesta bela cerimônia até a Sua vinda em carne e a Sua futura parousia em glória. Isso é perfeitamente saudável e poderá trazer ao cristão o espírito de aproximação com o Israel físico para que, nas palavras de Paulo, ele incite "emulação" os judeus descrentes de hoje e, com a ajuda de Deus, possa até "salvar alguns deles" (Rm 11:14).

Notas
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1 - O "ch" de pêssach e páscha sempre é pronunciado como o ch do alemão (ex: nacht) ou o nosso "rr" bem forte (ex: carro).